3 de setembro de 2008

Marlene, essa estranha mulher

A Marlene é a minha empregada.

A Marlene faz-me o pequeno-almoço, o almoço e o jantar.

A Marlene desmancha a minha cama e diz que “assim não fica bem, os lençóis têm que ficar esticados, para conseguir dormir bem”.

A Marlene muda as coisas de sítio, “porque as coisas têm que ficar onde no sítio delas”.

A Marlene dobra-me a roupa tudo, até a suja.

A Marlene canta enquanto trabalha.

A Marlene ralhou comigo, hoje de manhã, porque às sete e meia ainda estava de pijama.

A Marlene ralhou comigo porque deixei arrefecer as torradas.

A Marlene tomou banho e deixou as cuecas – vermelhas, de renda – na casa de banho.

A Marlene mandou-me esperar e, com um guardanapo, limpou-me uma ramela.

A Marlene é bem capaz de me dar umas palmadas se eu fizer asneira.

A Marlene foi à rua e por isso é que estou a escrever este texto.

Constatação angolana, a dois dias das eleições

Se é certo que devia estar a trabalhar desde as 9:00, não é menos verdade que não posso ir a lado nenhum. Os motoristas não apareceram. O Presidente deu tolerância de ponto.

2 de setembro de 2008

Uma bola

Numa terra onde é mais fácil comprar gasolina em bidões, vendida por miúdos, à beira da estrada, comprar uma bola de basquete seria, tendencialmente, uma tarefa difícil. Mas não. A primeira tentativa foi vitoriosa.

A ideia original: aproveitar o campo de jogos do condomínio onde estamos e mexer o corpinho, por estes dias já habituado aos estofos do Lexus.

Se aqui se paga 50 euros num restaurante médio, para comer sem sobremesa, quanto custaria uma bola? Não tanto, por certo, mas não tão pouco quanto menos de 5.

De facto, parece que o basquetebol é um desporto de eleição, o que torna a compra de acessórios mais fácil, numa cidade onde quase tudo está longe da vista, “perto do coração”.

Maya Cool

Pais Novo - Maya Cool

Um dos sons do momento recebe a assinatura de Maya Cool. A música "País Novo" transformou-se, rapidamente, numa espécie de novo hino do país, até porque define aquilo que Angola quer ser.

1 de setembro de 2008

A extensão

Viver em Angola, viver em África, implica ser-se capaz de abdicar de uma série de pequenos luxos a que estamos habituados, como ter transporte ali à mão (por enquanto, pelo menos). Não há transporte facilitado, nem fica tudo "ali ao lado". Demora-se duas horas a percorrer a cidade de uma ponta à outra, não porque seja grande, mas porque é confusa, caótica, se preferirem.

Ainda estranho estar dependente de um motorista para ir a qualquer lado. Ainda duvido que não seja normal sair depois do jantar para tomar café não longe de casa, mas hoje, ao fim de duas noites, acordei e já sabia onde estava.

Precisamos de extensões triplas. Missão razoável? Nem pensar! De facto, a simples intenção de ligar à corrente um candeeiro, longe da tomada, está sujeita à possibilidade de se arranjar, ou não, o dito cabo. Fez-se o pedido. Aguarda-se resposta.

Valha-nos ter o frigorifico cheio de comida. Isso e o calor, tão próprio. O ar, que se respira diferente. O cheiro, que se sente mais forte. A terra, que se apresenta mais vermelha.

31 de agosto de 2008

Uma cidade louca

Luanda é uma cidade louca. Vendedores no meio da rua, competem o espaço com os carros nas enormes filas que antecedem qualquer rotunda ou cruzamento.

Muito lixo e muita improvisação. Em cada percurso cruzamo-nos com centenas de jipes e dezenas de Toyotas, deambulando, quase tão ao acaso como os peões. Afinal, não há exactamente faixas de rodagem. Apenas uma estrada, ocupada, na sua largura, por tantos carros quantos os que couberem lado a lado.

Faixas improvisadas e enormes cartazes fazem as honras. Afinal, estamos a uns dias das eleições legislativas, as primeiras desde 1992.

“Apatia”, descreve a imprensa internacional o estado de espírito dos Angolanos perante a chamada às urnas. Não sei se o será. Talvez receio que se repitam os graves conflitos que se seguiram a outros actos eleitorais.

Dia 5 – talvez só uns dias mais tarde – se verá se a história se repete.

25 de agosto de 2008

Um pouco de religião (em jeito de desabafo)

Passeava-me ontem por Évora e decidi, porque não conhecia o monumento, visitar a Sé. Ao chegar à porta, qual não é o meu espanto quando verifico que o acesso ao interior está sujeito ao pagamento de um determinado valor. De resto, uma fila de turistas formava-se até à “recepção”.

Convencido de que apenas se pagaria para visitar uma determinada parte museológica do espaço, observo mais atentamente o preçário. Não. Afinal, a primeira impressão estava certa: Queres ver Cristo? Então abre aí a carteira.

Não é a primeira vez que, em Portugal, assisto a tal fenómeno. Nesta, como noutras situações, virei as costas e desci a rua.Acho ofensivo, irónico até, que o acesso a um lugar sagrado seja, desta forma, vilipendiado.

Que se cobre o acesso a determinadas partes – dessacralizadas – da “casa do Senhor”, mas que não se vede o acesso gratuito e livre ao altar.

Visto ter passado, a bem da pureza da fé, o tempo da dízima, os profetas de Évora conseguiram encarnar, com mestria, a figura bíblica dos vendilhões do templo. Pois que o são eles próprios.

Argumentará, por certo, o douto clero, que durante as cerimónias religiosas as portas estão livremente abertas. Então o catolicismo só acontece com hora marcada?

Dirão ainda, achando-se na posse da razão, que a contribuição é a forma encontrada para manter o monumento. Mentira, pois que são mais que muitas as capelas, igrejas e catedrais deste país que estão abertas e estimadas, sem que para isso recorram à ingenuidade dos visitantes mais incautos.

Perante tão frouxas justificações, digo eu que aquilo que aqui se trata é da usurpação de um património que, erigido pelo Homem, ao Homem não pertence.

No fotógrafo

Com as fotos "tipo passe" na mão.

Eu, irónico: Epá, que homem mais bonito!

Funcionária, séria: Deixe lá, há bem piores.