22 de setembro de 2009
A vida privada de Salazar
21 de setembro de 2009
Com a melhor das intenções
19 de setembro de 2009
Muito tempo, nem tanto assim. A Saudade. E.
Tempo que chegue para desorganizar recordações e mudar - os - hábitos. Já não adormeço com a televisão ligada ou com os óculos postos (não adormeço mesmo, mãe!). Não tomo cinco cafés por dia. Os óculos ficam na cabeceira, já não adormeço com eles.
Não vou à missa ao domingo depois de dar catequese. Não dou catequese. Não vou ao café ao domingo, depois da missa a que não faltava depois da catequese. Já não vou à missa ao domingo. Continuo a não apagar a luz. Adormeço antes de conseguir, mas não tomo cinco cafés por dia.
Um ano é muito tempo. Muito tempo e A Saudade. A do que, do que eu estou a perder. Do que eles estão a fazer sem mim, porque podem - isso - sozinhos. Hoje é Sábado e amanhã não vou dar catequese, mas a catequese vai lá estar. Não vou à missa, mas a missa vai lá estar. Hoje é Sábado, amanhã é domingo e eu não vou ao café depois da missa. Olha, não vou e é disso que tenho Saudade. Do que [não] vou fazer amanhã. A pior saudade é a do presente que não estás a viver.
Estão lá todos e eu não. E a vida a passar e eu não [estou].
18 de setembro de 2009
O poder da imagem
A sondagem de ontem no Diário de Notícias prova duas coisas, a primeira das quais uma “não notícia”: Sócrates é televisivamente muito melhor do que Manuela Ferreira Leite; Sócrates não está vencido.Feita antes do duelo “Fedorento”, a sondagem prova ainda que Portugal entrou definitivamente na era da televisão. Daqui para a frente, as campanhas e a política serão necessariamente diferentes, ainda que não orbigatoriamente melhores. Os políticos e as máquinas partidárias - com as agências de comunicação que contrataram - perceberam o poder da imagem (perceberão ainda melhor depois das sondagens feitas a seguir ao programa do Ricardo Araújo Pereira e dos outros três) e é por isso que todas as agendas pré-eleitorais convergem num ponto: o boneco televisivo.
Manuela Ferreira Leite pode ser o anti-político, mas o eleitor não quer anti-políticos. O eleitorado quer quem fique bem no ecrã. E Sócrates fica. Assim como fica Louçã (12%). E daqui por diante, venham denuncias, suspeitas e acusações.
Se a política fosse música, os partidos bandas pop e as eleições o Ídolos, ganharia quem tivesse a melhor melodia, mesmo que ninguém percebesse nada a letra.
16 de setembro de 2009
Viver em Luanda
Luanda não é Angola e Angola não é só Luanda. Hoje vamos falar de habitação, transportes, compras e vida em geral. Destaco palavras-chave, para que se orientem.
Habitação
Luanda tem três áreas habitacionais distintas. O centro da cidade, todo ele com construções antigas, do tempo colonial e prédios que fazem lembrar a Amadora dos anos 60, sem obras desde então. Existem também, na Maianga ou no Bairro Azul, algumas vivendas da mesma época, embora em melhor estado de conservação. Desconheço o preço do aluguer de uma vivenda, mas sei que nos apartamentos as rendas mensais rondam os 3000 / 4000 dólares.
À volta do centro estão os musseques. Estes “bairros da lata” não obedecem a nenhum tipo de ordenamento e, em alguns casos, como o Cassenda, junto ao aeroporto, confundem-se com o que já foram zonas ordenadas. O saneamento básico, projectado para um número bem inferior de moradores, não consegue responder às necessidades actuais e por isso é frequente existirem verdadeiras lagoas disso que estão a imaginar. Nos musseques existem casas de três tipos: vivendas recuperadas, com altos muros e um segurança à porta, casas e anexos de tijolo, com telhado de chapa, sem tecto e sem água (a não ser em balde) e casas de chapa. A renda de uma casa de tijolo com dois quartos, sala e wc, mesmo sem água, ronda os 700 a 800 dólares. Aumentará se precisarem de mais espaço. Comprar um terreno nestes bairros é um risco. Muitos são vendidos a várias pessoas e o dinheiro acaba por ser deitado fora.
Em Luanda Sul está a crescer a “cidade nova”. Talatona assemelha-se a uma cidade europeia, com ruas alcatroadas, iluminação pública e relativa segurança. As casas são de acordo com os padrões europeus, os preços é que não. Luanda Sul é a capital dos condomínios, ocupados quase todos por expatriados. Um T3 pode custar, mensalmente, 20 mil dólares. Comprar casa nesta área pode significar desembolsar entre 1 a 5 milhões de dólares.
Uma nota ainda para o projecto Nova Vida. É um bairro militar, construído pelo Governo. Parece um bairro social, mas é uma zona tranquila, embora sem os luxos de Talatona. As casas são maioritariamente atribuídas pelo Estado, pelo que só em regime de subarrendamento é possível alugar habitação no local. Rendas entre 3 e 5 mil dólares.
Transportes
“Luanda é um caos”. Provavelmente já terão ouvido esta expressão da boca de alguém que está ou esteve recentemente na capital angolana. A mais pura das verdades. Uma viagem entre o centro e a periferia, à distância de 10 quilómetros, pode levar 3 horas. A circulação dentro da própria cidade é infernal desde as seis da manhã e até às 22. O domingo, quando está tudo fechado, é o único dia razoável para se sair de casa.
Um empresário brasileiro dizia-me há dias que “tudo quanto é negócio de carro resulta em Luanda”. O homem estava certo. São milhares (milhões?) de carros nas esburacadas ruas da capital. O desfile de viaturas é digno de registo. Entre, velhos Starlets (que, com 15 anos, custam 6000 dólares) e potentes Hummers, Tundras e Escalades, estes importados directamente dos Estados Unidos. Nenhuma outra cidade terá tantos 4x4 como Luanda.
A falta de transportes públicos agrava a situação. A TCUL – Transportes Colectivos Urbanos de Luanda e a Macon são as principais empresas, mas a sua frota é escassa, passa a maior parte do tempo avariada e tem dificuldades de circulação por entre o trânsito caótico em quase todas as artérias. As viagens custam 30 kwanzas (30 cêntimos de euro).
E eis-nos chegados aos táxis. Os táxis não são como nós os conhecemos. Esqueçam as filas de Mercedes à espera de passageiros. Táxi, aqui, é carrinha Hiace (“iáce”, como pronunciam os angolanos) de nove lugares, onde nunca vão menos de 12 passageiros. Os “taxistas” conduzem que nem uns loucos, sobem passeios, andam em contramão, param onde lhes apetece, mas são responsáveis por manter a cidade em funcionamento. Quando a polícia decide apreender carrinhas ilegais, a cidade cai na quase ruptura absoluta, as pessoas não aparecem para trabalhar, o trânsito aumenta e o cenário é apocalíptico. As viagens podem custar 100 a 150 kwanzas e há quem precise de apanhar cinco táxis diferentes para chegar de um sítio a outro na cidade.
Compras
Luanda é uma cidade cara. O facto de ser deficitária em termos produtivos leva a que quase tudo tenha de ser importado. A escassez de oferta faz aumentar os preços e o tempo que os cargueiros esperam para atracar (várias semanas, por vezes) no saturado Porto de Luanda não ajuda. Chegam a estar 80 navios ao largo, em lista de espera.
Para comprar bens essenciais existem cadeias de supermercados e pequenos minimercados ou cantinas, como são apelidadas as lojas de bairro.
O Shoprite, o Mundo Verde e o Nosso Super têm os preços mais populares, embora continuem caros. A Casa dos Frescos é a loja dos expatriados endinheirados, com todas as marcas de um qualquer Pingo Doce português, mas onde um pack de quatro Suissinhos pode custar 15 euros e onde eu já paguei – sou um excêntrico – 2000 kwanzas (20 euros) por uma caixa de gelado Olá.
Outra forma de comprar é no mercado informal, ou na zunga. À beira da estrada, no meio do trânsito. Os preços são mais baratos – continuando caros – porque os vendedores compram directamente nos armazéns. Há de tudo – fruta, legumes, bolachas, ovos, ferros de engomar e móveis para a casa - e chega a ser pitoresco. Quem é que não acha piada a um sofá à venda no passeio?
A comida é cara. Não será à toa que a base da alimentação é o feijão e o funge (papa feita com farinha de mandioca ou milho).
Vida em geral
… telecomunicações
Existem duas redes móveis e uma fixa. A saber: Unitel, Movicel e Angola Telecom. A primeira e a última são do Estado. A do meio é “mais ou menos” privada (os privados aqui são sempre só “mais ou menos” privados). A Unitel tem cinco milhões de clientes e é a principal rede do país. Tem muitas falhas e entope à sexta-feira, altura em que, durante horas, é difícil fazer qualquer ligação. Funciona o sistema de pré-pago, com os clientes a comprarem os cartões na rua (raspam-se, tal Lotaria Instantânea) ou a levantarem um talão com um código de recarga no ATM.
Por falar nisso, os ATM estão quase sempre fora de serviço ou sem dinheiro. A rede chama-se Multicaixa, e só nalguns terminais são aceites cartões Visa (para levantamentos internacionais, por exemplo). Os cartões Maestro não são aceites. Nas lojas, os terminais de pagamento, quando existem, estão muitas vezes fora de serviço.
A internet mais rápida no país é a 4 mb/s, oferecida pela Tv Cabo. Está acessível apenas nalgumas zonas da cidade e o preço é de 450 dólares. Existem preços - e velocidados - mais baixos. Unitel e Movicel têm internet móvel, mas o serviço tem muitas falhas, embora venha a melhorar desde a sua entrada em funcionamento.
Como se subentende pelo parágrafo anterior, há televisão por cabo e os preços são razoáveis, com todos os canais a que estamos habituados (Fox e Axn também, descansem). O campeão de vendas é, contudo, o serviço satélite, mais barato e com o mesmo pacote de canais da Tv Cabo.
… outros serviços
Luz é água são bens escassos em Luanda. É frequente o corte durante horas ou mesmo dias. Há zonas da cidade onde, simplesmente, não existe fornecimento. A solução adoptada por muitos passa por comprar um gerador próprio, para a electricidade, e um tanque de água que é depois abastecido por um camião cisterna.
… segurança
Luanda é uma cidade insegura. Os assaltos são frequentes. Telemóveis, computadores pessoais e, claro, dinheiro são os alvos principais dos “amigos do alheio”. Há que ter alguns cuidados: evitar andar a pé na rua em especial durante a noite; trancar as portas do carro; de noite, não parar nos semáforos e, acima de tudo, não confiar na sorte. Uma atitude consciente e defensiva é sempre a mais prudente. Em caso de assalto, raramente há violência. Embora os delinquentes andem quase sempre armados, só usarão a arma (e usam) se houver resistência. Para mim, a vida tem mais valor que um iPhone, mas isto sou eu a falar.
… enviar dinheiro para o estrangeiro
É difícil. Até há uns meses atrás era relativamente fácil enviar dinheiro para fora, mas com a escassez de dólares no mercado e com a crise (também aqui, sim!) a situação complicou-se. Pelo banco, o Governo obriga à apresentação de um atestado de residência e do contrato de trabalho, este último uma miragem para muitos trabalhadores estrangeiros em Angola. Existem alguns balcões da Western Union e semelhantes onde é mais fácil o envio, embora limitado a uma determinada quantia mensal.
… as pessoas
É como em tudo, há gente boa, gente assim-assim e gente má. Em geral, o angolano tem pouca responsabilidade, mas isto é uma coisa que se constrói com o tempo. Há uma nacional dificuldade em se cumprir um horário e a palavra dada é só palavra dita. Contudo, as pessoas genuínas são verdadeiras. Convém andar sempre com uns kwanzas no bolso, podem dar imenso jeito.
… lazer
Luanda não é uma cidade com muitas ofertas de lazer. Talvez por isso o Belas Shopping, o único centro comercial a funcionar (apesar de existirem muitos outros já em projecto ou mesmo em construção), seja, ao domingo, sítio de romaria e um local a evitar. O Belas que é aproveitado como cenário bucólico para fotografias de casamento. Às quintas e sextas é ver as comitivas em animados desfiles por entre lojas e corredores. O Cineplace, um complexo com oito salas de cinema – as únicas no activo – está lá instalado.
Quem procura diversão nocturna vai à Ilha, que é apenas uma península e que não deve ser confundida com o Mussulo. O Chillout é o ponto de encontro dos portugueses, com música House. Faz lembrar as discotecas lisboetas, mas ao ar livre. Miami Beach, Caribe e Jango Veleiro são outros nomes a decorar. Fora da Ilha do Cabo (ou de Luanda, como é coloquialmente chamada), o Palos é a Meca da noite. Por ter sido a primeira e pelo seu dono, o exuberante Paulo Von Haff, a discoteca / bar tem às quintas-feiras a sua grande noite semana. São as noites latinas. Se estiverem à procura de sons mais tradicionais, vulgo Kizomba, Don Q e W são os sítios onde querem ir.
Morreu de doença prolongada
Não sei o que é que se passa com a espécie humana, mas tenho para mim que coisa boa não é de certeza. Já repararam na quantidade de gente que, todos os anos, morre de “doença prolongada”?
Como sabemos, morrer de doença prolongada é, quase sempre, eufemismo para bater a caçoleta com um cancro e eu não me lembro de nos meus primeiros anos de vida assistir a este corrupio de óbitos tão sofridos. O que me chateia na morte não é tanto o acto em si. Havendo vida depois dela, encontramo-nos por lá. Não havendo, paciência… estarei morto, de qualquer maneira. O que me aborrece na morte é a possibilidade de ter consciência de que o meu desfecho está para breve. Detestaria que me dessem uma deadline para eu fazer tudo aquilo que ainda espero conseguir acabar.
As “doenças prolongadas” não são, não o são sempre, pelo menos, uma sentença de morte. Mas depois da fatídica conversa com o médico, o que é que poderia esperar do meu futuro? De que é que me valeria a vida sem imprevisibilidade?
Se morresse agora, sendo súbito, deixaria uma família desgostosa, um ou outro amigo entristecido e duas repórteres aliviadas (elas acham-me um horror porque as obrigo a fazer guiões e planos de reportagem). Contudo, nada disso me ralaria por aí além. O súbito costuma ser muito rápido e alguém haveria de fechar o programa desta semana e transferir o dinheiro para Portugal. Preferiria assim.
Antigamente, as pessoas morriam de velhas. Agora morrem de coisas terríveis que as levam para uma espiral de sofrimento durante anos.
Por isso é que eu acho que as doenças prolongadas foram feitas para serem vencidas com medicina e força de vontade. Elas são só chatas, como o IRS. Se fossem a sério levavam-nos num instante.
14 de setembro de 2009
"Quero ser gigolo"
Reconheço que, em dias como os de hoje, qualquer saída é boa para a crise. O empreendedorismo é fabuloso e pode ser a solução ao desemprego galopante. Agora, daí até vendermos a gaita (ou o rabinho, depende da área de acção) para pagar a hipoteca, enfim, enfim. Mas claro, isto também sou só eu a especular. O leitor de ocasião pode perfeitamente ser, apenas e só, um curioso com um grande interesse pelo sexo profissional e se for isso, compreendo-o perfeitamente.
Aquele de quem (quase) ninguém fala
Chegou meia hora antes do combinado. Trazia um pequeno bloco, o telemóvel e uma esferográfica. Nada – do telemóvel à caneta – particularmente vistoso. Dez minutos antes da hora prevista entrámos para o estúdio, dei-lhe as coordenadas e começámos a gravar.Foram os meus primeiros 45 minutos com alguém que diz que “Mário Machado é um preso político”, que crítica os imigrantes, mas que viveu alguns anos fora do país e que tem em Salazar, se não um ídolo, pelo menos uma referência.
José Pinto Coelho não me assusta. Nem ele, nem o Partido Nacional Renovador. Quando há quase dois anos o entrevistei, percebi quão inconsequentes são as suas palavras. Tão surreais quanto necessárias.
Não me choca que haja quem pense assim. É normal, até. Se há quem seja capaz de afirmar que o Holocausto não existiu, parece-me razoável que haja quem recorde com saudade o Estado Novo – mesmo que dele só tenha ouvido falar nos livros de história.
Prefiro assim. Não concordo com ele – com eles – mas deixa-me mais descansado o facto de ter tempo de antena e que haja quem assumidamente o oiça e siga. Prefiro assim, porque é da maneira que conseguimos saber quem são e onde andam os tipos que querem "tomar isto de assalto".
Perguntei-lhe quase tudo: Considera-se um homem racista ou xenófobo? Revê-se nas posições racistas do seu amigo Mário Machado? Tem saudades do Portugal de António de Oliveira Salazar? Se fosse Governo, expulsaria os imigrantes? E se os países que acolhem portugueses fizessem o mesmo com eles, o que é que lhes fazíamos quando voltassem em massa para o país? Confrontei-o também com a sua experiência de emigrante.
A entrevista com o José Pinto Coelho foi das mais interessantes que fiz até hoje. Estou habituado a entrevistar políticos e a desmonta-los. Com o presidente do PNR não foi preciso grande esforço. O homem é um livro aberto, que diz o que pensa, mesmo que sejam só disparates – e não são. E essa liberdade de dizer o que lhe vai na alma – a maior conquista do regime que ele afincadamente crítica – tem tanto de peculiar como de pragmático. E eu gosto de gente prática.
