
A puta da morte, destinada a consumir-nos, impõem-se com uma dureza sem reset e não nos deixa outra alternativa que não a de ir desta para melhor. Anos de existência, de criação, mesmo se mediocre ou inexistente - também se cria o nada - entregues ao degradante mundo das larvas. Morrer atrapalha-me a vida, mas apodrecer e ganhar cheiro chateia-me ainda mais. Por isso, quando eu morrer, façam o favor de me cremar.
Entreguem-me às chamas e deixem o fogo consumir a minha carcaça. Depois, destruída a carne, levem os meus ossos para a trituradora e esmaguem-nos até ao pó.
Quando eu morrer, não deixem a minha carne ser roída por vermes famintos. Queimem-me e deitem as cinzas ao poço. Também não quero ser adorado a título póstumo. Se querem gostar de mim, se querem odiar esta presença, façam-no em vida, para depois me deixarem sossegado. Agarrem-se à obra que deixo, mesmo se medíocre ou inexistente, e não ao meu malfadado corpo, que contudo não será corroído ou desgraçado para todo o sempre, porque vocês vão fazer o favor de me cremar.
*escrito em vida.







