8 de julho de 2008

Mas quem é que deixa o Vitalino Canas falar em público?

Preparativos II

O que levar na mala? Como perceber o que é que faz ou não falta? Que tipo de roupa escolher? Que quantidade de mudas levar?

Já saí do país muitas vezes - a maior parte das quais sem companhia - mas nunca de forma permanente (não confundir com definitiva). Do lado de lá do hemisfério aguarda-me um país que não conheço, a não ser das histórias que ouvi contar, algumas em forma de lendas, da boca do meu pai e da minha avó.

Sim, eles são angolanos e talvez isto seja tema para outro post.

Dou por mim, enquanto vou, aos poucos, preparando o que tenho que levar - fiz uma lista com escolhas surpreendentes - a pensar que, se me faltar alguma coisa, estarei longe de mais, no espaço e no tempo, para voltar a casa. Não será como perder o dinheiro da gasolina e da portagem, porque "gaita, aquilo faz-me demasiada falta, voltamos!".

Faço votos (pessoais) para levar tudo quanto preciso. E precisarei, muito mais do que da roupa, de coisas me façam lembrar a minha casa, a minha gente e o cheiro do meu país.

Preparativos I

Não sou nem piegas, nem "mariquinhas". Dou-me bem com seringas e hospitais, e não me assusta nada a possibilidade de ser picado. Aliás, deve ser por isso que cedo me inscrevi como dador de medula e há muitos anos que sou dador de sangue [parece que em Luanda, no Roque Santeiro - o maior mercado ao ar livre do mundo - posso fazer bom dinheiro com o meu sangue].

A propósito da minha viagem rumo a Luanda, passei hoje a manhã no Centro de Saúde de Sete Rios. Para quem ainda não teve oportunidade de viajar até África (eu não tive), a informação vale para o futuro, porque é lá que funciona o Centro de Vacinação Internacional e é na sala, ao fundo do corredor, no piso 3, que um homem (cativante e bonito, como eu) é marcado para a vida.

A vacina da Febre Amarela é obrigatória para entrar na generalidade dos países Africanos. Trata-se de uma vacina viva. No fundo, somos injectados com "uma pequena doença, que vai prevenir uma doença maior", nas palavras da enfermeira Erika, que cuidou de me proteger contra uma série de maleitas [Por favor, Diana, não desvalorizes o meu conhecimento sobre este assunto].

Se não tivesse deixado passar o tempo devido, por esta altura livrava-me da ampola do Tétano e talvez até me poupasse ao reforço da Hepatite. A isto, junta-se o tratamento preventivo da Malária, e o repelente de mosquitos, em forma de comprimido.

Se não morrer doente, tombarei por excesso de saúde.

4 de julho de 2008

O depois e o destino

Estes dias, do pós-rádio, são de azáfama, acima de tudo, mental. O processo que me leva a largar um sítio no qual passei oito anos, ao mesmo tempo que entro, aos poucos, nem sempre com facilidade, num novo ritmo, numa nova forma de trabalhar, pode ser inquietante. Tento encontrar a certeza da serenidade, mas sei que ela ainda vai demorar a chegar.

Ainda não estou em funções e por um lado agradeço o facto de poder respirar entre redacções. Contudo, ao mesmo tempo (e por outro lado), o tempo livre (não tão livre quanto isso), deixa-me demasiado tempo para pensar e imaginar um futuro que, bem vistas as coisas, é impossivel de imaginar. Lamento-me por isso, embora saiba que nada mais posso fazer, que não contentar-me com o facto de que "é assim e pronto".

Talvez aqui valha a pena dizer para onde vou. E assim perceberão melhor a minha inquietude.

Guardei segredo, até a muitos dos que me rodeiam, por algum pudor em falar de algo que cuidava de não ser certeza. Agora, consumadas as possibilidades, posso revelar, levemente, que parto para Angola.

Tive ontem uma reunião com outros "expatriados" - é assim que nos chamam - e percebi que não sou só eu quem está em processo de separação da pátria, dos amigos e da família, claro. Não sei se me sossegou o ecnontro de tantas as caras estranhas - de onde nascerão, provavelmente, os meus novos amigos. Senti-me, como me sinto sempre em ambientes estranhos, desconfiado. Tendo a desconfiar da novidade, até ela se me entranhar, embora raramente a rejeite.

Hoje foi dia de médico. Trago da consulta um cardápio de vacinas por tomar e recomendações de contexto. Aposto que se perguntasse ao sujeito que me levou 40 euros, "para que país vou eu?", ele não conseguiria responder, a não ser por aproximação.

Tenho planos para quase todos os dias da próxima semana e não sei onde fica a intenção de descansar um pouco.

Vejo-me na vida, com a vida a mudar.

1 de julho de 2008

17 de Julho de 2000


Comecei a fazer rádio com 17 anos e nunca parei. Já lá vão uns anos valentes. Sempre soube que queria ser jornalista, mas nunca pensei que se concretizasse da forma como acabou por acontecer. Lembro-me de, na escola secundária, passar noites na biblioteca, às voltas com o programa de paginação. Depois disso, enquanto fingia estudar para os exames, lembrei-me de bater à porta da rádio cá da terra, onde estava apostado em passar as férias.

Passei as férias, o Outono e os oito anos que se seguiram. Até hoje.

Pelo meio fui fazendo contactos. Fui escrevendo para outros sítios e fui aprendendo. Passei por jornais revistas e até pela Lusa. E aprendi muito, de facto. Da rádio, à imprensa, sem nunca deixar o estúdio, esta redacção e estes colegas. Vi muita gente chegar, partir e ficar. Fiz poucos amigos, de facto, e é desses poucos que agora me despeço. Despeço-me da minha secretária junto à janela, da parede cheia de postais e do "pote dos obséquios".

Não tenho medo de mudar, mas entristeceu-me, num só dia, colocar um ponto final em tantos vínculos, mais ou menos precários, até inexistentes.

Acho que vou para melhor (e por enquanto não digo para onde). Se não for, tanto pior. Assumirei a responsabilidade da minha decisão, que depende apenas de mim. Vou deixar de ter três empregos e com um só vou ganhar três vezes mais do que com todos eles juntos.

Somos o que decidimos ser e eu decidi [porque posso decidir] que está na hora de mudar.

Até já ou então não.

26 de junho de 2008

Talvez eu seja um chato, mas "a mim ninguém me cala"

Ao ouvir a Antena 1, deparei-me com uma situação que mereceu um reparo ao Provedor do Ouvinte. Transcrevo o texto que enviei, relatando o sucedido.


"Por considerar lamentável a situação, sou a descrever o seguinte.

Hoje, durante a cerimónia de encerramento do Congresso do PSD, a Antena 1, transmitindo-a em directo, considerou como desnecessário interromper a conversa que a jornalista e o comentador mantinham, durante a audição do Hino Nacional.

No fundo, enquanto jornalista e comentador analisavam o que tinha sido o discurso de Manuela Ferreira Leite, o Hino Nacional - simbolo da Nação - era ouvido ao fundo, como trilha sonora, ao invés de ocupar a plenitude da antena.

Por considerar a situação gravosa, tomo a liberdade de a comunicar a vossa exa. O Hino deve ser respeitado, para mais numa estação de serviço público, como a Antena 1. Mais faço notar que tanto RCP como TSF cuidaram de interromper a mesma análise, para que o Hino Nacional fosse tratado com a dignidade que merece.

Trata-se de uma grosseira violação das regras que devem pautar o trabalho de quem serve num órgão de comunicação social.

Lamento o sucedido e aguardo o seu comentário."



Soube hoje que o assunto será abordado por Adelino Gomes - o novo Provedor da rádio pública - numa das primeiras emissões da nova série de programas Em Nome do Ouvinte.

24 de junho de 2008

Os santos populares


Fui uma vez ao São João, no Porto. Saí de Lisboa ao final da tarde e cheguei ao Porto já depois das onze da noite. Passei a noite a levar com o martelo na cabeça e a martelar gente absolutamente desconhecida. Não achei de nada de especial.

A lógica dos Santos Populares, em Lisboa, Porto ou qualquer outro sítio, é um pouco perversa. Andar para um lado e para o outro, até mais não, sem destino ou sentido. Contudo, gosto. Como sou do Seixal, cabe-me defender a minha terra "tão linda e formosa":

Já estive no Santo António,
Já passei pelo São João,

Mas a mim quem me tira o São Pedro,
Leva-me um pedaço do coração.


Disse.

19 de junho de 2008

18 de junho de 2008

Crónica: prostitutas

Há algum tempo que deixei de fazer fretes, mas os amigos emigrantes tendem a comover-me. a Revista Vida Lusa, em França, é feita pela comunidade portuguesa em Paris. Aqui há uns anos, foi um dos primeiros sítios a publicar um texto meu e, depois do pedido feito pelo novo editor, não pude dizer que não.

Acontece que, desses tempos idos, sobra muito pouco. Principalmente ao nível da noção do real. Escrevi uma crónica sobre a minha relação com prostitutas. Como não tenho certezas sobre a sua publicação, avanço-a aqui, em estreia mundial. Tudo por vocês, caros leitores.


Das prostitutas

Volto hoje às crónicas na Vida Lusa. Aqui há uns anos publiquei, nestas páginas, uns quantos artigos dos quais obtive um bom retorno.

É curiosa esta coisa do jornalismo. Meti-me na vida aos 17 anos, o tempo foi passando e por cá contínuo. Não é grande coisa, mas antes isto que prostituir-me. Tenho a convicção que alguma da minha família não partilha deste meu entusiasmo, mas estou certo que também eles preferem que eu não tenha que vende o corpo para pagar a prestação do carro.

Esta conversa vem a propósito do tema que escolhi para retomar a minha colaboração (regular?) com a revista. Aqui em Portugal, de onde escrevo estas linhas, há um hábito que cultivo: ler jornais. Como profissional da comunicação interessam-me particularmente algumas secções. Entre elas, as que permitem desmontar a malha social que nos rodeia – o mundo é mesmo um lugar estranho. Não dispenso um olhar atento ao caderno de classificados e às meninas que nele se anunciam.

Nunca fiz uso dos seus préstimos, embora algumas tenham o condor de me tentar – e desde já quero deixar muito claro que não é grande mérito tentar um tipo como eu, a quem qualquer rabo empinado ou busto destacado é quanto basta para despertar o pardalinho que trago sempre comigo.

Ora, acontece que eu sou particularmente expansivo, quando rodeado por “gente da nossa”. Foi num desses momentos de expansão que aconteceu uma das minhas mais recentes humilhações públicas (e reparem como seria adequado o editor esquecer-se de publicar a letra ‘l’ da palavra “públicas”). De Correio da Manhã em punho (o punho, o punho…), folheando o destacável do despudor, começo a ler, alto e bom som - que a divindade brindou-me com uma voz poderosa - sobre o potencial de todas aquelas senhoras de elevada posição moral. Admiro o facto de ter tanta mulher ali, pronta a servir-me sem pudor.

Retomando uma ideia que defendi no começo da crónica, não tenho qualquer hábito de pagar para renovar o stock, mas porque Lisboa é um meio pequeno, toda a gente se conhece e no exacto momento em que me concentro num certo anúncio, a sua protagonista entra no café onde estava sentado.

Considero humanamente impossível que ela não tenha ouvido. Quando dei conta da visita, a leitura ia num estado avançado.

Do episódio tirei duas lições. A primeira é que tenho que falar mais baixo. A segunda, bem mais interessante, é que a safada tem uma “boca marota”.

Sou muito ingénuo e por isso não sei o que é que uma “boca marota” faz e onde o faz. Mas também sou jornalista, pelo que não posso deixar a curiosidade tomar conta de mim. Confidenciaram-me que a curiosidade custa 25 euros e estou certo que os pagarei de bom grado, ainda que numa perspectiva meramente profissional, claro.