8 de maio de 2008

Na Birmânia, segundo diplomatas norte-americanos, terão morrido cerca de 100 mil pessoas, depois do ciclone que atravessou o território. Mas claro, a eventual contratação de um treinador para o Benfica é muito mais importante e por isso percebe-se que surja primeiro no alinhamento dos noticiários.

Tristes de nós.

7 de maio de 2008

A história de G.

Tenho a secretária lá de casa cheia de pastas, repletas de uma vida. Cartas, diários, breves notas. As amarguras e as alegrias de quem tem "ossos de cristal" e convive há mais de 5 décadas com uma doença que lhe toldou as formas.

Chegou a estar presa a uma cama, amarrada durante quatro anos. Libertou-se e construiu uma vida tão frágil como o seu corpo. G., por enquanto é assim que a vão conhecer, é uma mulher coragem, como uma história para contar. Pediu-me para ser o seu narrador e eu não pude dizer que não.

Desejem-me sorte, que eu desejo-me capaz de fazer dela um livro.

6 de maio de 2008

Se eu tivesse um jornal


Seria um produto de qualidade, que apostaria na forma mais nobre de fazer jornalismo, a reportagem. Com conteúdos variados, deixaria para segundo plano o noticiário do dia, para desenvovler temas de interesse público. Marcaria a agenda pela profundidade dos temas e pela irreverência de cada edição.

Se eu tivesse um jornal, seria um semanário e seria gratuito, mas não como os gratuitos que circulam por aí - com redacções cheias de estagiários, que mal sabem escrever ou não passam de esforçados miúdos, iludidos por um sonho que não se vai concretizar, porque o jornalismo actual não é como eles pensam.

Ainda assim, todos quantos lá trabalhassem amariam a profissão. Ninguém teria um horário a cumprir, porque não seria preciso. Os ordenados seriam tão bons quanto fosse possível e o ambiente exemplar. Seria uma redacção com muita luz, numa sala ampla, em que cada um teria o seu próprio espaço, que decoraria e usaria ao seu gosto. A net seria de acesso livre, sem sites restritos.

Nas páginas, nem um comentador dos habituais. Gente de ideias feitas, mas com o ingrediente 'novidade'. Académicos, intelectuais, cientistas, escritores e até jornalistas. Mentes brilhantes, enfim.

Cada peça seria pensada, investigada, reflectida e amadurecida antes de ser publicada, sem espaço para o jornalismo de agência.

Se eu tivesse um jornal, quando eu tiver um jornal, seria, vai ser um jornal de jornalismo e sei que percebem o que quero dizer.

Tenho tudo. Tenho a ideia, tenho a certeza de que vai funcionar. Tenho a pessoa certa e sei quem mais convidar. Alguém quer pagar?

E esta?

"O Ministério Público venezuelano formalizou, segunda-feira, uma denúncia contra Vidal Chacón Pérez, por ter sido apanhado em flagrante a abusar sexualmente da sogra de 100 anos.

Segundo os familiares, a vítima padece de limitações físicas e apresentava sinais de maus-tratos em diversas partes do corpo."

Agência Lusa

1 de maio de 2008

Jerónimo, o sentenciador

Na Assembleia da República, explicando o porquê de não acreditar que as negociações em torno do novo Código do Trabalho produzam resultados, Jerónimo de Sousa fez o aforismo do ano:

"Um ovo com salmonela nunca dará uma boa omolete".

29 de abril de 2008

Que emprego?

Fala-se tanto da importância de criar emprego e louva-se de tal forma o mérito das empresas que, num cenário de crise internacional (e nacional, dissimulada pelos número oficiais e pelo discurso político), tendemos a esquecer a questão que nas sociedade desenvolvidas (entenda-se o conceito na sua dimensão humana) deveria merecer igual dose de protagonismo: Que emprego?

Um emprego a 500 euros, mediante recibo verde, é suficiente para a estatística, mas o que é que resulta daí para o individuo? Pouco ou nada. Está empregado, sim, mas em que condições?

O combate ao desemprego e o desígnio da competitividade devem ser concretizados tendo os trabalhadores como aliados e nunca como inimigos a abater.

Ontem, no debate televisivo das segundas-feiras, defendeu-se, a dada altura, o fim da luta contra o trabalho precário, considerando-a assunto menor (que ideal fascista é este?). Nada mais falso. A valorização do emprego passa também pela valorização do trabalhador, enquanto agente fundamental para o funcionamento das empresas.

O cumprimento das obrigações definidas na legislação, mas também no ordenamento moral das sociedades civilizadas, é um objectivo que deve acompanhar sempre a relação laboral que se estabelece entre um qualquer patrão e um qualquer empregado.

A luta por um trabalho digno, feito de direitos e deveres entre as partes, é tão actual quanto urgente.

Não será fácil, porém, a labuta. Olhando para a classe empresarial a que estamos entregues, percebemos que ela nunca vai aprender as boas práticas que já são seguídas por algumas das maiores empresas mundiais, que até operam em Portugal, e que já realizaram que ter quem trabalha do lado certo da barricada é fácil e vantajoso. Respeitem o meu trabalho, respeitem a minha condição de Homem e terão o meu respeito no regresso.

Honrar o acto de trabalhar é muito mais do que falar em melhores salários - também eles fundamentais, certo. A honra de quem trabalha passa também por assistir à concretização dos mais básicos direitos inerentes à condição humana.

Caminhamos para um quadro de relações laborais feito à medida das empresas, muito mais do que à exigência do mercado. Até porque, admitamos, o mercado somos nós. Somos nós, consumidores, também operários, que damos corpo ao mercado. Somos nós que compramos e vendemos, somos nós que estabelecemos o funcionamento das economias. Onde cabe, na definição, a contradição de sermos causa, consequência e dejecto de algo que existe em nós e por nós?

O mercado, esse Estado sem bandeira, que se sujeite à nossa vontade e não o contrário!

Sempre me inquietaram as leis, as políticas e as regras que se viram contra as pessoas, como se elas fossem um estorvo e não a "razão para". Naturalmente, preocupam-me também as tendências de mercado que nos levam para uma nova espécie de escravatura de sanzala livre, onde tudo é permitido e onde não somos mais do que agentes ao serviço da arbitrariedade humorística de quem chefia.

Perante isto, já erguemos as mangas e tomámos por nosso o que nos pertence por direito? Não. Assistimos passivos. Queixamo-nos aos colegas, na pausa do café (enquanto ainda a temos), à noite, ao jantar, à família e deitamo-nos na amargura de desconhecer o que nos espera.

Não há leis que nos valham, se a mente humana continua corrompida e não pode ser mudada por decreto.

28 de abril de 2008

Quando eu morrer quero ser cremado*


A morte - esse fragmento de tempo que marca a passagem para um estado que nos "fica sempre tão bem" - tem qualquer coisa. Para já (período findo o qual) dificilmente se volta à vida, depois de morto. É preciso, eventualmente, ter uma bela cunha ou ser "filho de boa gente".

A puta da morte, destinada a consumir-nos, impõem-se com uma dureza sem reset e não nos deixa outra alternativa que não a de ir desta para melhor. Anos de existência, de criação, mesmo se mediocre ou inexistente - também se cria o nada - entregues ao degradante mundo das larvas. Morrer atrapalha-me a vida, mas apodrecer e ganhar cheiro chateia-me ainda mais. Por isso, quando eu morrer, façam o favor de me cremar.

Entreguem-me às chamas e deixem o fogo consumir a minha carcaça. Depois, destruída a carne, levem os meus ossos para a trituradora e esmaguem-nos até ao pó.

Quando eu morrer, não deixem a minha carne ser roída por vermes famintos. Queimem-me e deitem as cinzas ao poço. Também não quero ser adorado a título póstumo. Se querem gostar de mim, se querem odiar esta presença, façam-no em vida, para depois me deixarem sossegado. Agarrem-se à obra que deixo, mesmo se medíocre ou inexistente, e não ao meu malfadado corpo, que contudo não será corroído ou desgraçado para todo o sempre, porque vocês vão fazer o favor de me cremar.


*escrito em vida.

As toalhas na dicotomia ser e parecer

Talvez seja de mim, mas incomodam-me as toalhas. Não as toalhas em geral, apenas aquelas "tão portuguesas", que só podiam ser feitas em Portugal. É que as há com bordados, com desenhos ou até com renda e ainda assim não há uma que seja gira. São iguais desde sempre e igualmente feias desde então.

Depois é vê-las na feira, dobradas em bancas repletas ou penduradas na corda, mostrando todo o seu brilho natural (que o linho é "cousa" que brilha imenso, em especial quando fica cagado de nódoas).

No Sábado, passeando-me em Cascais, encurto caminho por entre feirantes e logo sou convidado a prolongar o olhar num ou noutro produto seleccionado. Certo vendedor, coitado, sem qualquer talento para a coisa - que até para vender toalhas é preciso arte e engenho - lá tentou impingir-me a sua mercadoria. A julgar pelo escasso movimento do recinto, o negócio corre mal. Será que já ninguém quer toalhas à portuguesa?

Tenho um armário repleto delas. Uma tia, típica aldeã, acha que é uma ofensa um rapaz tão formoso não ter o seu próprio lote de toalhas e toalhinhas. Cabe-me a tarefa de aceitar e agradecer - missão que cumpro com elevada consideração, porque engolir os preconceitos é, no caso, aceitar o fado de ser português. Não se nega uma existência milenar, só porque o se prefere o plástico como material.

Todos à Alameda

Porque não basta reclamar, de braços cruzados.