12 de outubro de 2007

De Fátima

Gastar 70 milhões de euros com uma igreja, valor tão disparatado pelo luxo que a obra encerra em si, é não só um extravagância, como também uma negação dos valores de humildade, simplicidade e desprendimento material que Cristo ensinou.

As obras foram pagas com as doações feitas pelos peregrinos? Não tenho a menor dúvida de que um bom cristão gostaria muito mais de ver o seu pouco ser transformado em muito, por intermédio de obra social.

A ostentação que o catolicismo revela, presente no luxo de alguns templos, no requinte de certas vestes, na incredulidade de determinadas hierarquias, espelha uma desvalorização dos princípios do cristianismo, em prol da manutenção de um status quo que mais não faz do que afastar as pessoas da fé.
Talvez seja pelo exposto que, sentido-me cada vez mais próximo de Cristo, encontro-me, cada dia, um pouco mais distante daqueles que não conseguem, sabem ou querem, traduzir em actos as palavras ensaiadas.

10 de outubro de 2007

Fundamentalismos

Tenho para mim, do mais profundo do meu coração, que depois de uma certa entrevista que fiz ontem, só vou conseguir voltar a sair à rua com protecção policial. Eu já sabia que a dada altura o ambiente ia aquecer, com direito ao insurgimento, do topo da ofensa auto-infligida.

Perguntar a alguém se assume a relação do grupo político que representa a um movimento de extremistas nazis, mesmo adivinhando-se a negação, com uma expressa e expressiva indignação, não tão bem disfarçada como a solenidade do momento impunha, dificilmente garante um bom resultado final.

São sombrios os caminhos do extremismo. Na modernidade, causa ou consequência, pegam-se em chavões do passado, recuperam-se conceitos, mais que ideologias, provavelmente desconhecidas. Os marxistas não leram Marx. Os nazis ouviram falar de Hitler primeiro no canal História, no zapping da Sic Radical para o Extreme Sports, e depois no blog de um qualquer purista de raça, que usa a rede para impestar cabeças mesquinhas de disparates maiores do que o seu ego, já de si devidamente estimulado ao melhor da punheta de espírito.

Não sei o que me incomoda mais: o que dizem ou a consciência de que acreditam mesmo naquilo. Partilham, linhas gerais, uma superioridade suposta, falando sempre com uma enorme assertividade, como se o mundo inteiro coubesse em duas ou três frases.

Os de direita acham que a moral foi comida por pretos, ciganos e brasileiros. Os de esquerda discordam: a moral existe e está com eles.

Não fora o facto de os seus fundamentalismos colidirem com o meu direito à escolha e de darem cabo da minha noção de tolerância e eu não precisaria de estar para aqui a argumentar. Há uma lógica de intransigência dogmática que deita por terra a partilha democrática, das gentes de ideias claras.

Indigno-me, barafusto e refilo, claro que sim.

Sobre a morte, apenas isto...

Para ser brilhante, basta morrer.

4 de outubro de 2007


Assinala-se hoje o Dia do Animal. A coisa já acontece desde 1935, embora em Portugal passe absolutamente despercebido, vai-se lá saber porquê.

A RTP, ao invés do povão, tem obrigação de saber este tipo de, vá, "coisas". Deve, como estação de serviço público, educar... e é isso que faz! Hoje, a RTP assinala o dia do animal com uma tourada.

O Matvey, não se conteve...


Exmo Senhor Provedor,

Poderia alongar-me sobre o tema das touradas, tentanto perceber qual a ideia subjacente a um ritual satânico, de humilhação pública de animais indefesos, para mero deleite humano, ao melhor estilo romanesco, dos princípios da civilização. Não o vou fazer.
Prefiro usar este canal para questiona-lo sobre o critério que se esconde na decisão de uma direcção de programas que assinala o dia do animal (hoje, 4 de Outubro) com a transmissão de uma tourada, em directo do Campo Pequeno.

Também aqui poderia voltar às touradas e ao facto de se usar património público como palco de carnificina animal. Mais uma vez não o vou fazer.

Portanto, podemos depreender que, segundo o serviço público de televisão, a melhor forma de lidar com a problemática da protecção animal é aniquilar os bichos cornudos.

Defender os direitos dos animais não é mero fundamentalismo. Promover uma tradição cruel e injustificada, para mero deleite cultural de uma minoria, de farto bigode e unha mindinha comprida, é desrespeito pela data, assinalada desde 1935, e pela inteligência dos espectadores que, digamos, não sendo programadores, percebem que há coisas que não combinam (imagine-se a Praça da Alegria apresentada pela Ana Sousa Dias).



Cordialmente,




3 de outubro de 2007

Do Catolicismo

A modernidade tem destas coisas. Tenho o hábito de enviar mensagens de correio electrónico a torto e a direito. Reclamo, acuso, digo e não me calo.

O último e-mail que enviei foi para um bispo e para um padre. Exactamente o mesmo texto, com reflexões pessoais sobré fé, a minha fé. Carreguei no send sem espererar uma resposta, pelo menos da eminência, que julguei demasiado ocupada com as aparições.

Enganei-me.

O e-mail obteve resposta. Do sacerdote, primeiro. Do bispo, depois. O conteúdo da mensagem original e da resposta que dela surgiu não interessa para o caso. Destaco apenas o tom descomprometido da mensagem recebida. Num caso como noutro, para minha confessa surpresa, a linguagem foi cordial e as palavras de compreensão. Não negando o rigor da doutrina, abriu-se um espaço ao diálogo fraterno entre quem pergunta e quem responde. Li sobre amor, sobre compreensão, diálogo e entrega. Recebi um convite a um encontro presencial.

Podemos, continuamos, a discordar do fundamento. Concordamos na urgência de debater ideias. Há muito tempo que o catolicismo não me surpreendia tanto como hoje.

Hiro e eu

As semelhanças são evidentes... eu sou, positivamente, a cara chapada deste gajo. Tirem-lhe o toque oriental e temos o Matvey no seu melhor.

O David Fonseca

Dos que cantam, eu já entrevistei metade. Nenhuma conversa foi, contudo, tão platónica como a que tive hoje com o David Fonseca. Falámos, inclusive, da inexistência do inspiração, para lá do conceito.

O David Fonseca entrou de casaco escuro e t-shirt vermelha, com uns óculos tipo moscardo.

É inteligente, sim. Demasiado complexo, porém.

28 de setembro de 2007

O Tal & Qual


Hoje morreu mais um jornal. O Tal & Qual, fundando em 1982 por Joaquim Letria, fez chegar às bancas o derradeiro número, de uma história que se escreve com 1423 primeiras páginas.

Quando surgiu, ainda virgem, nos quiosques, num clima completamente diferente, muito mais propício a quem queria fazer jornalismo (mas jornalismo mesmo), o jornal propôs-se a mudar o panorama da imprensa em Portugal. Os fundadores sabiam que bastava acreditar ser possível criar um produto para lá do institucionalismo dominante.

A minha relação com o defunto T&Q remonta aos primeiros anos de vida do jornal: Assim que aprendi a ler, aprendi a lê-lo todas as sextas-feiras. O meu pai comprou-o desde o primeiro número. "Faltaram-me um ou dois", comentou. "É obra", respondi-lhe. Quem não lhe seguiu os primeiros anos não vai perceber o que significou o logótipo em tons laranja, que também foi programa de televisão.

A publicação de 'cachas' que abalaram a moral de um país cinzento, de velhas de bigode, costumes pacatos e promiscuidade disfarçada não é 'cousa' que se apague da memória colectiva.

Recordo-me sempre da história da D. Branca e ontem voltei a passar em revista as páginas desse número histórico.Na última década, o Tal & Qual tornou-se uma sombra de si mesmo. Perdeu entusiasmo, ao mesmo tempo que deixou fugir a garra que lhe deu lugar certo nas manhãs das sextas. Desinvestiu-se no jornalismo pensado, trabalhado.

O semanário fez-se folhetim, relator da notícia rápida de secretária. Com uma redacção presa ao imediato, a irreverência do desprendimento foi rapidamente substituída pela imediato da transcrição.

Um jornal fechado em si mesmo é um produto igual a tantos outros. O jornalista refém da redacção, sem a autonomia da pergunta, a exigência do confronto, é um gestor de conteúdos, obrigado a dactilografar 28 páginas do que quer que seja.

Jornais que abrem e jornais que fecham são a consequência natural de um mercado pequeno, armado em gente grande. Num país que não lê, no meio de um 'povão' que não quer, simplesmente, saber, ser-se medíocre é fácil. O problema é ser medíocre, convencido de que se é bom.

Nos últimos anos vi fechar a Capital, o Comércio do Porto, o Independente e agora o Tal & Qual. Todos eles desapareceram por um motivo: Não tinham leitores e sem leitores não há vendas, sem vendas não há publicidade, sem publicidade não há receita, sem receita não há jornal. Em comum, o facto de terem sido grandes à sua escala e deixarem a grandeza escapar.

O Miguel Esteves Cardoso disse certo dia que um jornal não tem que durar para sempre. Acrescento que é preferível desaparecer no momento em que deixa de fazer sentido. Reinventar um jornal só porque sim é condena-lo a um lento definhar, a uma morte dolorosa.

Como jornalista, acredito hoje um pouco menos na profissão. Tenho pena, essencialmente, pelos oito colegas que aguentavam 9000 exemplares vendidos. Eles, agora, como eu, um dia, vão passar recibos verdes para outro lado.