10 de novembro de 2009

9 de novembro de 2009

De quarta em diante

A partir de quarta-feira vou voltar a trabalhar em imprensa. Já experimentei todos os suportes - falta-me, de forma regular e sistemática, o on-line. No jornalismo, gosto especialmente de escrever. Encontro nos jornais a verdadeira essência da profissão Para mim, nenhum suporte é tão genuíno como o original. A palavra imprensa, a tinta no papel, a imagem (se forem boas imagens, ainda melhor) e o ritual da compra tornam-no quase transcendental.

Diz-se que os jornais vão acabar. Não quero acreditar nisso. Também se dizia que a rádio - com os CD's - e o cinema - com a VHS, imagine-se - iam acabar e, afinal, ainda aí estão. O que falta aos jornais - e às revistas, por defeito - é a capacidade de se reinventarem. Ninguém está disposto a pagar para ler (e ler é um exercício potencialmente chato) uma coisa a que acede à borla no FM do auto-rádio, no www da Web, num dos muitos canais do velho analógico e da nova TDT ou ainda no telemóvel. Perante isto, é muita presunção achar que alguém se vai dar ao trabalho e à despesa de comprar um jornal para ler mais das do mesmo das mesmas notícias reaquecidas, na melhor das hipóteses, do dia anterior.

Uma imprensa moderna terá de ser uma imprensa actuante, surpreendente, interventiva. Um jornal dos novos tempos terá de ser uma colectiva de inéditos, de histórias devidamente explicadas. Tem de acrescentar valor à informação. Este é o tempo daqueles que têm coragem de transformar artigos em reportagens e fazer desses textos pensados as verdadeiras notícias que marcam a agenda. Sobreviverão, quero acreditar, os jornais que não se limitarem a informar, mas que saibam, igualmente, assumir o seu papel formativo.

O projecto que aceitei integrar quer ser isto. Quer aprofundar as matérias, quer não só narrar histórias, mas explica-las aos leitores. Quer fazer - ambiciona fazer - bom jornalismo. Quer começar agora o caminho para lá chegar.

Não sei se serei um bom jornalista, mas gosto de gente que me dá valor. Depois de ter ajudado a fundar um canal de televisão, "refundar" um jornal parece-me um desafio muito interessante.

6 de novembro de 2009

Sou um amigo do alheio

Há uns anos, era eu estudante, marquei um encontro matinal, num Sábado, com uma colega de faculdade. Estávamos na época de exames e a ideia era tirarmos umas fotocópias de uns apontamentos. O encontro ficou marcado para as 10:30, no Colombo.

Como cheguei cedo, fui passear à Fnac. Vi livros, DVD e CD e, ao que parece, esqueci-me de um CD na mão, tapado pelos apontamentos que ia fotocopiar. Sem me aperceber do sucedido, saí. Tentei, pelo menos. Ao passar pela porta, soaram todos os alarmes da loja, fui rodeado por vários seguranças e prontamente conduzido a uma sala fechada. Não foi fácil explicar e repetir a explicação aos cinco gorilas que me ameaçavam, mas lá consegui provar a minha inocência.

O assunto mereceu umas valentes gargalhadas de amigos e família. O certo é que fiquei tão traumatizado com a situação que ainda hoje - e isto é rigorosamente verdade - continuo paranóico com as saídas das lojas que visito. Sempre, mas sempre, antes de sair de uma loja que tenha detectores, abrando o ritmo e percorro-me mentalmente, para tentar perceber se levo comigo alguma coisa que não me pertença. Da mesma forma, e apesar do exercício prévio, não deixo de suster a respiração naqueles segundos intermináveis. Continuo à espera do dia em que vou voltar a passar por ladrão. Porque vai acontecer, eu sei que vai.

5 de novembro de 2009

"... o homem ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam, as escravas receberam na cara e na boca..."

Não se assustem, é só uma citação do último livro do Saramago.

"Oh meu senhor, você está é com gonorreia!*

"... é com gonorreia".

Em zapping, só ouviu a parte final do que supõe ser uma fala de telenovela. Ou sitcom, dado o descabido. Nem sequer olhou para a imagem. Aconteceu exactamente antes de tocarem à campainha. Pegou no comando, tirou o som da televisão e foi à porta. Tem esta mania quase secular de nunca abrir a porta de casa sem antes baixar o volume da televisão. A gonorreia - a do tipo da novela, não a dele, claro - seria motivo de suficiente embaraço, mas aquilo que o chateia mesmo é imaginar que um visitante de ocasião - nunca programa visitas, logo não recebe visitantes que não os de circunstância - pode, pelo som que sai do aparelho, descobrir, de forma absolutamente inusitada, o que é que se passa naquela sala, para mais se aquilo que se passa é, acaso, um problema de gonococos.

Roda a chave uma, duas vezes e vai com a mão ao trinco. Apercebendo-se de que não faz ideia de quem seja, olha o relógio - não à procura de uma resposta, só para ver as horas - e espreita pelo "buraquinho", orifício ao qual não consegue associar outro nome. Do lado de lá, no patamar do seu segundo andar esquerdo, um indivíduo com um peculiar aspecto. São 21: 30 e à meia luz de uma lâmpada de escada, 40w, resta-se, impávido, um sujeito de aspecto cândido, segurando um livro que de tão grosso só pode ser sagrado.

"Vou abrir", convence-se.

"Boa noite".

"Boa noite. Posso-lhe falar da palavra de Deus?"

Três segundos de espera antes da resposta. Um, dois. "Sim, faça o favor de entrar". A resposta foi tão surpreendente que durante alguns instantes o próprio profeta quedou-se num sagrado silêncio, tão a propósito, dada a iminente chegada dos céus à terra.

"Entre, homem, entre". Logo reagiu o visitante, entretanto refeito do susto da afirmativa.

Encaminhado para sala, segurando a bíblia na mão direita e uma pastinha na esquerda, provavelmente carregada de Sentinelas, ajeita as calças, respira fundo, abri o santo livro na página previamente marca e sem esperar qualquer consentimento, dispara: "Então, esta cabrão tem mesmo gonorreia, não é verdade?"


*O mote desta semana, a ler aqui, aqui e aqui.

4 de novembro de 2009

Update sobre Cabo Verde

Daqui por uma semana, precisamente, estarei na cidade da Praia. Saio de Lisboa dia 10 e chego a Cabo Verde na madrugada de dia 11. É a segunda vez, em duas, que acontece assim. Também viajei de noite para Angola.

Continuo sem casa para morar. Já sei que vou passar os primeiros dias num hotel e talvez - talvez - fique o primeiro mês num apartamento "emprestado", enquanto procuro um poiso mais definitivo e o apetrecho mais importante: uma cama.

Daqui a poucos dias estarei a recomeçar de novo, "novamente". Os começos são sempre bons. Ao menos, quando nos estreamos, ainda não temos desilusões. Vou e não sei quando volto. Mas vou na mesma e esta liberdade, amigos, priceless.

Quando chegar ao arquipélago vou ter 27 anos (faço-os dia 9). Hei-de, então, experimentar trabalhar em mais um país. Contando com Portugal, mais Angola, serão três. É obra, para tão pouco tempo de vida. Cabo Verde é uma aposta pessoal minha. Os ordenados são muito inferiores aos que se praticam em Angola para os expatriados. Por isso, a oportunidade de valorização pessoal e profissional foram determinantes na minha decisão. Quero continuar a crescer como jornalista e, principalmente, enquanto Homem. Quero criar e ter liberdade criativa. Errar, reconhecer o erro e fazer melhor na vez seguinte.

Esta forma itinerante de levar a vida pode parecer uma parvoíce para a maior parte de vocês, mas saber que o mundo não se esgota no caso Freeport, no processo Casa Pia e nas goleadas do Benfica é um exercício ao qual todos se deviam obrigar. É que há tanto mundo por aí...

Este filme é...


... muito mau.

2 de novembro de 2009

Um post suburbano

Sou um rapaz da Margem Sul. Orgulhosamente, já tomei o pequeno almoço na Páscoa, almocei na Pérola da Cruz de Pau e fiz compras no Pingo Doce das Paivas. Também já acordei com o mau cheiro da baia do Seixal e fui assaltado no Miratejo. Andei de Rodoviária do Sul do Tejo e depois nos TST. Às vezes até apanhava um autocarro dos Belos. Atravessei o rio de Transtejo, primeiro num cacilheiro e depois de catamaran. Entretanto chegou o comboio e comecei a ir de Fertagus.

Nasci em Lisboa, mas o meu pai correu a registar-me na Arrentela. Fiz a primária na Torre da Marinha, o ciclo do Vale da Romeira e o secundário no Cavadas. Entretanto, fui estudar para Lisboa, não sem antes arranjar emprego na Amora. Cheguei a trabalhar num jornal chamado Margem Sul e ainda estive nas listas para uma eleição à Junta de Freguesia. Sou um suburbano e tenho muito orgulho nisso.

Por isso, é complicado perceber qual é o problema que os que moram do outro lado do rio têm em atravessar a ponte. "E se nos encontrássemos? Ah, claro, onde? Aqui na minha banda. Epá, isso é que não!".

Há uma espécie de fobia em relação à Margem Sul. Temos parques bonitos, cafés agradáveis, salas de cinema, teatros e auditórios (um deles recebe um dos maiores festivais de jazz do país, imaginem). Também temos muitos comunistas, é certo, mas estão todos vacinados.

O Barreiro pode não ser o principado do Mónaco, mas não consta que em Loures façam tortas como as de Azeitão. Da mesma maneira, não me parece que na Amadora - que terra, credo - haja uma serra como a da Arrábida. E em Oeiras, "serrá" que "carrregam" nos "rr's" como em Setúbal? Talvez enquanto "frritam" o choco.

A Margem Sul - independência já! - é isto, aquilo e o outro, mas no Verão e no Avante é vê-los em aprumado registo estival. Nem precisam de GPS para cá chegar.

Só não termino com um "Margem Norte jamais!", porque ainda me saem os planos furados - como ao outro - que isto nunca se sabe o que nos reserva o dia de amanhã. Mas fica esta, para memória futura: Caparica, Caparica, Caparica. Toma e embrulha.

António Sérgio


Habituei-me a ouvir o António Sérgio dentro do carro. Ou porque, à data sem casa, estava parado a namorar por aí, ou então, anos mais tarde, enquanto voltava tarde do trabalho. Foi dos poucos que me fez levantar o volume do rádio só para o ouvir falar ao microfone, muito mais do que para escutar as canções que escolhia.

Estive uma vez com ele, ao longe, sem contacto próximo. Ouvi-o, dessa vez, com a mesma atenção de todas as outras.

António Sérgio era um irreverente. E a mensagem que recebi no telemóvel, anunciando a sua morte, fez-me recuar até ao tempo em que "O Lobo" era a minha companhia das madrugadas.
A rádio em Portugal está hoje mais pobre. O país perde um grande comunicador e um guardião do jeito puro de falar "nas ondas do éter".

A dignidade que manteve até ao fim - mesmo depois de ser escorraçado de uma Comercial demasiado comercial - fazem dele um modelo de rectidão e profissionalismo. A cultura deste país precisa de visionários como ele. Até amanhã, camarada.

1 de novembro de 2009