1 de junho de 2009

Do dia de cá*

Quem segue na estrada do Golfe II, ao virar à direita depois do que há-de ser um hipermercado, entra no Nova Vida. É aqui que eu moro. Bem, não é exactamente aqui, onde estão depois das indicações, mas não estou longe, descansem. 
O bairro começa com uma mercearia. À porta, sem excepção de dia algum, estão uns meninos de pele escura, cabelo crespo e pés - em chinelos de 100 kwanzas - gretados. Invariavelmente, tão certo como a sua presença, é o pedido por "pão". O "pão" não tem de o ser, realmente. Podem ser "50 pa mim comprar gasosa" ou "dá só" qualquer coisa. Geralmente dou. Divido-me em pedagogia e tento ensinar como partilhar, com alguma justiça, um pacote de bolachas. É uma merda ensinares alguém a partilhar, se esse alguém não tem nada, sequer, para si. 
De início achei que havia qualquer coisa de diferente neles. Agora não. São iguais, afinal, aos meninos da minha outra rua, em Portugal. Têm a t-shirt mais velha e mais suja,  estômago mais vazio e as pernas mais cansadas. A vida custa-lhes muito mais, mas está lá o brilho. O brilho de quem, no fundo, tendo crescido demasiado depressa, como só cresce quem é obrigado a ser gente grande, na corrida pela sobrevivência, continua a ser criança. Elas estão lá: a pureza, a verdade e a ingenuidade, até a ingenuidade.
Eles, a quem dou bolachas com recheio de baunilha - e a quem podia dar muito mais - não são o rosto de um país pobre e de contrastes, onde os ricos são milionários e os miseráveis, a triste maioria, condenados à frustração. Eles são a razão de ser das terças depois das segundas, das quintas a seguir às quartas e antes das sextas. Não lhes conheço o nome - e já o devia ter perguntado - mas gostava de lhes contar que, não estando só nas suas mãos, era bom que não deixassem de sonhar. Enquanto sonharem vão manter a ignorância original. Depois de crescerem - se não podes mudar o mundo, não tentes percebe-lo - vai custar muito mais.
Em Angola, como em todo o lado, comemorou-se ontem o Dia Internacional da Criança. Aqui, a efeméride é motivo para feriado. Pensei tratar-se de mais um devaneio cultural, de quem não gosta de trabalhar. Mentira. Parar um dia pelos maiores inocentes da cobiça dos homens é como pedir-lhes "desculpa ya?" por tanta falta de vergonha na cara. Comecemos por aí, então.

*Para a Dulce, para o Tiago, para a Bia, para aqueles meninos da turma das 9:30, para os da mercearia e para mim, também. 

O vestido amarelo

Ao vestido amarelo, que usa em dias que não precisam de ser especiais, não falta nada. Não tem nada, o vestido. Nada de especial, pelo menos. É amarelo. Tem um fita, amarela, e botões, amarelos, como a fita e como o vestido. Em verdade, tudo lhe fica bem, mas aquele vestido amarelo, aquele, fica-lhe ainda melhor.
Como lhe fica bem e como tem uma abertura à frente pela qual se vê um pedaço de coxa, suficiente para imaginar a demasia.
Ao vestido não falta amarelo, não falta uma fita, botões ou história. A história dela e do vestido que trazia.

28 de maio de 2009

Estava a ouvir o Governo Sombra da TSF e dei por mim a pensar no seguinte:

Na imprensa, quando a notícia é um insulto proferido por alguém a outrem, a tendência natural é, em texto escrito, trocar o insulto pela primeira letra do mesmo, seguida de asteriscos, resultando, o exercício, em qualquer coisa do género: "... vai para o c******". 
Ora, no caso, o facto é mesmo o caralho. Assim, só por excesso de pudor se compreende a omissão do caralho, sabendo-se, desde logo, que é nele que está a notícia. Omiti-lo é como não contar a verdade. Deixar o caralho de fora é deixar a história por contar.

27 de maio de 2009

Querido diário,

Hoje acordei cedo. Lavei-me - lavo-me sempre - e fui trabalhar. Depois de cerca de uma hora de trabalho parei para comer, como faço todos os dias.
Voltei do café e telefonei para um senhor, a combinar uma conversa sobre um trabalho que tenho em mãos. A conversa ficou combinada.
Continuei a trabalhar. Trabalhei mesmo, até que parei para almoçar.
Voltei do almoço e liguei para o mesmo senhor, a reconfirmar a combinação. "Tudo ok", respondeu ele, querido diário.
Trabalhei a tarde toda. Acabei o trabalho e vim até casa. À hora prevista, antes da hora marcada, saio de casa, para não chegar atrasado. Antes de arrancar com o carro, um telefonema. Continua de pé, o encontro.
Chego à cidade - e não é fácil chegar à cidade - estaciono o carro, peço a um puto para lançar um olho e sigo caminho. Entro no prédio, "ah, ele hoje não veio".
Querido diário, estou um bocado farto disto.

Quando o inesperado acontece

Olhei pela janela e julguei estar a alucinar. Felizmente, o efeito do Dão, Meia Encosta, Tinto já passou há algumas horas. Aqui é Luanda e isto é um autocarro dos Transportes Sul do Tejo, em Luanda. Não é mentira. Em tempos, isto andou mesmo pelas ruas do Seixal, Almada, Sobreda, Costa da Caparica, Fogueteiro e até Arrentela!



26 de maio de 2009

Olha eu (o da camisola às riscas)

No especial de apresentação da nova grelha de programas da Tv Zimbo. Isto pode ser o que é (e não é pouco), mas é meu, também. É meu e têm-se saído da pele, enquanto perco anos de vida.

25 de maio de 2009

Por estes dias temos lá em casa a namorada de um colega. Acabámos de ir às compras. "Vocês não têm comida nenhuma". Eu só pergunto: Qual é o problema dela com Cerelac?

22 de maio de 2009

E está tudo dito

Ontem, numa reportagem nocturna, durante a festa de aniversário de um espaço cultural de Luanda, optei por colocar a todos os [muitos] entrevistados a mesma pergunta e apenas esta:
O que é que o Elinga tem?
A diversidade das respostas foi tanta que daqui podemos tirar uma lição: às vezes complicamos, com frases demasiado elaboradas e perguntas excessivamente forçadas, quando, no fundo, tudo se resume a pequenas coisas.

19 de maio de 2009

33H

Tenho a carteira cheia de notas de 10, tantas que não a consigo fechar. As notas de 10, e as de 5, também, circulam ao ritmo da vida: acelerado. Não é que tenham grande valor, como a vida, volátil, mas são tantas e tão chatas que qualquer pretexto é bom para as despachar.

Em rigor, a minha carteira está quase sempre assim. Se calhar devia fazer como o Ricardo e guarda-las. Tivesse ele falado disso antes e talvez eu próprio fosse hoje um coleccionador de notas de 10. Em cada uma teria escrito uma memória, uma história, um episódio. Sobrariam as narrativas, por falta de notas.

São 9 meses disto, aqui. Fora o que se faz, há tão pouco para fazer que tudo parece imenso. Por falta de distracção, concentramo-nos nas coisas simples. Simples demais, às quais não daríamos importância, não fora o facto de andarmos entretidos com nada, além do circunstancial.

No fundo, é uma estupidez esta maneira de levar a vida. Vai-se da paixão ao desamor num fragmento de segundo, de novo à paixão e daí sabe-se lá para onde. Se agora somos líricos, a seguir seremos é uns grandes idiotas porque perdemos tempo com poesias.

Tenho África entranhada. O calor abre-me os poros e a poeira enche-me a pele de coisas que não consigo definir melhor do que isto.

Tudo é tão rápido, só o tempo demora a passar. Não é que seja penoso, apenas demasiado intenso, real e longe da saída para se fugir “em caso de emergência”.

Ninguém passa por aqui e continua igual a si mesmo. É-se – sou – uma metáfora (na melhor das hipóteses) do que estava convencido ser. Ao olhar do espelho sou mesmo eu, mas o tipo que se reflecte é quanto muito um heterónimo do 33H, TP257.

Não sei quanto tempo é que isto ainda vai durar. Já percebi é que não vai acabar no dia em que me for embora.

Ainda as formigas

Fiquei feliz quando percebi, há escassas horas, que existe no mundo quem compartilhe o gosto pelas formigas. Não é caso menor. De facto, as formigas são a comunidade mais organizada da biosfera e não é sensato ou simpático desprezar a forma como elas funcionam no colectivo. Soubessemos nós metade do que elas sabem sobre vida comunitária e seriamos, certamente, muito melhores enquanto organização.

As formigas - Olívia, onde raio é que tu te meteste? - são o exemplo acabado de que o todo é muito mais do que a soma das partes e a nós faz-nos muita falta perceber isto.

Querida Antígona, sinto contigo a dor pelo genocídio provocado a milhões de formigas (vejam isto) com um fim científico, mas quem parte deixando um exemplo a quem fica morre por uma causa maior. Como Cristo, no fundo.