Sou mesmo do tamanho do mundo. Bem, não literalmente, mas em ideia, pelo menos.
A intenção de viver fora de Portugal não é nova. Sempre quis experimentar. Durante anos, não tantos assim, fartei-me de viajar. Em cada ida, quase sempre sem companhia, dei por mim a achar que seria capaz de mudar de vida ao ponto de ficar no sítio que visitava e recomeçar, logo ali, tudo de novo (o que é que se recomeça aos vinte e poucos anos?).
A oportunidade de vir para Angola - e há um ano o telefone tocava com o convite - chegou na altura certa. Dividia-me por três empregos, trabalhava nunca menos de 15 horas por dia e tinha muito pouco tempo para lá daquele que usava a saltar entre redacções. Estava relativamente saturado de tamanha agitação, embora só me apercebesse disso nas escassas folgas de que gozava.
Após uma espera angustiante, lá entrei para o avião e horas depois levei, pela primeira vez, com o bafo que sente quem desce a escada de desembarque, em direcção à pista do 4 de Fevereiro.
Estes meses aqui - e não tarda serão 12 - tiveram o propósito maior de me mostrar - como se eu ainda não tivesse visto - que o mundo é enorme, mas o mais longe que existe é já aqui ao lado. Sou um tipo diferente, agora. Não sou necessariamente um sujeito mais responsável ou melhor. Apenas mais experiente e isso pode fazer toda a diferença. Fará, pelo menos, daqui por diante.
Não sei o que me reservam os próximos tempos. O turbilhão de emoções que foi, em resumo, o meu passado recente, não deixa grande margem para ilações. Será, pois então, um "esperar para ver". Porém, cruzo-me de quando em vez com pensamentos estranhos e fico sem saber como lidar, ao certo, com eles. Quer dizer, saber, até sei. Não sei é como expressa-los. A ver se vocês me entendem.
Não quero ter casa. É isto. Claro que não penso viver na rua, mas gostava de ter a coragem de viver só do mundo (e não confundam com viver "no mundo"). Se fosse capaz, se fosse muito capaz, ia por aí. Passava anos de vida a saltar de morada em morada para depois, já velho (ou envelhecido) voltar à casa de partida e ficar o resto do tempo a contar as histórias do que vivi.
Quero ter uma vida cheia de enredos. Um não me basta.
E com isto considerem-se avisados para o que possa vir a caminho.