9 de junho de 2008

La Maleta Roja


Antigamente, quando eu era criança, a minha mãe chegou a receber em casa uma daquelas reuniões de caixinhas de plástico. Amanhã, em reportagem, vou a uma reunião que segue os mesmo moldes, embora seja para vender produtos feitos com outros fins.

La Maleta Roja - a maleta vermelha - é a nova moda sexual, importada de Espanha. Uma demonstradora transporta, dentro de uma mala, um vasto leque de produtos e brinquedos com fins manifestamente sexuais (sim, porque um massajador facial será sempre um vibrador). Perante uma plateia feminina, segue-se o desfile expositivo do catálogo, com indicações preciosas para as afoitas senhoras.

"Homem não entra", a não ser que seja jornalista e tenha assinado uma declaração de privacidade, onde se compromete a respeitar a privacidade das intervenientes. Vou estar entre 'falos' e lubrificantes, a espreitar o que transporta a mala. É tuppersex, meus caros.

Lembram-se do sucesso das caixas de plástico? Agora imaginem que no lugar onde as vossas mães guardavam tupparwares vocês põem a vossa colecção de dildos!

4 de junho de 2008

Apresentando Barack Obama...

... o candidato Democrata' 08. Não duvidem que o apoio do Marcha foi fundamental.

Testar a Vida

A minha querida Cientista escreveu no seu blog um texto tão lindo quanto verdadeiro. Transcrevo-o aqui, com um beijinho à autora, pessoa que muito estimo.

"A vida conta-se em histórias de pequenos nadas que, juntos, fazem um todo. Contadores de histórias são bens preciosos que devemos preservar. E de repente, esses pequenos nadas ganham forma definida no conjunto, tornam-se episódios fundamentais de uma série que ainda vai no início. A vida conta-se em histórias… e histórias contam a vida (...)"

3 de junho de 2008

Breves notas sobre o primeiro fim-de-semana de Rock in Rio

Ivete Sangalo: Fabulosa, como sempre, capaz de mobilizar aqueles que, claramente, não estavam lá para a ver.

Amy Winehouse: A desilusão maior. Todos sabemos o que ela é e o que representa, mas haja respeito pelo público. É isso que marca a diferença entre uma estrela e um artista. Foi estrela, sem brilhar.

Lenny Kravitz: Enfadonho. Foi picar o ponto.

Tokio Hotel: Nada de fabuloso. Ousaram entrar depois dos Xutos e haja vergonha na cara, porque não se faz. São um grupo de miudos e uma moda, como os Dzrt, mas como outra máquina. Vão passar e nada restará.

Joss Stone: Que surpresa. Sou ouvinte de Joss desde sempre, muito antes dela chegar a Portugal. Sempre soube que iria longe. Um concerto emotivo, sincero e musical, que é o que se espera.

Rod Stewart: O concerto mais animado de todo o fim-de-semana. A aplicação do conceito "concerto-festa". Cativou quem se esperava que cativasse e foi igual a si próprio.


Resumindo, Joss Stone e Rod foram, digo eu, os melhores concertos do fim-de-semana. Não estive por lá no Sábado e por isso não opino sobre Bon Jovi e companhia. Gosto de festivais, porque fazem os concertos resumir-se ao fundamental, tirando do alinhamento a experimentação. Com menos capacidades cénicas, fica a música por si e é isso que se espera. O artista e a sua música. Give it to me baby! Mostra-me lá o que vales.

27 de maio de 2008

"não era a mim que vinhas"


Porque não respondes? Passas por mim, aceno-te e tu finges não perceber. Insisto, num 'boa tarde!' que ouviste com toda a certeza e mesmo assim voltas a ignorar o cumprimento. Diz-me, que peso carregas aos ombros? Quem te quer mal? Quem cuida de ti agora? Responde às minhas perguntas. Dana-te, mas não encenes não perceber que é a ti que me dirijo.

Não tens rosto. Desististe dele, porque são sem afeição as tuas feições. O que transportas nesse saco verde? Vais continuar sem querer saber de mim? Espera... viste-me. Diriges-te a mim. Não me peças nada, não tenho nada para ti. Só queria que respondesses ao meu 'adeus'. Estas de passagem, tal como eu, e fui simpático, nada mais.

... afinal não. Não era a mim que vinhas. Não tens horas marcada, pois não? Fazes esse ar indiferente a tudo, mas no fundo estás sozinho no mundo, acertei? Ninguém te espera e tu, francamente, já não esperas ninguém. Então e eles? Ah, não querem saber...

És cinzento, como as roupas que trajas. És cinzento e velho e eu talvez tenha pena de ti, apesar de não me teres acenado e isso, perdoa, eu não te perdoo.

A "Pobreza e [as] Desiguladades" de Soares


Eis, no Diário de Notícias, um artigo de brilhante clareza intelectual de Mário Soares, numa lição de Socialismo, com recados a um Governo que perdeu o norte aos pressupostos ideológicos:

"Depois de duas décadas de neoliberalismo, puro e duro - tão do agrado de tantos que se dizem socialistas, como desgraçadamente Blair - uma boa parte da Esquerda dita moderada e europeia parece não ter ainda compreendido que o neoliberalismo está esgotado e prestes a ser enterrado, na própria América, após as próximas eleições presidenciais. A globalização tem de ser, aliás, seriamente regulada, bem como o mercado, que deve passar a respeitar regras éticas, sociais e ambientais."

26 de maio de 2008

A conversa do Sócrates

A nova moda linguística do discurso político é dizer, e aplicar a todas as situações, a dinâmica do "quem paga é quem consome e não quem contribui". No fundo, cria-se uma figura absolutamente descabida, quando ao Estado nos reportamos: o consumidor. Estamos perante uma espécie de cliente, afecto aos deveres, embora distante dos direitos que o estatuto tradicionalmente confere.

Usou-se a distinção nas SCUT's, e repete-se agora nos combustíveis. A visão de Sócrates sobre este assunto é redutora e descabida, revelando uma total falta de sensibilidade política, estimulando uma vertiginosa queda no ridículo.

Distinguir contribuinte de consumidor é um disparate. É demagogia. Como se os consumidores não fossem, também eles, contribuintes.

A maioria dos portugueses tem uma relação directa com os combustíveis, fruto do carro que conduz. Os condutores são um número suficientemente grande para merecerem a atenção do Estado. Ainda assim, se este argumento não fosse suficiente, ganha corpo um outro: a alta do preço do petróleo tem implicações, indirectas, naqueles que não dependem dele para o seu dia-a-dia, por força da subida de todos os outros bens.

Não é possível, a bem da verdade intelectual, separar consumidores de contribuintes. Faze-lo é a abusar da liberdade de interpretação.

O consumidor assume o seu corpo quando ao Estado mais convém. Fora esses casos, de mero talento causal, passa a cliente.

O dia em que ele voltou aos protestos: Carta à Transtejo

(enviada em 26 de Maio)



Caros Marujos,

Ousei ontem utilizar o vosso serviço fluvial, nas ligações Cacilhas – Cais do Sodré e Belém – Cacilhas. Permitam-me breves notas.

Cartão 7 Colinas? Mas vocês estão parvos ou quê? A ideia, que é uma boa ideia, resultava em cheio se o cartão sequer funcionasse, o que não é o caso.

Primeiro, a máquina não o lê. Depois, um senhor de mau cheiro (sem olfacto, presumo), oferece “ajuda”, absolutamente inconsequente, claro (um homem que não cuida de si sabe lá cuidar dos outros). Ida à caixa, má disposição do funcionário – coitado, devia estar convencido que me prestava um grande favor, ao atender-me – e um barco perdido. Fico a saber que o malfadado cartão não vai funcionar (apesar de estar em perfeitas condições) e que, contas feitas, vou ter que pagar por um novo: “ah, se tivesse a factura deste, ainda lho trocava”.

Para já não é factura, é recibo e depois, senhores, eu agora guardo toda a espécie de lixo na carteira, meses a fio? Por acaso guardo, mas a minha onda é mais talões de desconto. Calculo que muitos dos vossos clientes tenham por hábito produzir bilhética contrafeita e que por isso o recibinho seja fundamental.

De regresso à Margem Sul, com a micose em sangue, que um rural não se dá bem com os ares da capital do império, um “eu já visto”: O cartão não funciona! Situação agravada pela total ausência de funcionário na estação de Belém, embora aqui eu compreenda: como só há barcos de hora a hora, porque não dar um giro pela frente ribeirinha? Fumar um cigarrinho, urinar (3 vezes), evacuar, enfim…

Meus queridos, a tecnologia tem um lado maravilhoso, mas quem olha para a idade dos vossos barcos percebe que vocês não foram feitos para ela. Por isso, desistam. Por vocês, por nós e pelo bem comum.

Pensando nos bons momentos que passámos juntos, despeço-me com afecto.

Um beijinho deste vosso admirador… doidões.