9 de maio de 2009

Africandade

Uma das vantagens do continente africano (de Angola, em particular) é que por mais que esteja a chover dificilmente não se consegue estar na praia.

6 de maio de 2009

Oh Lena,

Nesta morada, que é minha, mas um bocadinho tua (e de todos os outros leitores, seus invejosos) tratamos as pessoas pelo nome próprio. De resto, foi pelo próprio nome que cheguei a ti, não há tanto tempo quanto isso, mas há distância do continente que nos separa, agora, de casa.
Vais voltar para lá, não é? No enredo que também escreveste, a tua história acaba agora. Sais de cena tão baça como nós, que ficamos. Talvez seja da poeira, embora eu ache que a culpa é do sol, demasiado tórrido. De certa forma, todos perdemos o brilho com que chegámos. Devíamos ter previsto isto. Se calhar, deixámos que a sofreguidão pelo não fracasso nos toldasse a razão.
Lena, contigo, na bagagem imaterial que transportas, vão muito mais de 20 quilos. Fosse isto matéria e seria objecto de muito volume. Não sendo, cabe na descrição que se faz quando se detalha o infinito. Não é exagero. Estaremos juntos, mesmo que apenas na memória perene, daqui até lá ao fundo. Não precisei de me apaixonar por ti, de dormir contigo, de te desejar (não apaixonei, não dormi e não desejei) para te querer o bem.
A casa que partilhámos - com as suas memórias, segredos e 'irrevelações' - ergue-se ainda em homenagem às desventuras do "nós" quase desfeito.
Sabes, isto valeu a pena. Valeu mesmo. E valeu ainda mais porque valeu contigo. Bem vistas as coisas, não nos ficamos por aqui. As pessoas que somos - que somos agora - testemunharão, até nos tornarmos novamente diferentes, que estivemos aqui. Dissemos presente e agora não te digo adeus. Só até já. Lá.

5 de maio de 2009

Pequenos partidos

Estou aqui a ver o debate que a Sic Notícias organizou com os pequenos partidos concorrentes às eleições europeias. Nunca chegarão a Bruxelas, não só por uma questão matemática de votos, mas principalmente porque as suas posições - a par da sua imagem - são demasiado frágeis. Poucos fazem ideia, sequer, do que é a União Europeia e os que têm essa noção, não vão além de generalizações eternas.
Não é só o Frederico que aproveita o palco para fazer campanha pró-referendo monárquico. No fundo, estas campanhas e estes minutos de fama televisiva são o palanque perfeito - e raro - para fazer alguma doutrina. 
Acredito que quem milita um pequeno partido - e se sujeita ao quase ridículo de se candidatar sem esperança de eleição - não alimenta outra vontade que não a de viver na permanente tertúlia de quem leva a peito a ideia que a polis é mesmo o centro da coisa pública.
À primeira pergunta da jornalista - também às seguintes, em bom rigor - os candidatos vão caindo um por um (Frederico, desculpa voltar a ti, mas "fazer um site com coisas na Internet" não é uma grande proposta). Frases feitas, discurso ensaiado, citações de autoria duvidosa, episódios fora de contexto. Seria um perigo deixar gente desta dirigir os destinos da freguesia da Ajuda, quanto mais da Europa dos 27. Ainda assim, é a festa da democracia, senhores. É a festa da democracia.

1 mensagem não lida

09:22. Toca o telefone. Uma mensagem. "Clipovoa-Amarante lembra que Nuno Ferreira tem consulta no dia 06/Mai às 09:20. Caso não possa comparecer por favor ligue 255410200/1/2".

Liguei.


- Clipovoa bom dia.

- Muito bom dia. O meu nome é Nuno Ferreira e recebi uma mensagem escrita a alertar para uma consulta no dia 6 de Maio, na vossa clínica. Pode-me dizer qual é a especialidade?

- Dermatologia.

- Pois, não me leve a mal, mas não vou conseguir comparecer à consulta. É que estou em Luanda e dificilmente marcaria uma consulta para Amarante. Só pode ser engano.


A conversa prosseguiu, com uma explicação atabalhoada para a mais que certa troca de nomes. Contudo, foi preciso desligar o telefone para perceber o real motivo do sucedido. Julgo possivel uma das seguintes justificações: a) Uma ex-namorada a gozar com a minha cara (o que é um disparate, porque para surtir efeito devia mandar-me ao urologista); b) Deus a dizer-me que esta cena de coçar o rabo não é fixe.

4 de maio de 2009

Confirma-se. A minha mãe chorou quando leu o post.

"Do teu..."

Não sei o que é que me faz gostar assim tanto das lojas de velharias. De início concentrei-me nos cheiros, pesados, húmidos, depois na habitual pouca luz. Não sei o que é que me faz gostar assim de lojas de velharias, mas tenho uma pequena ideia. Acho que é a história que nelas se escreve.

Para ser sincero, nem sequer estou a falar das relíquias que só um olho treinado encontraria num espaço lúgubre como é uma loja de velharias. Aquilo de que eu gosto mesmo é daqueles objectos que nunca ninguém irá comprar. Afinal, são eles que nos levam até à vida de alguém. Imaginar que aquele “aquilo” teve um dono – talvez até mais do que um – é ‘cousa’ à qual não se fica, digo eu, indiferente.

Gosto especialmente de pentes. A par das escovas de dentes, os pentes são dos objectos mais pessoais que temos. Dificilmente partilhamos, de bom grado, a nossa caspa com alguém. Queria ser capaz de perceber neles coisas sobre quem os usou. E vai daí interrogo-me: que idade teria? Cabelo comprido? Encaracolado ou liso? Não percebo nada através deles. Não percebo nada e tenho pena, mais não seja porque este texto ficaria muito mais bonito se eu tivesse uma história para contar.

Foi numa dessas frustrações que encontrei, certo dia, um molhe de cartas. Dentro de uma caixa, em envelopes amarelecidos, misturados com outros envelopes amarelecidos, estava a correspondência amorosa trocada durante anos entre um soldado e a sua amada.

Li a primeira, li a segunda e à terceira decidi que compraria, sem cuidar do preço, todas quantas encontrasse. Já em casa, organizei a novela amorosa – em 22 capítulos – numerei-a e pus-me a par. Que amor, aquele. Cheguei ao fim com o propósito de encontrar os autores das cartas. Uma bela demanda em perspectiva, ou não fosse o enredo datado dos anos 50.

Fui à morada da Maria Isabel – assim se chamava - numa rua de Lisboa, num prédio com o mesmo cheiro das lojas de velharias. Bati à porta certa, mas ninguém a abriu. Perguntei a alguns vizinhos mais antigos e nenhum me soube responder. Acabou por ser numa troca de favores que descobri que o “Do teu…” estava muito doente num lar em Santarém. Sobre ela, nada.

Gostava de lhe ter devolvido as cartas, mas o tempo passou e a vontade também. Não ficou, sequer, a intenção. Apenas a vontade de um dia escrever sobre isto.

Budapeste e tudo à volta

Li algures que uma blogger que não conheço vai/está/esteve em Budapeste. Conheci a capital da Hungria há alguns anos, numa das minhas incursões europeias. Há quem a chame de "a Paris do Leste". Longe disso, Budapeste é uma cidade com personalidade própria (é como comparar Bruges a Veneza).

Não é empolgante. É diferente. À data, muitos edifícios pediam obras. Algumas ruas precisavam de limpeza e faltava a afirmação turística, como aconteceu à vizinha Praga. Porque é que Budapeste resulta tão bem? Precisamente porque é "só mais ou menos para turistas" e eu gosto de cidades que pensam nos locais, muito mais do que nos visitantes. Gosto sempre de me perder nas ruelas que não aparecem nos guias da American Express.

Porque o dinheiro era curto, fiquei hospedado num velho hotel (à distância de uma hora de qualquer outro ponto de interesse), no topo de uma verdejante colina. Agro Hotel, assim se chamava. Os quartos que denunciavam os anos passados - cravados numa arquitectura de inspiração claramente soviética - serviam na perfeição aquele que poderia ser o propósito maior daquele edifício, naquele sítio: fazer o visitante concentrar-se na esplendorosa vista para a Hungria para lá da capital.

Aliás, a Hungria que interessa está muito mais fora de Budapeste, do que no seu interior. Uma breve viagem de comboio permite desvendar um país pobre, mas verdejante. À espera de desenvolvimento, mas com uma beleza singular.

Não sei porquê, lembrei-me disto agora.

3 de maio de 2009

Crazy mom

Passei a semana a trabalhar num programa dedicado ao dia da mãe e chegado o dia foi preciso entrar num blog vizinho para me lembrar que, afinal, é hoje.
A minha mãe fica muito chocada quando eu arroto à mesa. Não gosta que eu fale demasiado alto ("os vizinhos ainda pensam que isto é uma casa de doidos") ou que finja discursos à janela. Já lhe expliquei que falo alto para ter a certeza de ser ouvido, discurso à janela porque há-de haver alguém a precisar da minha luz e não faço ideia porque é que arroto à mesa.
Ela é chata, porra. Como todas, presumo. Ainda agora, e olhem que estamos separados por muitos quilómetros - o que é óptimo para fazer coisas que ela não aprovaria, sem precisar de me preocupar com a sua aprovação - continua, torna não torna, a recordar-me que a luz é para apagar, os óculos para tirar e a televisão para desligar antes de ir dormir. Oh mãezinha,  tu achas mesmo que eu faço isso tudo só porque tu me dizes para fazer? 
É uma pena não a ter mais perto. Não só porque era ela quem apagava a luz, tirava os óculos e desligava a televisão, mas também porque sou egoísta ao ponto de querer ter o seu abraço logo ali e usa-lo, ao meu próprio gosto, quando muito bem me apetecer.
As mães - a minha, pelo menos, que é o caso que melhor conheço - acham sempre que nós crescemos bem devagarinho (a minha deve-me presumir ainda com 12 anos). Os filhos - eu, pelo menos, que é o caso que conheço melhor - fazem-se de difíceis, até porque acham que qualquer excesso afectivo pode ser confundido com 'mariquice', mas adoram saber que, no matter what, elas vão estar sempre ali, à espreita, prontas para nos recordar que carregaram connosco durante 9 meses. Mesmo que já se tenham passado 26 anos.

2 de maio de 2009

As baratas

Acho que já cheguei a comentar convosco que tenho baratas em casa. Bem, se calhar, por não ser uma boa nova, talvez não. Mas é verdade: Tenho baratas em casa. Em tempos, nos dias bons, passados, limitavam-se ao armário da pia. Agora, aos poucos, vão tomando território, espalhando-se pela sala e wc. Sei que em breve vou passar a dormir acompanhado e confesso que não me desagrada de todo a ideia de ter uma castanhinha a afagar-me as partes.

Estou a tentar estabelecer regras de convivência, afinal, sou dono de um bom coração, tantas vezes desprezado. Não mato mais de duas por dia e evito faze-lo se não sairem da cozinha. Não sei até quando o acordo vai ser respeitado. Quero acreditar que as próprias são senhoras de bom tino e que isso bastará. Estou em plena guerra fria.

Não me tomem por parvo: já pedi uma desinfestação. Responderam-me que está agendada. Há um mês.

1 de maio de 2009

Acabado de sair do coma


Parece que afinal foram só 12 Cucas por três pessoas. Já agora, desminto categoricamente que tenha bebido as tais 6 de que sou acusado por uma leitora-colega-de-apartamento na caixa de comentários do post respectivo. Juro, pela minha saudinha, esse bem tão precioso, objecto do meu maior desrespeito, que não me lembro de ter passado da terceira (mãe, a cirrose está tão fixe como eu, embora quase sempre mais sóbria).

Há muita magia numa lata de Cuca. Desde logo o seu aspecto exterior, com aquele amarelo torrado, um verdadeiro convite ao deleite. Depois, toda a estética escondida no seu conteúdo, revelado ao mundo no momento da abertura, como se de uma mulher acabada de estrear se tratasse.

Geralmente, excepto nos dias maus, limpo sempre à volta. Afinal, com tanta doença que há por aí, não é sensato meter no desconhecido sem, pelo menos, dar-lhe um asseio rápido.

O "ritmo Cuca" (ouvissem a 96.5) é tão bom que repito sempre a gracinha. Uma, duas, três vezes. E não é que não me lembro de algum dia ter passado da terceira?