12 de junho de 2009

Este blog está uma coisa estranha

O título não é exagero, este blog está mesmo a ficar uma coisa estranha. Acontece-me com frequência um colega de empresa (e recorde-se a minha actual localização geográfica) abordar-me com um comentário sobre um qualquer post que publiquei neste espaço.

Para mim isto é muito estranho. Desde logo, porque não faço a mais pequena ideia sobre o caminho que fizeram até chegar à minha Marcha. Depois, porque o inesperado é sempre surpreendente, por si.

A nova moda desta blogsfera caseira é o "vestido amarelo". Perdi, entretanto, a conta à quantidade de pessoas que já me abordarem, escreveram ou telefonaram a comentar os vestidos amarelos. Os deles, das suas vidas e os da minha, também.

10 de junho de 2009

A Marcha cheia de si

Recebi o Dia de Portugal com um concerto de Mariza. Não foi sequer televisivo, já que a mocita veio mesmo até Luanda. Poupo-me à parte dos rasgados elogios e passo directamente para o orgulho patriótico, consumado no sacrifício pessoal a que obriguei a equipa que saiu para trabalhar comigo na cobertura do evento. 
Ando há quase um ano a levar, ao ritmo de, pelo menos, uma vez por semana, com "shows" da Ary, da Pérola, da Patrícia Faria, do Paul G, do Big Nelo e do Anselmo Ralph, para citar os mais pronunciáveis. Hoje obriguei toda a gente a ficar até ao fim da apresentação: E foram duas horas e meia de fado!
Meus amigos, viva Portugal, viva Camões e vivam as queijadinhas de Sintra. Ou os pasteis de Belém? Não, as queijadinhas.

8 de junho de 2009

Momento gay

Acabei de sair do wc. Estive lá com um gajo, não a fazer um "buraquinho da glória", mas a cortar o cabelo. Eu a ele. "Ela" a mim.

As eleições, o Nuno Melo e o Paulo Portas

Das eleições, nada de novo. Não fiquei surpreendido com a vitória do PSD, nem com a subida genérica da esquerda. O acto de ontem mostrou que Vital Moreira foi uma má escolha socialista e que os portugueses interessam-se pouco pelas coisas da Europa.
A grande revelação da noite foi mesmo o grau de afecto que existe entre Paulo Portas e Nuno Melo. É sempre bonito ver um homem emocionar-se. Agora, se a lagriminha marota aparecer ao som das palavras "Paulo, quero-te dizer... é sua, merece-a", a coisa começa a ficar estranha.
Não me interpretem mal, mas acho muito suspeito aquele toque do Paulo no ombro do Nuno. Sou capaz de jurar que ouvi ali um "ai Nuno, pára com isso".
Numa nota pessoal, ainda bem que o Vital perdeu. Há-de-lhe sobrar mais tempo para voltar a ser aquilo que as crianças esperam dele: o Avô Cantigas.

O post para a angolanidade

Lá porque o anúncio do BFA fala de crédito e dos sonhos que ele ajuda a concretizar, quem é que achou que era giro meter o Paulo Flores a cantar no meio de umas nuvens muito foleiras?

A guerra das garrafas

Parece que alguém resolveu avariar a bomba de água que garantia o abastecimento do prédio onde moro. Assim sendo, porque a água aqui não tem muita pressão e os cortes na rede são frequentes, não há como retirar a reserva que fica nos depósitos de 5000 litros que temos. Assim, só muito raramente é que tenho água nas torneiras (e sou um privilegiado: a maior parte das pessoas não tem, sequer, torneiras em casa). Nesses períodos, além de tomar banho, ocupo-me a encher dezenas de garrafas, bacias e baldes, preparando-me para as horas secas seguintes. 
A tarefa não é fácil. Não é.

4 de junho de 2009

Aquela cena das muitas mulheres que me querem para pai dos seus filhos não é boato:

Sereia disse...

Ainda bem que eles não tiveram acesso às msgs!

sakura disse...

Ai amori! Então eu descubro por aqui que tens mensagens no telemóvel de todas as mulheres que te desejam?! Está bem, eu deixo... 
Vá lá, do mal o menos, ficaste com os cartões e ainda tiveste sexo pós-momento-de-grande-perigo. Não faz mal...longe da vista longe do coração ;)
Beijo*

You know who disse...

Nunca desiludes e é por isso q te amo. Pinaço do bom logo depois de uma cena dessas! És muito grande!

HelenaT disse...

Adorei a parte do "fizemos amor logo ali".
Gosto deste blog.
Abraço


Mas sabem qual é o vosso azar, queridas? Nenhuma de vocês é a dona do vestido amarelo.

2 de junho de 2009

O assalto não lhe correu muito bem

Acabei de ser assaltado. Não foi um assalto qualquer. Foi um assalto à mão armada. À mão armada, porque a mão do assaltante tinha, rigorosamente, uma arma. Uma pistola... ou bisnaga (preferi não esperar para ver). Não foi assim tão mau e passo a explicar porquê. Aconteceu assim:
Estava a sair da estação em direcção à casa de uma amiga, só que, ao entrar na estrada principal, a própria cruza-se comigo, no seu carro. Encostamos à berma, saio do carro e troco, logo ali, dois dedos de conversa. Devolvo-lhe um pertence - motivo da viagem - e preparo-me para seguir caminho. Não deu tempo. 
No entretanto aparecem dois madiés de scooter. Param e um deles dirige-se a mim. Surpresa! Tira uma pistola do bolso: "O telemóvel". Não me fiz rogado. "A carteira".
Acontece que é dia 2 de Junho, ainda não recebi e tinha acabado de comer batatas fritas com gasosa no trânsito. Logo, sobravam-me 500 kwanzas. Depois de tamanha frustração, os assaltantes (já disse que foi um "assalto à mão armada"?) deram-me ordem de soltura.
Sobrou-me, contudo, discernimento para pedir de volta os sim cards. Eu tenho, ou tinha, um dual sim e era chato "pa caraças" ficar, de uma só vez, sem dois cartões onde guardo todos os meus contactos, além de dezenas de mensagens das muitas mulheres que me desejam. Como tive o privilégio de ser assaltado - fui vítima da criminalidade violenta de Luanda, o que faz de mim um sobrevivente - por dois indivíduos íntegros, lá reavi os chips. Até no mundo do crime há gente séria. Séria e educada, como eu, que antes de partir agradeci com um sentido "obrigado".
Reencontrei-me com a minha colega uns metros mais à frente e fizemos amor logo ali. É que o perigo excita-me.

1 de junho de 2009

Do dia de cá*

Quem segue na estrada do Golfe II, ao virar à direita depois do que há-de ser um hipermercado, entra no Nova Vida. É aqui que eu moro. Bem, não é exactamente aqui, onde estão depois das indicações, mas não estou longe, descansem. 
O bairro começa com uma mercearia. À porta, sem excepção de dia algum, estão uns meninos de pele escura, cabelo crespo e pés - em chinelos de 100 kwanzas - gretados. Invariavelmente, tão certo como a sua presença, é o pedido por "pão". O "pão" não tem de o ser, realmente. Podem ser "50 pa mim comprar gasosa" ou "dá só" qualquer coisa. Geralmente dou. Divido-me em pedagogia e tento ensinar como partilhar, com alguma justiça, um pacote de bolachas. É uma merda ensinares alguém a partilhar, se esse alguém não tem nada, sequer, para si. 
De início achei que havia qualquer coisa de diferente neles. Agora não. São iguais, afinal, aos meninos da minha outra rua, em Portugal. Têm a t-shirt mais velha e mais suja,  estômago mais vazio e as pernas mais cansadas. A vida custa-lhes muito mais, mas está lá o brilho. O brilho de quem, no fundo, tendo crescido demasiado depressa, como só cresce quem é obrigado a ser gente grande, na corrida pela sobrevivência, continua a ser criança. Elas estão lá: a pureza, a verdade e a ingenuidade, até a ingenuidade.
Eles, a quem dou bolachas com recheio de baunilha - e a quem podia dar muito mais - não são o rosto de um país pobre e de contrastes, onde os ricos são milionários e os miseráveis, a triste maioria, condenados à frustração. Eles são a razão de ser das terças depois das segundas, das quintas a seguir às quartas e antes das sextas. Não lhes conheço o nome - e já o devia ter perguntado - mas gostava de lhes contar que, não estando só nas suas mãos, era bom que não deixassem de sonhar. Enquanto sonharem vão manter a ignorância original. Depois de crescerem - se não podes mudar o mundo, não tentes percebe-lo - vai custar muito mais.
Em Angola, como em todo o lado, comemorou-se ontem o Dia Internacional da Criança. Aqui, a efeméride é motivo para feriado. Pensei tratar-se de mais um devaneio cultural, de quem não gosta de trabalhar. Mentira. Parar um dia pelos maiores inocentes da cobiça dos homens é como pedir-lhes "desculpa ya?" por tanta falta de vergonha na cara. Comecemos por aí, então.

*Para a Dulce, para o Tiago, para a Bia, para aqueles meninos da turma das 9:30, para os da mercearia e para mim, também. 

O vestido amarelo

Ao vestido amarelo, que usa em dias que não precisam de ser especiais, não falta nada. Não tem nada, o vestido. Nada de especial, pelo menos. É amarelo. Tem um fita, amarela, e botões, amarelos, como a fita e como o vestido. Em verdade, tudo lhe fica bem, mas aquele vestido amarelo, aquele, fica-lhe ainda melhor.
Como lhe fica bem e como tem uma abertura à frente pela qual se vê um pedaço de coxa, suficiente para imaginar a demasia.
Ao vestido não falta amarelo, não falta uma fita, botões ou história. A história dela e do vestido que trazia.