9 de outubro de 2009

Sobre o Nobel de Obama

Nunca, como no momento em que recebe o Nobel da Paz, Barack Obama foi tão pouco consensual. Horas depois do anúncio oficial da atribuição do galardão, contam-se por muitas as vozes que se levantaram a dizer que Obama fez, até agora, pouco mais do que falar.

Ainda que perceba os críticos, prefiro acreditar que esta atribuição é um reconhecimento do carisma de Obama. Não sei se esta variável é suficiente para se traduzir em acções práticas, mas não há como negar que Obama foi e será, sim, um case study de popularidade e mobilização. Há quantos anos um político (friso, político) não originava tamanha mobilização? E para mim, se um homem é capaz de ser motor de união à escala global, esse homem merece que esse mérito seja reconhecido ao mesmo nível.

Obama ainda fez pouco pela paz no mundo, mas o prémio que hoje recebeu, por ventura o mais importante da Humanidade, compromete-o nesse caminho. E compromisso é o que de melhor podemos esperar de alguém em quem acreditamos.

8 de outubro de 2009

Vôo VR n. 6215

Origem: Lisboa (LIS) Hora de partida: 21:50 Data: 10.11.2009

Destino: Praia (RAI) Hora de chegada: 01:00 Data: 11.11.2009


Perceberam?

Tu és tão estúpida*

Não sei ao certo o que fazer com isto. No domingo deram-me uma frase “tu és tão estúpida” e disseram-me para escrever sobre o assunto. Não seria difícil, achei. O que não falta por aí é gente estúpida. O complicado é fazer a coisa sem dar a entender de quem é que estou a falar. Vocês percebem, não é? País estrangeiro, outra cultura, balas perdidas, um tiro nas pernas, aleijadinho para o resto da vida.

Pensei em começar assim: “Tu [que] és tão estúpida. Que me consomes, que me gastas e levas de mim o melhor, o pior e o vazio que fica depois de levares tudo o resto. Levas o vazio, até esse levas contigo. Não que precises dele, só porque te dá prazer deixar-me sem nada.” Mas depois mudei de ideias. A cena do vazio é um bocado despropositada. Ninguém leva o vazio de ninguém, porque o vazio não tem sítio para se agarrar.

Ao segundo ensaio, uma versão minimalista: “Puta uma vez, duas, três vezes”. Durante trinta segundos fiquei entusiasmado com o resultado, mas a euforia esvaiu-se na constatação de que, convenhamos, prostituição implica uma transacção comercial, absolutamente inexistente no particular e no geral. Felizmente, nunca precisei de pagar para me fazerem bicos.

“Exploras as minhas entranhas, sujas as mãos nelas”. Prossegui assim, de forma nojenta! Credo, ao que um homem se sujeita. Que fique bem claro que nunca ninguém ousou, sequer, meter um dedinho neste ânus, que permanece um mero periférico de saída. “Gozas sobre o despropósito”. O despropósito de expor o cocó ao mundo, claro está.

No fundo, fartei-me de tentar abordagens mais ou menos civilizadas à frase que me deixaram de presente. Tentei e tentei tanto, até que me ocorreram duas ideias geniais. Primeiro, “tu és tão estúpida” é como um bilhete para ver Vaya Con Dios, não se sabe ao certo o que fazer com ele. Segundo, tu não és assim tão estúpida.

Não és mesmo. Limitas-te a ser tu, estúpida, claro, mas não mais do que se esperava de alguém como tu. Tens esse jeito de ser, fazer o quê? Aceitar-te ou deixar-te, mas sempre sem esperar grande coisa daí.

Tu és tão estúpida, but not all that much.



* Esta semana, ele deu o mote e ela também escreveu. Todas as semanas é assim. Aos domingos um de nós, rotativamente, dá o mote para o texto que é publicado na quinta-feira seguinte. O próximo mote é meu. É de ler, é de ler.

5 de outubro de 2009

Talvez por uma noite, talvez

Eu volto de Angola e a Susana de Moçambique. A Paula está a caminho da casa nova e a Patrícia está a meio da sua caminhada. Em breve, por uma noite que seja, vamos voltar a estar juntos. Muitos anos depois (quantos, ao certo?), vamos voltar a ocupar as quatro cadeiras do Maya. Por uma noite apenas, vamos voltar a Peniche, ao Redondo, a Badajoz, a Barcelona, a Saragoça e a Milão e também ao autocarro que nos levou até lá. Por uma noite só, vamos beber cinco litros de sangria, assar chouriços com uma tremenda falta de jeito, destilar vinho tinto e quase pegar fogo à cozinha. Vamos todos dormir no chão e deixar as camas vazias, só porque não chegam para toda a gente.

Andaremos tantos quilómetros no nosso carro velho que os pneus não aguentarão. O Variações e o Paião vão cantar ao lado do Bonga, do Manu Chao e da Cesária Évora. Será muito pimba, mas ninguém se vai ralar com isso.

Talvez a Susana beba demais, a Patrícia amue quando estivermos a gozar com ela e a Paula diga piadas de que toda a gente se ri sem perceber. Talvez eu diga coisas obscenas ao dono do restaurante que mal fala português. Talvez haja cigarros de louro que tão bem fazem ao trânsito intestinal.

Por uma noite só, por uma noite apenas, vamos todos voltar à idade que tínhamos quando fomos tão felizes como talvez não voltemos a ser, a não ser por uma noite só.

1 de outubro de 2009

Depois da decisão errada... *

Depois da decisão errada, tomada semanas antes, Luísa vê-se agora perante um grande dilema. Porventura, o mais grave de todos os dilemas numa vida cheia deles.

Ao decidir “desaparecer”, sair sem avisar, virar as costas sem deixar rasto, teve o cuidado de preparar tudo meticulosamente. Conciliou argumentos que lhe permitissem ganhar tempo e distância. Pensou tão rigorosamente em tudo que, à data em que a sua ausência prolongada começou a levantar suspeitas, já Luísa estava suficientemente longe. Longe demais para ser encontrada. O objectivo estava conseguido: fugira de si própria e estava pronta para recomeçar sem o peso do passado.

No seu emprego, no seu bom emprego, usou o pretexto de uma reunião de trabalho fora do país. Três dias. Em casa, avisou a família da viagem ao estrangeiro. Três dias. E foi. Foi ao primeiro, passou o segundo, só não voltou ao terceiro.

Não é que Luísa tivesse uma vida má. Pelo contrário. Um bom emprego, já o tínhamos dito, um bom marido e um filho demasiado pequeno para ser uma dor de cabeça. “O problema não és tu, sou eu”. Nunca chegou a usar o chavão nos inúmeros silêncios que teve – o silêncio também pode ser uma forma de discussão – mas pensou nele repetidas vezes. O problema de Luísa – Luísa, sempre Luísa – era ela própria e a forma como não estava disposta a aceitar ter, aos 31 anos, a vida fatalmente programada. “Porra, aos trinta ainda se é uma garota”, palavras dela. E então fugiu. Fugiu e achou que estava a fazer uma grande coisa.

Mas isso foi semanas antes.

Agora Luísa está longe. Longe da vida programada, dos horários, do marido e do filho, demasiado pequeno para ser uma dor de cabeça. Está longe do caminho que fazia de segunda a sexta – despertador 6:30, filho na creche, trânsito, trabalho, trânsito, filho na creche, casa – do café onde almoçava mini-pratos, do ginásio onde ia às terças e quintas (bem, às vezes não ia às quintas), do supermercado onde fazia compras aos sábados. Está longe e continua a achar o que achava antes de estar.

Depois da decisão errada, tomada semanas antes, Luísa vê-se agora perante um grande dilema. Está longe da sua vida programada, mas continua a sentir-se presa a um programa que alguém escreveu no seu lugar.

Depois da decisão errada, Luísa percebeu que podemos fugir de tudo, menos de nós próprios. É muito provável que volte para casa.


*Este texto é em resposta ao mote lançado por esta menina. Todos os domingos, rotativamente, eu, ela ou ele vamos dar o mote para um texto que será depois publicado às quintas-feiras nos nossos próprios blogues.

30 de setembro de 2009

O discurso que eu teria escrito para Cavaco Silva:

Portugueses,

Dirijo-me hoje ao país com o objectivo de comentar as notícias vindas a público sobre a existência de escutas ou outra forma de vigilância ao Palácio de Belém.

Faço-o por considerar que tal suspeita deve ser esclarecida. Os portugueses têm o direito de saber se podem ou não confiar na segurança da residência oficial do seu Presidente da República.

Escolhi este momento e não um anterior, por considerar que esta é a altura oportuna para falar ao país. O Presidente da República escolhe os seus tempos e não se deixa influenciar por pressões de qualquer espécie.1

Respondendo ao essencial da questão, e não obstante a existência de falhas, como em qualquer rede, a Presidência da República baseia as suas comunicações num sistema seguro. Isso mesmo foi-me garantido pelos serviços do Estado a quem cabe zelar por estas questões.2

Sobre o essencial das notícias divulgadas, não lhes atribuo qualquer credibilidade. Confio no meu staff e confio, em particular, no assessor do Palácio de Belém visado pelos órgãos de comunicação social.3

Não obstante, como é do conhecimento público, o Dr. Fernando Lima foi por mim mudado de funções. Fi-lo porque, ainda que não acredite no seu envolvimento neste caso, entendo ser meu dever proteger a Presidência da República de quaisquer dúvidas.4

O país atravessa um momento político delicado, a par de uma situação económica difícil. O Presidente da República é e será sempre factor de estabilidade. Devemo-nos concentrar na tomada de posse de um novo Governo e no início de uma nova legislatura. Os portugueses exigem que os órgãos de soberania do país sejam capazes de resolver os problemas da Nação e para isso as instituições democráticas devem funcionar regularmente. Esta é a minha verdadeira preocupação. Tudo o resto não passa de ruído eleitoral que deve ser sanado.5

Termino, garantindo que, por parte do Presidente da República, este assunto encerra aqui. Estou certo que os partidos políticos terão a mesma atitude. O país precisa do esforço de todos e os portugueses precisam de saber que podem contar com o empenho da sua classe política. Quero que saibam que podem contar com o vosso Presidente da República.

Boa noite.



1. Justificação para o tempo escolhido, explicando o porquê de falar agora e não antes, como todos os comentadores e partidos políticos esperavam. Sinal de poder: O Presidente gere o seu tempo político.

2. As comunicações. O sinal de segurança aos portugueses. Reconhece que o sistema de comunicações não é perfeito - nenhum o é - mas assegura a sua confidencialidade.

3. Para sua defesa e para acabar com a polémica, o Presidente retira a credibilidade às notícias publicadas e afirma confiança no seu staff.

4. Contudo, explica ao país o porquê da sua decisão de mudar Fernando Lima de funções: Quis proteger o Palácio e poupar os portugueses a mais polémicas e suspeitas.

5. Recoloca as atenções políticas no que realmente importa. Desvaloriza o episódio e mostra postura de Estado.
Como se não nos bastassem duas eleições num ano, ainda arranjámos uma terceira. Esta estranha combinação de actos eleitorais, originada pelo acaso, bem sabemos, condenou as autárquicas a um certo segundo plano (ou terceiro, se quisermos), para o qual o Presidente da República, com os seus silêncios perturbadores e com o seu discurso ruidoso em muito contribuiu.

Adiante.

A verdadeira revolução autárquica acontecerá daqui por quatro anos, quando, fruto da actual lei de limitação de mandatos, muitos dos actuais presidentes da Câmara (e de Junta, se quisermos ser justos) abandonarão o poiso. O mandato que se iniciará depois das eleições de 11 de Outubro será, por isso, interessante de acompanhar, com as máquinas partidárias, parece-me óbvio, a lançarem, lá para 2011, os “senhores que se seguem” nos feudos em que este país está dividido.
Nesta corrida, sigo com particular interesse algumas disputas da Área Metropolitana de Lisboa:


António Costa vs Santana Lopes

O confronto que concentra todas as atenções. Porque é Lisboa, a capital. Porque é Santana (PSD) e porque é Costa (PS). O primeiro equilibrou as contas da autarquia, no seu “meio mandato”, o segundo é um fenómeno de sobrevivência política.


Fernando Seara vs Ana Gomes

Quando, há dois mandatos, Seara (PSD) ganhou a câmara a Edite Estrela o país político – o seu próprio partido – surpreendeu-se. Ana Gomes (PS) é um “peso pesado” do PS e uma não alinhada. Oito anos depois, estará Seara em forma para resistir à combativa adversária?


Maria Emília de Sousa vs Paulo Pedroso

Maria Emília de Sousa (CDU) teve um mandato difícil. As obras do metro de superfície deixarem insatisfeitos muitos munícipes. Mas a obra acabou e o ruído silenciou. Maria Emília é uma das veteranas das autarquias. Deve ganhar. A questão é saber que valor político tem Paulo Pedroso (PS), depois da novela onde esteve envolvido.


Susana Amador vs Hernâni Carvalho

Incomoda-me sempre um jornalista que concorra a cargos políticos, mas Hernâni Carvalho (PSD) está no seu direito e quanto a isso, nada a fazer. A curiosidade aqui está em saber que credibilidade o eleitorado atribui ao senhor “Crime diz ele”. Susana Amador (PS) não terá uma tarefa fácil, o seu oponente é um notável com grande aceitação popular.


Maria Amélia Antunes vs Lucília Ferro

A histórica Socialista enfrenta a sua última batalha eleitoral autárquica. É a luta pela sobrevivência. Apesar de ter maioria absoluta, a margem é agora mais curta. O PSD de Lucília Ferro tem feito uma campanha determinada, em contraponto com a aparente excessiva confiança da obra feita de Maria Amélia Antunes (PS).


No Seixal, um dos últimos redutos – “avante camarada, avante” – comunistas, Alfredo Monteiro deve vencer sem grandes alaridos. As concelhias já sabem que 2013 é o ano para jogar forte e por isso limitam-se, nestas eleições, à gestão corrente de candidatos.

Em Oeiras, o interesse está em perceber como é que o eleitorado reage à condenação, em Primeira Instância de Isaltino Morais. O que falará mais alto, afinal? A obra ou os valores?

29 de setembro de 2009

Say what?

Perdi os últimos minutos a tentar perceber o verdadeiro significado da comunicação ao país de Cavaco Silva. Fiquei sem perceber se o Presidente acha que houve escutas ou não. Quer dizer, parece que não, mas como ele não o disse explicitamente, fica a incerteza.

O discurso foi tudo menos claro. Ambíguo, como toda a história, de resto. E, sinceramente, quando andamos cheios de perguntas na cabeça, tudo aquilo de que não precisamos é de um Presidente da República que se ocupe a confundir-nos ainda mais. Além de que agradeço que o meu Chefe-de-Estado guarde para si as suas próprias emoções. A sério.

28 de setembro de 2009

Quando o inacreditável acontece em São Tomé

Daqui.

Um mote

A C., pessoa porque quem tenho grande estima (especialmente quando ela vai dois passos à minha frente e usa calças justas), reuniu dois homem, eu e outro, e combinou uma orgia. Como não sou esquisito, disse que sim, mas aí ela mudou de ideias e afinal já não há loucuras nos lençóis para ninguém, apenas um tremendo orgasmo intelectual em perspectiva.

A partir de agora será assim: Eu, ela e o outro vamos escrever, once a week, um texto sob o mesmo mote. Ou seja, todos os domingos, rotativamente, um dos três dará um mote do qual sairão, às quintas-feiras, extraordinárias obras literárias... ou inqualificáveis narrativas de terceira categoria.

Tendo em conta que, além de mim e da C. o outro participante assina um blogue que se chama "Sexo (ou) Posto" quero avisar que tudo farei para que, no fim, eu fique com o sexo e ele com o posto, que eu dispenso títulos. Enfim, contingências da vida.

Esta quinta-feira esperem o primeiro texto. O mote é: "Depois da decisão errada".