14 de maio de 2009

O texto da vizinha

A modéstia é uma coisa muito bonita. Que se lixe a modéstia. A minha vizinha da blogolândia escreveu sobre mim (com conhecimento de causa) e eu não resisto a publicar aqui um excerto - é o texto todo, mas inibo-me de o assumir - dessa pérola da literatura contemporânea. Nunca um tema foi tão actual:

"O meu Nuno

Embarcámos juntos na aventura - ou desventura - e foi aí que aprendi a conhecer-te, a rir-me das tuas maluquices e a gostar de ti como um amigo. Para quem não te conhece posso dizer que pareces um intelectual certinho, muito educado e formal, uma figura que passa quase despercebida. Mas não és nada disso. 
És um rapazinho cheio de talento, profissionalismo, boa disposição, doido varrido e com uma lata descomunal para se meter com tudo e com todos. Afinal quem perguntaria à senhora que vende cervejas o caminho para Beja? Só mesmo o Nuno, o meu Nuno, sempre pronto para avacalhar o sistema, deixar sem jeito quem o acompanha e tirar um sorriso aos mais antipáticos.
Também sabe ser sensível, carinhoso e boa pessoa, tal como consegue rebentar os tímpanos dos demais com a sua voz de tenor.
Escreve como ninguém, tem um dom para a comicidade e quando acorda gosta de andar de boxers em casa!
Sei que nunca mais seremos tão próximos como fomos, mas sei que ter amigos, por mais desbocados que sejam, é sempre uma mais-valia. 
Podia escrever um texto enorme e nunca conseguiria descrever aquilo que significas para mim. Não posso esquecer as lágrimas e as alegrias, as brincadeiras e as más disposições, os 10 minutos que levas a levantar-te, tomar banho e sair de casa - nunca percebi como conseguias - o Chocapic e as baratas, as latas de grão e de milho que comias às colheres, os posts que escreves na sanita e os gases que soltas com pré-aviso!
Por tudo o que foi, por tudo o que será... Adoro-te!
Agora despacha o trabalho por aí, porque aqui precisamos de ti!"

No fundo, eu gosto é de causar boa impressão.

13 de maio de 2009

Diz-me nada:

Decidi escrever sobre isto sem motivo algum para o fazer. Interroguei-me, pus-me em causa e estive prestes a vacilar. Ainda assim, convicto de que o que escrevo - e o que penso - é o que está certo (é o meu certo, pelo menos), cá está.
Não achem que fico mais tranquilo por abordar o assunto. Não pensem que, ao faze-lo, tiro dos ombros o peso do mundo que ainda sinto. Não. Longe disso, é como se todos os fantasmas que o assunto transporta pairassem sobre este momento solene, do assumir publicamente que sim, faço parte daquilo.
Devia-me proteger mais, evitar a exposição que acabo por conseguir. Ainda na negativa - embora não na negação - sei que se estivesse quieto só tinha a ganhar. Desculpem, não dá. Não dá e agora é tarde. Disse. Digo.

Uma verdade como as outras

Uma dia apareço à tua porta.

10 de maio de 2009

... por isso existe o Ponto de Encontro

Há um lado simpático nas despedidas. Nos momentos seguintes tendem a surgir-nos na memória os momentos bons que nos ligam, de certa forma, à pessoa ou ao lugar que acabámos de deixar. Enfim, é sempre melhor ter a cabeça cheia de coisas boas.
As pessoas fazem os lugares e os lugares vivem das pessoas, mas eles - umas e outros - são também compostos de memórias. Memórias que perduram depois do físico. Há qualquer coisa para lá da matéria.
Nada disto, claro, diminui a tristeza que se sente. Na realidade, apenas nos ajuda a passar pelas despedidas com alguma esperança de que as tais memórias possam encontrar paralelo em novas vivências. Agarramo-nos ao passado porque acreditamos que ele se pode repetir. 
Acontece que a história não se repete. Vive-se uma vez. Talvez sejamos capazes de experimentar algo parecido com o nosso passado, mas nunca a sua reedição. Bem vistas as coisas, ainda bem que é assim. Faltar-nos-ia a diversidade.
Lembro-me de um programa de televisão que fechava cada edição com a mesma frase: "A vida é feita de encontros e desencontros". Felizmente temo-nos a nós para contar como foi.

9 de maio de 2009

Africandade

Uma das vantagens do continente africano (de Angola, em particular) é que por mais que esteja a chover dificilmente não se consegue estar na praia.

6 de maio de 2009

Oh Lena,

Nesta morada, que é minha, mas um bocadinho tua (e de todos os outros leitores, seus invejosos) tratamos as pessoas pelo nome próprio. De resto, foi pelo próprio nome que cheguei a ti, não há tanto tempo quanto isso, mas há distância do continente que nos separa, agora, de casa.
Vais voltar para lá, não é? No enredo que também escreveste, a tua história acaba agora. Sais de cena tão baça como nós, que ficamos. Talvez seja da poeira, embora eu ache que a culpa é do sol, demasiado tórrido. De certa forma, todos perdemos o brilho com que chegámos. Devíamos ter previsto isto. Se calhar, deixámos que a sofreguidão pelo não fracasso nos toldasse a razão.
Lena, contigo, na bagagem imaterial que transportas, vão muito mais de 20 quilos. Fosse isto matéria e seria objecto de muito volume. Não sendo, cabe na descrição que se faz quando se detalha o infinito. Não é exagero. Estaremos juntos, mesmo que apenas na memória perene, daqui até lá ao fundo. Não precisei de me apaixonar por ti, de dormir contigo, de te desejar (não apaixonei, não dormi e não desejei) para te querer o bem.
A casa que partilhámos - com as suas memórias, segredos e 'irrevelações' - ergue-se ainda em homenagem às desventuras do "nós" quase desfeito.
Sabes, isto valeu a pena. Valeu mesmo. E valeu ainda mais porque valeu contigo. Bem vistas as coisas, não nos ficamos por aqui. As pessoas que somos - que somos agora - testemunharão, até nos tornarmos novamente diferentes, que estivemos aqui. Dissemos presente e agora não te digo adeus. Só até já. Lá.

5 de maio de 2009

Pequenos partidos

Estou aqui a ver o debate que a Sic Notícias organizou com os pequenos partidos concorrentes às eleições europeias. Nunca chegarão a Bruxelas, não só por uma questão matemática de votos, mas principalmente porque as suas posições - a par da sua imagem - são demasiado frágeis. Poucos fazem ideia, sequer, do que é a União Europeia e os que têm essa noção, não vão além de generalizações eternas.
Não é só o Frederico que aproveita o palco para fazer campanha pró-referendo monárquico. No fundo, estas campanhas e estes minutos de fama televisiva são o palanque perfeito - e raro - para fazer alguma doutrina. 
Acredito que quem milita um pequeno partido - e se sujeita ao quase ridículo de se candidatar sem esperança de eleição - não alimenta outra vontade que não a de viver na permanente tertúlia de quem leva a peito a ideia que a polis é mesmo o centro da coisa pública.
À primeira pergunta da jornalista - também às seguintes, em bom rigor - os candidatos vão caindo um por um (Frederico, desculpa voltar a ti, mas "fazer um site com coisas na Internet" não é uma grande proposta). Frases feitas, discurso ensaiado, citações de autoria duvidosa, episódios fora de contexto. Seria um perigo deixar gente desta dirigir os destinos da freguesia da Ajuda, quanto mais da Europa dos 27. Ainda assim, é a festa da democracia, senhores. É a festa da democracia.

1 mensagem não lida

09:22. Toca o telefone. Uma mensagem. "Clipovoa-Amarante lembra que Nuno Ferreira tem consulta no dia 06/Mai às 09:20. Caso não possa comparecer por favor ligue 255410200/1/2".

Liguei.


- Clipovoa bom dia.

- Muito bom dia. O meu nome é Nuno Ferreira e recebi uma mensagem escrita a alertar para uma consulta no dia 6 de Maio, na vossa clínica. Pode-me dizer qual é a especialidade?

- Dermatologia.

- Pois, não me leve a mal, mas não vou conseguir comparecer à consulta. É que estou em Luanda e dificilmente marcaria uma consulta para Amarante. Só pode ser engano.


A conversa prosseguiu, com uma explicação atabalhoada para a mais que certa troca de nomes. Contudo, foi preciso desligar o telefone para perceber o real motivo do sucedido. Julgo possivel uma das seguintes justificações: a) Uma ex-namorada a gozar com a minha cara (o que é um disparate, porque para surtir efeito devia mandar-me ao urologista); b) Deus a dizer-me que esta cena de coçar o rabo não é fixe.

4 de maio de 2009

Confirma-se. A minha mãe chorou quando leu o post.

"Do teu..."

Não sei o que é que me faz gostar assim tanto das lojas de velharias. De início concentrei-me nos cheiros, pesados, húmidos, depois na habitual pouca luz. Não sei o que é que me faz gostar assim de lojas de velharias, mas tenho uma pequena ideia. Acho que é a história que nelas se escreve.

Para ser sincero, nem sequer estou a falar das relíquias que só um olho treinado encontraria num espaço lúgubre como é uma loja de velharias. Aquilo de que eu gosto mesmo é daqueles objectos que nunca ninguém irá comprar. Afinal, são eles que nos levam até à vida de alguém. Imaginar que aquele “aquilo” teve um dono – talvez até mais do que um – é ‘cousa’ à qual não se fica, digo eu, indiferente.

Gosto especialmente de pentes. A par das escovas de dentes, os pentes são dos objectos mais pessoais que temos. Dificilmente partilhamos, de bom grado, a nossa caspa com alguém. Queria ser capaz de perceber neles coisas sobre quem os usou. E vai daí interrogo-me: que idade teria? Cabelo comprido? Encaracolado ou liso? Não percebo nada através deles. Não percebo nada e tenho pena, mais não seja porque este texto ficaria muito mais bonito se eu tivesse uma história para contar.

Foi numa dessas frustrações que encontrei, certo dia, um molhe de cartas. Dentro de uma caixa, em envelopes amarelecidos, misturados com outros envelopes amarelecidos, estava a correspondência amorosa trocada durante anos entre um soldado e a sua amada.

Li a primeira, li a segunda e à terceira decidi que compraria, sem cuidar do preço, todas quantas encontrasse. Já em casa, organizei a novela amorosa – em 22 capítulos – numerei-a e pus-me a par. Que amor, aquele. Cheguei ao fim com o propósito de encontrar os autores das cartas. Uma bela demanda em perspectiva, ou não fosse o enredo datado dos anos 50.

Fui à morada da Maria Isabel – assim se chamava - numa rua de Lisboa, num prédio com o mesmo cheiro das lojas de velharias. Bati à porta certa, mas ninguém a abriu. Perguntei a alguns vizinhos mais antigos e nenhum me soube responder. Acabou por ser numa troca de favores que descobri que o “Do teu…” estava muito doente num lar em Santarém. Sobre ela, nada.

Gostava de lhe ter devolvido as cartas, mas o tempo passou e a vontade também. Não ficou, sequer, a intenção. Apenas a vontade de um dia escrever sobre isto.