6 de agosto de 2008

Ser jornalista é:

Perigoso. Ser jornalista é arriscado e perigoso, porque quem o é, como eu, está sempre dependente das arbitrariedades humoristicas de quem emprega. Num país onde o patronato tende a ser pouco formado, pouco evoluido e pouco capaz, quem detém empresas de comunicação social é, não raras vezes, o espelho de um tecido empresarial aquém das necessidades, mas ao nível das expectativas.

Vejam o caso d' "O Primeiro de Janeiro", onde um grupo de camaradas jornalistas foi deixado à sua sorte, depois de (mais uma) diarreia mental do dono do título. Uma atitude que, existam regras e reste moral, não pode ficar impune.

Já trabalhei com gente muito capaz. Já fui chefiado por pessoas habilitadas. Contudo, triste sina a minha e a nossa, a generalidade dos que me pagaram ordenados ao final do mês, não percebiam a diferença entre uma breve e uma reportagem.

Aos camaradas do Norte, um "não desistam" da profissão. Que o episódio que vivem sirva para tornar o jornalismo ainda mais nobre e combativo, assim sejam os seus operários melhores guerreiros.

5 de agosto de 2008

Silêncios perturbadores*


Se há coisa que detesto são refeições partilhadas com pessoas com as quais não tenho confiança. Não é o facto de comer calado que me chateia, mas antes o saber que o silêncio que se criou é o resultado de uma total ausência de assunto de conversa. É por isso que evito partilhar a hora de almoço ou de jantar com gente que nada mais tem para me oferecer que não 60 minutos de nervos.

Do que é que se fala, quando não se tem nada para dizer?

Sou um mestre nas desculpas rápidas e com facilidade esquivo-me a factos que pareciam absolutamente consumados. Não é para me gabar, mas em poucos segundos consigo inventar uma história libertadora. Algumas são tão fabulosas que eu chego a acreditar viver nesse mundo de fantasia.

Quando não há escapatória possível, o que sobra é ter coragem. No caminho para o restaurante (se no carro do carrasco, ainda pior) procuro construir, mentalmente, umas linhas de conversa. Não podem ser demasiado genéricas, para que não me seja descoberta a careca. Não podem ser demasiado profundas, porque posso ficar a leste num instante. Temas ali no meio-termo. Se é um colega de trabalho (ou mesmo um chefe ou patrão), a vida da empresa é garantida e aqui sim, torno-me na mais hipócrita das pessoas. Escolho muito bem as palavras e nunca me comprometo.

Lá diz o ditado. "Mais vale só..." enfim, vocês sabem o resto.



* E é isto. Desculpem, mas com este calor não dá para mais.

27 de julho de 2008

Na avenida

Aqueles óculos, Ray Ban, massa castanha, redondos, fora de moda, arqueados pelo uso, há muito que pedem reforma. O olhar, humedecido por lágrimas, pede compaixão. Desce a avenida, em passo titubeante, enquanto espera a atenção voluntária dos transeuntes, que jamais chegará. Perante a indiferença de quem passa, e acelera o caminhar, obriga-se a abordar – talvez não ao acaso – alguém.

Pede desculpa. Repete o pedido, uma e outra vez. Insiste.

Um sorriso, de quem ouve, e um pensamento: “Ok, calhou-nos um doido”. A história, revelada em palavras e trejeitos poucos seguros. Nem uma ideia clara. Emprego, mulher, casa, fome. Fome? “Não quero passar fome”.

O regresso ao começo. Pede desculpa. Repete o pedido, uma e outra vez. Insiste. Quer dinheiro. Pouco. Não tão pouco, quanto pouco.

Desapareceu o sorriso. Ouve-se com mais atenção aquele que agora aperta o braço de quem passava, de quem apressou o passo, mas foi impelido a parar por um “desculpem” (ainda que respondido com um sorriso jocoso).

Qual o tamanho da indiferença humana? Onde está a linha que marca a fronteira entre desconfiar, acreditar e entregar? Quanto vale a ajuda? O que é ajudar?

A indiferença, condição das passadas largas de quem não quer ser incomodado com perguntas parvas e abordagens bacocas, quebrada por um chorar ligeiro – ninguém chora sem querer, se não souber fingir chorar – pode tornar-se sentido entendimento.

Vinte euros matam a fome ou selam uma história que preferimos manter calada?

Digo-te, não sei o que vais fazer a esse dinheiro – tão pouco para ti, se falas verdade e tanto para mim, que desconheço porque fiz dele oferenda. Não sei se me mentiste, mas talvez a nota que, dobrada, guardaste no bolso, mesmo antes de pedires ajuda para atravessar a estrada e me dares a mão, como se fosses meu pai, tenha servido para sossegar uma alma inquieta, sedenta de boas acções. A minha.

21 de julho de 2008

Da mocidade*


Quando miúdo, os meus heróis eram o He-Man, o Justiceiro e o BA, do A Team. Agora, enterrados os defensores da lei e da verdade, a ‘criançada’ ficciona, não com um imaginário fantástico, de gente com poderes únicos ou acessórios fantásticos, mas com sujeitos que representam uma espécie de mito urbano, como se os sonhos dos mais novos coubessem todos num personagem de série juvenil.

Não sei se sabem quem é a Hannah Montana. Permitam-me, pois, apresenta-la (e obrigado Wikipedia).

Hannah tem 14 anos, acaba de chegar a Malibu. Juntamente com os seus melhores amigos, Lilly e Oliver, vive todo o tipo de aventuras na escola, nomeadamente, o esforço para impressionar o rapaz de quem gosta. Apesar dos seus colegas não o saberem, ela é também uma famosa cantora, o que a faz viver uma vida de sonho, com muito glamour.

Acontece que a jovem veio agora dizer, na vida real, que «eu creio que não ter relações sexuais é uma obrigação». Está parva, só pode. Ou então tinha o pai ao lado.

Primeiro, porque toda a gente sabe que não há adolescente de 14 anos que conserve pureza intelectual, que lhe permita dizer, sem estar debaixo do efeito de uma substância estupefaciente, que ser virgem é que é fixe. Depois, a Britney também garantia o mesmo e agora é só ver no que deu tanta virgindade. É por isso que gosto de ver os Morangos com Açúcar, onde a sexualidade, as drogas e a desgraça se misturam, no espelho partido do que é a vida dos queques da linha. Imaculadas como a Hannah só me fazem rir.

Recordo-me, com exactidão, do meu tempo de adolescente. Das conversas com o Rui e com o André (credo, Rui, estás tão bimbo, homem). Lembro-me, na perfeição, de quando encontrámos as revistas porno ao pé da escola. Que grande tesouro, aquele (e tão gastas que ficaram as suas 60 páginas).

A revistas, quase tão preciosas quanto o primeiro pelo púbico, sinal de maturidade e masculinidade. A mim aconteceu a arbitrariedade de, ao primeiro, terem vindo muitos menos do que eu esperava e desejava. O meu “amacacamento” não foi além de um tufo ligeiro, de perímetro limitado e personalidade pouco assertiva. Pelos no peito, nem vê-los. Nas axilas, loiros. Nas pernas, sem intensidade.

E perguntam vocês: oh Nuno e “aquilo”? Feliz ou infelizmente, não se proporcionou fazermos “aquilo” em grupo, mas relatávamos uns aos outros como é que era. O André, mais detalhado, chegava a cronometrar o tempo entre o começo e o fim… do jogo de Elifoot.

O Rui tirava-lhe as medidas, mas já deixei entender que o rapaz era, de todos nós, o mais infeliz. Sei que o meu era o “Senhor Imponente” – os balneários, senhores, os balneários – embora, dado o termo de comparação, não tenha grandes motivos de orgulho.

No nosso tempo não havia Hannah Montana, mas existisse ela e, com toda a certeza, imaginaríamos fazer-lhe o mesmo que pensámos fazer à Cindy Crawford. Agora, sonhar com heroínas virgens e angelicais? Poupem-me. Para isso há a catequese.


* para a revista Vida Lusa - França - de Agosto

Aviso à navegação:

Meus queridos, meus queridos, ainda cá estou. Estou e estarei... mas não por muito tempo. E porquê? Porque os vistos dos expatriados (assim somos nós) atrasaram-se e daí que continuamos em terra. Agradeço os vossos votos de boa viagem. Comoveram-me até as muitas mensagens que recebi durante o dia. Vou guarda-los até nova data, que será dentro em breve.

Tinha a mala quase arrumada. Despedi-me de toda a gente e continuo por cá. Em todo o caso, são apenas alguns dias até ficar, definitivamente, longe daqui.

20 de julho de 2008

2 anos a Marchar


Apesar de apenas escrito a 21, este post recebe a data de 20, porque é assim que deve ser. Tinha por intenção faze-lo publicar no limiar do dia certo, mas cuidei de adormece até há pouco. Entre sonos, dedico-me a breves linhas.

Este blog não é o diário dos meus dias e talvez por isso nunca tenha passado de um endereço "relativamente visitado", o que quer que isso signifique. Tenho leitores fieis. Tenho a Joana, a Diana, a Cátia e a minha tia. O Raminhos, a Mariana, a Maria e a Paula. Também umas dezenas (largas) de leitores diários, de quem desconfio ou desconheço por completo.

Não é por vocês que escrevo, mas gosto de saber que passam por cá. Ainda não acabei o que tinha para fazer e por isso, não só, mas também, continuarei adiante. A Marcha dos Pinguins continuará a ser o meu blog e não o tomem por garantido, embora o possam assumir como quase certo.

17 de julho de 2008

Três sugestões


Tropa de Elite


Confirma os créditos com que chegou a Portugal. Um bom filme, com uma óptima realização e cuidados trabalhos do elenco.



Le Corbusier


A exposição sobre um dos mais influentes arquitectos do século XX (que até nasceu no século XIX). No museu Berardo, que continua a ter "free entry".



Drive-in


No Fórum Montijo, até Domingo, um drive-in de entrada livre. Sempre às 22h00, ao melhor estilo dos States. Estacionam, sintonizam o rádio (em 107.9) e recostam o banco.

14 de julho de 2008

Preparativos III

Tenho uma mala (e na volta dizem-me que devia ter optado por duas). Tenho uma pilha de roupa, entre coisas novas e outras que já pus de lado ("roupa fresca e um agasalho, porque à noite arrefece").

Comprei um Mp3 novo, e já dei cabo dos seus gigas, com coisas que não vou ouvir e que estão lá so porque sim. Pedi fotografias, ao invés de impor a minha escolha.

Vi a data da partida ser adiada duas vezes e não sei se não será uma terceira.