23 de fevereiro de 2010

Publicidade porque...

"Juntar artistas consagrados e talentos emergentes, fazê-los tocar Chopin, Schumann, mas também compositores de outras épocas e coordenadas, para um público de todas as idades: é o conceito da segunda edição dos Concertos à Conversa, no CCB, arquitectados por Miguel Henriques e em que participam os pianistas Jorge Moyano, Iryna Brazhnik e Inês Andrade, entre muitos outros músicos e ensembles. Na Outra Margem, antevemos o que prometem ser estes cinco concertos, entre 7 de Março e 11 de Abril.
Para ouvir esta 4ª feira, às 18h05, em 90.4 fm ou em www.radioeuropa.fm, e a partir de 5ª feira em podcast".


... a primeira da vossa esquerda é a minha prima Inês.Tivesse eu o talento dela e não precisava de ser jornalista.

20 de fevereiro de 2010

Explicação aos leitores

Os dois últimos posts publicados neste blog foram alvo de más interpretações e comentários desagradáveis - e ameaçadores - por parte de alguns leitores. Se o primeiro era um texto irónico, relativo ao facto de ter sido assaltado nas ruas da cidade da Praia, por um individuo que levou apenas uma carteira com 10 escudos e a minha carta de condução, o segundo era uma reacção a um desses comentários, que me pareceu (e parece) descabido e sem qualquer fundamento.

No meu segundo texto fiz aquilo que não se deve fazer: Dar valor a um comentário que poderia, simplesmente, ter sido apagado. A autora do dito comentário não percebeu aquilo que eu tentei dizer a priori: não se tratava, Maria, de uma desvalorização do crioulo, antes uma forma humorística de encarar o assalto de que fui vítima.

Todos os cabo-verdianos devem ter orgulho na sua língua materna, mas esse orgulho não pode servir para encobrir uma realidade que é assumida, inclusive, por alguns agentes políticos: há um problema com o ensino e aprendizagem do português. Há um problema em Cabo Verde, na Guiné, em Moçambique, em São Tomé, em Timor Leste e até, imagine-se, em Portugal. Objectivamente, o Brasil é hoje o único e verdadeiro motor da lusofonia no mundo.

Se há coisa que abomino (a palavra é destacada propositadamente) é o preconceito de qualquer espécie. O fundamentalismo - e a falta de disponibilidade para discutir qualquer assunto, sem ameaças e com abertura de espírito - é também uma forma de preconceito.

O meu avô brasileiro, a minha avó e o meu pai angolanos, a minha mãe portuguesa e a minha mulher cabo-verdiana ensinaram-me que o mundo não acaba no fim da rua. Agora, para se conversar, serão sempre precisos dois.

Que me desculpem os leitores que contribuíram de forma construtiva para o debate aqui iniciado. Os textos foram retirados e o blog segue já a seguir.

Abraço a todos.

15 de fevereiro de 2010

Breve constatação

O facto de toda a polémica em torno do Face Oculta ter começado num sucateiro diz muito sobre o estado do país.

13 de fevereiro de 2010

"A lusofonia está a avançar"

Para quem se interessa pelas coisas da lusofonia, fica aqui o excerto de uma entrevista que fiz a Anacoreta Correia, secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa. A entrevista completa pode ser lida aqui.

O espaço da lusofonia resume-se a instituições com a UCCLA e tantas outras, ou é sentido pela população?

Eu julgo que a lusofonia progrediu muito nos últimos anos. Por exemplo, este mês estive no Brasil e o espaço que os noticiários dedicam a países africanos, em horário nobre, é hoje muito maior. Este interesse é inteiramente novo.
Quando começamos a ver o que representa o território dos países - e aí o Brasil é o gigante - nas áreas de territórios agrícolas mundiais, apercebemo-nos que se trata de qualquer coisa de notável.
Quando nos apercebemos da real extensão da costa dos países lusófonos - e aí Cabo Verde conta muito - numa altura em que se acredita que a resolução de muitos problemas do mundo actual pode estar no mar, vemos que temos uma brutalidade, milhares de quilómetros, de Zona Económica Exclusiva.
Finalmente, se pensarmos que, entre as quatro potências emergentes, a única que representa os valores ocidentais, a única que é uma democracia plena, é o Brasil e que o Brasil fala português, é porque temos uma palavra a dizer.
A lusofonia é hoje uma realidade muito maior do que aquilo que podíamos supor há vinte anos. Estamos a avançar.
Repare no interesse que há em Portugal pela gastronomia africana, pela cachupa ou por um caril com coco, fortemente condimentado [prato de Moçambique]. Note a implementação do futebol português nos países africanos.
É claro que gostaríamos de ver coisas mais concretas. Talvez aí, despolitizando um pouco o contexto da CPLP, seja possível a obtenção de mais resultados. Eu julgo que a hora é das pessoas se concentrarem em objectivos. Quem pretende resolver tudo, ao mesmo tempo e com toda a gente, falha.

A língua portuguesa é o principal elemento unificador dos países e das cidades lusófonas. Contudo, em Cabo Verde, há um número significativo de pessoas que não fala, ou fala mal o português, tal como em Moçambique. Em Timor, a percentagem de falantes de língua portuguesa é residual. O que é que está errado?
A língua é o principal factor de união entre os países e dentro dos países. Eu, em meados dos anos 80, estive em Moçambique, numa missão partidária. Lembro-me perfeitamente que o presidente Samora Machel dizia que o português era o que mantinha a integridade da Nação moçambicana.
Em Timor existe um problema, especialmente na geração dos 25 aos 40 anos, que foi educada pela Indonésia. Mas a população gosta muito do português.
A grande surpresa, na expansão do português, é Angola. Sobretudo, pela qualidade da língua que se fala em Angola e isso tem o seu reflexo, nomeadamente na literatura.
Eu estive na Lunda, na fronteira leste de Angola e as pessoas de lá disseram-me que o português extrapolou as fronteiras e fala-se para lá do território angolano. E dizem-me que na Namíbia dez por cento da população percebe o mínimo do português.
Veja, finalmente, o que se passa na América do Sul, onde qualquer latino-americano fala hoje, ou pelo menos ‘arranha', o ‘portunhol'.

12 de fevereiro de 2010

O problema do Pacheco Pereira é que queria ser jornalista e ninguém o deixou, não é? Aquilo só pode ser frustração.

5 de fevereiro de 2010

O mundo na ponta dos dedos

Os pequenos pontos, em relevo, organizados numa ordem só perceptível ao toque, são um nada cheio de histórias, escritas assim para quem lê o mundo com a ponta dos dedos. Estivessem as páginas do jornal em Braille e os protagonistas desta reportagem não precisariam que alguém lhes lesse o texto em voz alta. Fomos à escola de cegos.

Ainda antes da cozinha, o cheiro, entretanto espalhado pelos corredores, denuncia que a aula já teve início. Desde que a professora Alzira chegou, e já lá vão alguns meses, que é assim. Ao final do dia, terminadas as aulas, a mesa rectangular – a grande mesa rectangular – enche-se de formandos que aproveitam os cabelos brancos de quem anda há muito entre tachos e panelas, para aumentar conhecimentos. E não se pense que um arroz de cavala ‘comme il faut’ é coisa pouca. Para aqueles a quem as cores do mundo se representam em formas, odores, sons e paladares, saber como não deixar queimar o refogado pode fazer toda a diferença.

A aula, já se percebeu, é de culinária. O projecto, pioneiro no país, é a mais recente aposta da Associação dos Deficientes Visuais de Cabo Verde, uma instituição, fundada em 1993, que tem na escola de cegos a sua principal valência.

A escola chama-se Manuel Júlio e a escolha do nome terá sido tudo, menos aleatória. Manuel Júlio é o pioneiro do ensino de cegos no arquipélago. Primeiro, na sua casa, depois, em salas emprestadas e, desde 2003, no código postal 831 da Achada de São Filipe, cidade da Praia, o sociólogo, também invisual, dedica-se de corpo e alma – dize-lo, não é um exagero – ao ensino especial e à capacitação dos invisuais, tendo em vista a entrada na vida activa.

A sua história tem sido de “um grande desafio”, nas palavras do próprio. Começou “sozinho, em casa, com dois alunos”. A recordação leva-nos até 1977, ano em que regressa a Cabo Verde, depois de uma passagem por Angola e Portugal. O tempo na terra dos ‘palancas negras’ terá sido determinante no percurso que acabou por seguir. “Aprendi Braille em Angola. Com a independência, os meus professores regressaram a Portugal e insistiram muito para que eu continuasse os estudos”, recorda. Após alguma insistência, lá acedeu ao pedido e, passados poucos meses, estava em Lisboa, para só de lá sair dois anos mais tarde, de regresso à Praia.

No entretanto, aprendeu várias profissões. “Aprendi a trabalhar em tapetes, tirei o curso de marceneiro, de recepcionista e de telefonista”. A formação valeu-lhe um emprego no ministério das Obras Públicas. Mas não deixou de estudar. “Uma disciplina de cada vez, aos poucos”.

Fazendo uso dos seus próprios recursos financeiros, continuou a ensinar, em casa, até 1988, quando, “por insistência dos colegas e até do ministro” de então, aceita voltar à capital portuguesa, onde se formou em sociologia.

Numa vida, já se percebeu, feita de partidas e chegadas regressa às ilhas em 1993. À data, uma decisão é tomada: “Achei que não valeria a pena sofrer sozinho por uma coisa que não me dizia respeito só a mim”. O governo mostrou-se disponível para ajudar e, da sala de casa à sala de aula emprestada foi um curto passo. A boa-vontade de muitos, acumulada ao longo de uma década, resultou no edifício onde, agora, meia centena de alunos caminham com a confiança de quem, não vendo senão escuridão, conhece bem o chão que pisa.

Os primeiros passos

Uma dessas alunas é Dercileila. Os óculos escuros, massa vermelha, tapam-lhe mais do que os olhos. Servem para esconder a timidez, denunciada pelos gestos envergonhados e riso nervoso. Há quatro anos, vinda de São Nicolau, chegou para estudar. Aprende Braille – “é um bocado difícil” – e com ele persegue o sonho de “ter uma vida melhor”. Quer “um emprego e uma família”. O desejo de uma vida comum.

A aprendizagem do Braille é o primeiro passo na formação académica de um deficiente visual. O domínio do sistema de leitura e escrita baseado no tacto é fundamental para o acesso à informação. Por isso se compreende a aposta que a escola da ADVIC faz no seu ensino.

A falta de livros, adaptados às necessidades dos alunos cegos, é um problema. O país não produz obras em Braille e o acervo que existe na pequena biblioteca da associação vem de fora, com todos os custos que isso representa. Por outro lado, um caderno, com folhas próprias para o tipo de escrita, ronda os 2500 escudos.

Diz-se que um cego experiente pode ler duzentas palavras por minuto. “O contacto com a leitura e a escrita contribui para o desenvolvimento intelectual de qualquer ser humano”. Quem o diz é Lurdes Borges. Antes de estar reformada, era professora na escola. A aposentação não a tirou da sala de aula, onde continua a passar as tardes, agora como voluntária.

Reconhecendo a importância de dominar o Braille, Lurdes defende também a formação profissional. “Uma formação profissional é fundamental. Só a formação académica não é suficiente”, considera, numa opinião que é partilhada por Manuel Júlio que, por isso, tem apostado em cursos de informática, música e artesanato.

Um emprego

O maior sonho de Jenice é ser telefonista. Também quer “uma família”, mas a ambição de um emprego é tudo para a jovem de 22 anos, há nove na escola de cegos.

O seu percurso tem sido feito de sobressaltos. Apesar de, nem sempre, os estudos lhe correrem de feição – “abandonei a escola muitas vezes” – reconhece a importância das aulas. “Se nós não temos estas escolas, ficamos com muitos problemas”, acredita. “É esta escola que nos dá um emprego”.

Um trabalho para quem termina os estudos é um desafio. De entre todos os alunos que já passaram pela escola, Manuel Júlio sabe que existem 15 a trabalhar. “Estamos a bater em todas as portas, a tentar arranjar novas ofertas”, garante.

“O objectivo é que cada deficiente visual seja auto-sustentável e tenha auto-domínio, para, assim, fazer a sua vida própria e ser independente”.

Para isso, a escola garante um acompanhamento. Do total de alunos, ligados à instituição, muitos frequentam, entretanto, o ensino regular. Outros chegaram à universidade. “Tentamos sempre estar próximos dos alunos, acompanhar a evolução e ver onde estão as falhas, para que as coisas corram da melhor forma possível”, afirma Marciano Monteiro, director do estabelecimento de ensino.

A escola procura “criar o gosto para que todos possam aproveitar aquilo que a associação tem para lhes oferecer”. Contudo, “a tarefa não é fácil”, suspira.

Os cinquenta invisuais apoiados actualmente pela ADVIC representam apenas uma pequena gota da realidade, bem mais expressiva. Estima-se que existam 2500 cegos em Cabo Verde e não é preciso grande aritmética para perceber que somente dois a três por cento da população deficiente visual tem acesso ao ensino especializado. Quando assim é, a entrada no mercado laboral fica, naturalmente, mais difícil.

O estigma e as barreiras

Antes de se mudarem para o quarto onde ainda moram estavam a duas horas da estrada mais próxima, num caminho só acessível a pé. Demasiado longe e demasiado imprevisível. Um dia, Manuel Júlio teve conhecimento da história da família. Subiu o trilho até Longadeira – ainda longe e distante – e encontrou uma casa com dez pessoas: mãe e nove filhos, quatro invisuais. Trouxe-os consigo.

Sem recursos, com uma deficiência, os quatro irmãos – dois rapazes, duas raparigas – estavam condenados a uma vida de dependência.

Durante anos, ainda hoje é assim, a associação garantiu-lhes educação, alojamento e alimentação. O esforço deu frutos. O irmão mais velho concluiu o liceu e trabalha como telefonista, numa câmara municipal. O segundo estuda ciências sociais, na Universidade de Cabo Verde, e as duas mais novas prosseguem os estudos, no ensino básico.

A história destes quatro irmãos avizinha-se de sucesso. Resgatados ao esquecimento, são exemplos de como há quem vença o estigma.

Maria Furtado da Veiga é professora. Também invisual, como os alunos que ensina, sabe o que é sentir descriminação, resultado da sua condição. Uma vez mais, o emprego: “às vezes há empresas que não recebem deficientes visuais, porque dizem que não têm competência para trabalhar”.

O preconceito combate-se, defende, com “todo um serviço de informação, para consciencializar a sociedade civil”, porque “há empregos aos quais as pessoas portadoras de deficiência visual são adaptáveis”.

Na mesma linha, Lurdes Borges acha que “para quem é cego é muito importante conseguir ter uma profissão”. A antiga professora repete a ideia de que “as pessoas ainda não conseguem ver um deficiente visual como alguém que tem uma vida normal”.

Mas não é só do fim do estigma social que depende a ‘normalidade’ da vida dos deficientes visuais cabo-verdianos. A estrutura arquitectónica das cidades não ajuda à sua mobilidade.

“Quando o deficiente visual quer ir à escola ou ao trabalho, tem dificuldades, porque não temos passeios em condições, nem ruas em condições”, exemplifica Manuel Júlio. Os problemas começam, desde logo, na capital. “A cidade da Praia tem barreiras que dificultam a mobilidade de uma pessoa com deficiência visual”, sentencia o director Marciano Monteiro.

De volta à cozinha

Por esta altura, o arroz de cavala está pronto. Para a refeição ficar completa faltam apenas “umas queijadinhas deliciosas”.

Quando convidaram Maria Alzira para o curso de culinária, ela nem queria acreditar. “Não me achei capaz”. A descrença durou pouco. “No primeiro dia que cá cheguei fiquei muito emocionada”.

Decorou o nome de todos os alunos – primeiro 15, agora 20 – e faz questão de os cumprimentar, um por um, “com um beijo ou um abraço”. Começa por ler a receita e passar os ingredientes, “para eles sentirem e tocarem”. Dá as dosagens em colheres ou chávenas e, à vez, todos se lançam ao trabalho.

A Maria Alzira, o cabelo grisalho confere-lhe a autoridade de quem sabe do que fala: “a vida é uma caminhada e mesmo que o caminho seja íngreme, devemos continuar a ter força”.

publicado no Expresso das Ilhas (Cabo Verde) n.º 427, de 3 de Fevereiro de 2009
fotografia de Ulisses Moreira

2 de fevereiro de 2010

Um homem de croissants

Sempre gostei de croissants e, desde que me lembro, sempre os comi da mesma maneira: com fiambre e manteiga. Não podem ser folhados, têm de ser fofos e frescos. Pego numa metade e começo pela cobertura, estaladiça; dou uma dentada na ponta, na parte sem fiambre ou manteiga; vou mordendo o resto, deixando o pedaço mais alto para o fim.

Ao certo, não sei de onde vem esta paixão por croissants, mas tenho uma ideia.

Quando era mais novo, durante as férias, costumava passar as tardes na escola onde a minha mãe, ainda hoje, dá aulas. Fazia-o pela sala de computadores. Estava horas a jogar “Prince of Persia”. Ao lanche, a minha mãe, ocupada em reuniões, matriculas e essas coisas que se fazem nas escolas quando as salas estão vazias de alunos, levava-me ao bar dos professores (e eu sentia-me tão crescido), onde a funcionária guardava, religiosamente, um croissant… com fiambre e manteiga. Muito mais do que pães-de-leite, sou um homem de croissants e a culpa é da mulher que teve o descaramento de me trazer ao mundo, sabendo como é que isto é.

A minha mãe tem culpa de muita coisa. Tem culpa que eu me tenha tornado um bom aluno a inglês, no dia em que me matriculou na escola de línguas. Tem culpa que eu já tenha sido magro, quando me obrigou a fazer desporto. A minha mãe é a grande culpada de eu gostar de ler e escrever porque, sem nunca me obrigar a faze-lo, comprou-me uma estante e encheu-a de livros. A minha mãe é responsável por eu estar aqui, sentado à frente deste computador, em Cabo Verde, a muitas horas de Pinhal de Frades, do Seixal, da Escola Secundária, dela (deles) e do meu quarto com paredes verdes.

Sou o que sou, porque a minha mãe quis eu fosse o que quisesse ser. E ainda bem.

Parabéns, mãe.

Marinho Pinto a Presidente


Ontem à tarde, entre duas Super Bock (as grandes decisões são sempre tomadas com álcool no sangue), um grupo de exilados - eu e mais dois portugueses - decidiram tomar nas mãos o futuro da República. Insatisfeitos com os candidatos que se perspectivam para as presidenciais de 2011, eis o desafio: Quem escolher para liderar os destinos da pátria lusitana?

Ocorreu-nos Zé Pedro, dos Xutos, ou Joana Amaral Dias, do Bloco de Esquerda, do Partido Socialista ou do Manuel Alegre, não chegámos a perceber. Depois de excluirmos o Zé Pedro, por falta de lucidez e a Joana Amaral Dias, pela forma como pronuncia os 's', ficámos num dilema.

De repente, alguém sugere: Então e o Marinho Pinto? Então e o Marinho Pinto! E pronto, foi desta forma que, entre cervejas, três portugueses, perdidos em Cabo Verde, a alguns quilómetros do Tarrafal (notem a carga simbólica) decidiram o [acertado] caminho de toda uma Nação.

Porque não queremos que a proximidade com o 31 de Janeiro faça deste movimento, vitorioso e refundador, um acto falhado - Marinho a Presidente! - criámos um grupo no Facebook, ao qual todos o patriotas devem, agora, aderir.

A luta já começou.

29 de janeiro de 2010

Cidade Velha: O lugar do padre Campos

Quando, a 4 de Outubro de 1954, desembarcou na cidade da Praia, no navio que o trouxe da então metrópole, talvez não imaginasse que, mais de cinco décadas passadas, continuaria no arquipélago do qual, agora, também faz parte. Apesar de toda a dedicação, acha que podia ter feito muito mais. Se pudesse recomeçar, esta seria, novamente, a sua paragem. O padre Campos tem saudades de Portugal, “mas a saudade não mata ninguém”.

Como é que reagiu na altura em que soube que vinha para Cabo Verde?

Reagi bem. Pensei: Cabo Verde é uma terra, há lá gente. Se há lá gente, tenho com quem falar. Nós somos preparados para isto e eu sempre quis vir para as missões. Entrei no seminário da Congregação do Espírito Santo e, desde esse momento, disse que era essa a minha intenção. Olhe, cá estou.

Porquê as missões?

Isto é uma questão de família. Eu tinha uma irmã, que morreu há dois anos, que era zeladora das missões. Eu ia lendo as revistas sobre o assunto e entusiasmei-me. Foi aí que decidi entrar para o seminário.
E digo-lhe, Cabo Verde é apaixonante. Quanto mais pobres são as pessoas, mais nos apaixonamos por elas.

Como é que, na altura, a sua família reagiu à notícia de que viria para África?

Eu já não tinha nem mãe, nem pai. O resto da família reagiu de forma natural. Eles já sabiam que eu vinha para as missões. Portanto, não foi uma coisa anormal. Aliás, enquanto os meus pais eram vivos, eles diziam sempre: “segue a tua vocação, porque nós não duramos sempre”. Era um bom conselho que me davam.

Chegou a Cabo Verde em 1954. Que imagem guarda da sua chegada ao país?

O meu primeiro dia foi na Praia. Cheguei ao meio-dia, do dia 4 de Outubro de 1954. Os barcos ficavam ao largo e depois havia umas lanchas que nos iam buscar. Lembro-me que só havia uma lancha a motor e o resto era tudo a remo.
Fomos almoçar à nossa casa e foi aí que o nosso superior nos disse que havia um carro da colónia penal que ia, no dia seguinte, para o Tarrafal. Foi um dia de viagem.
Quando cheguei disse para mim: eu venho para aqui e vou-me adaptar.
Sabe que para mudar assim de país e para nos adaptarmos é preciso ter uma vida de desapego e isso nós aprendemos na nossa vida de estudantes.

Como é que aprendeu a falar crioulo?

Quando cheguei ao Tarrafal, uma das primeiras coisas que o meu superior me disse foi: tu vais aprender o crioulo.
Bem, não havia um dicionário, não havia uma gramática e eu pedi-lhe para me deixar passar os fins-de-semana nas aldeias ali à volta, para me ir habituando à língua. Ele deixou e eu lá comecei a arranhar o crioulo. Claro que, de início, as pessoas riam-se de mim e eu sempre lhes dizia: podem rir, que eu quero é aprender. E olha, resultou.

Apaixonou-se por Cabo Verde assim que chegou?

Claro. Uma paixão diferente das habituais. Apaixonei-me por todos. Ainda hoje é assim.

Há quanto tempo não vai a Portugal?

Não vou a Portugal desde 1988. Fui nesse ano para fazer uma operação à próstata e depois disso nunca mais voltei.

Não tem saudades?

Sabe que as saudades são essencialmente dirigidas para os entes mais próximos, o pai e a mãe. Ora, eu perdi os meus há muito tempo. Hoje, ir a Portugal, já não me diz nada. A família já quase não existe, as pessoas que conhecia, já não conheço. Em missão, nós tomamos uma nova família.
A verdade é esta: na medida em que nos pomos na pele deste povo, ficamos a viver com eles, como eles. Tenho saudades sim, mas a saudade não mata ninguém.
O fundador da nossa ordem, um judeu convertido, dizia para nos esquecermos da nossa pátria e para nos fazermos africanos.

Fez-se africano?

Claro que sim. Cada pessoa que vem ter comigo é uma pessoa que precisa de mim e eu deixo tudo para a servir. Os grandes precisam de mim, os pequenos precisam de mim. Eu não olho se são grandes ou pequenos. Trato a todos com o mesmo respeito e digo-lhes, muitas vezes: eu dou-vos conselhos e vocês também mos dão a mim.


"Examino o meu percurso e digo que podia ter feito muito mais e não fiz."

Nunca sentiu solidão?

O meu próprio temperamento ajuda-me. Eu nunca fui muito sociável. Eu estou só, mas não estou triste por estar só. Estou com Deus.
Tenho também aqui em casa uma empregada que está comigo há mais de trinta anos. Casou-se, tem três filhos e moram comigo. Nós jantamos, conversamos e rezamos todos juntos.

De alguma forma, viver junto desta comunidade tem sido um desafio?

Podia ser um desafio para alguém que não tem nenhum treino. Mas eu fui treinado para isto. Fui treinado para viver em comunidade e para aceitar as pessoas como elas são e não como eu queria que elas fossem. Digo muitas vezes para mim: Aceita-o, ouve-o, ele tem os seus problemas.
O padre tem de ter tempo para ouvir as pessoas. Não imagina quantos dias eu passei na conservatória a tirar certidões para esta gente. Mas é assim. Eu tenho de ajudar estas pessoas, porque eles precisam de ajuda. Faço aquilo que sei.
Por exemplo, na catequese, costumo dizer: aquilo que não aprendi, não te obrigo a saber, mas aquilo que eu sei, que aprendi depois de velho, com tanto trabalho, tens obrigação de aprender também. É assim.
No fundo, temos de nos equiparar a eles. Viver com eles, conhecer os defeitos deles, porque nós também temos os nossos defeitos. Ouvi-los e julga-los só depois disso.
Estou contente, estou no meu lugar.

Sente que cumpriu a sua missão?

Não. Examino o meu percurso e digo que podia ter feito muito mais e não fiz. Quer dizer, eu faço o que posso. Não me sinto orgulhoso pelo que fiz. Peço sempre a Deus para me ajudar a continuar a fazer mais e mais.

A porta da sua casa está sempre aberta?

Bem, sempre aberta, é preciso entendermo-nos. Hoje há muito banditismo. Agora, está sempre aberta para receber as pessoas. Ainda hoje fui a Pedra Badejo, voltei, estou agora consigo e vou receber mais gente ainda antes do jantar.
Veja que, em Cabo Verde, devido a esta abertura que deram, criou-se uma sociedade que deixa muito a desejar. A criminalidade juvenil é novidade, não existia. Então é preciso termos prudência e acautelarmo-nos.
Acontece muitas vezes baterem à porta a pedir uma esmola, porque têm fome. E nós respondemos: queres um pão? “Ah, não, prefiro dinheiro”. Ora, para que é que aquela pessoa quer o dinheiro? Não é para comida. Há-de ser para a droga, para o álcool. Mas, ainda assim, é preciso ouvir essas pessoas e entende-las.

Emociona-se?

Nós temos de nos emocionar, mas temos também de disciplinar as nossas emoções.
Dou-lhe um exemplo. Eu gosto de ver futebol e estava a ver um jogo lá de Portugal. Houve uma confusão no campo e, no final do jogo, os jornalistas viraram-se para o árbitro e perguntaram-lhe o que é que se tinha passado. Ele respondeu-lhes: “um copo com água a ferver, não serve para beber. Deixem arrefecer a água. Hoje não falo, que estou emocionado. Vamos dormir, vamos descansar e amanhã logo falamos”.
Bem, nunca me esqueci desta história de um árbitro de futebol. Eu também procuro dominar as minhas emoções. Não quer dizer que não me emocione. Emociono-me muitas vezes, simplesmente, engulo em seco.
A questão das emoções depende, em primeiro lugar, do modo de ser do indivíduo, desde pequeno. Depois, depende também do ambiente em que ele vive. Estas emoções, por vezes, são compartilhadas com outros. Nós nunca somos juízes em causa própria.

Estes anos todos serviram-lhe para reconfirmar a sua vocação?

Com certeza. Sem dúvida nenhuma. Não quero brilhar. Faço um trabalho pela calada, procurando servir a todos, mesmo que às vezes não consiga. Deus é que sabe.
Se eu tivesse a começar, começaria aqui mesmo.

Se para o jantar lhe dessem a escolher entre cachupa ou cozido à portuguesa, qual seria a sua escolha?

Às vezes não escolhia nada. Muitas vezes há o desejo da cachupa, outras do cozido à portuguesa. Hoje a cachupa é um prato caro, mais caro do que um cozido.
O sacerdote tem de se alimentar bem, para poder trabalhar. Por outro lado, o padre não quer enriquecer. A vida é difícil, também para nós. A comida que vem à mesa é o que eu como. E às vezes não vem nada.

publicada no Expresso das Ilhas (Cabo Verde) n.º 427, de 27 de Janeiro de 2009
fotografia de Quim Macedo

18 de janeiro de 2010

Um isolamento que se “sente no corpo”

A estrada acaba pouco depois de Ribeira Prata. Daí por diante, o esburacado caminho de terra batida não convida à viagem. Quem se aventura nos quilómetros seguintes chega a Figueira Muita, terra de ‘mulheres coragem', para quem, os ovos, as galinhas que os põem e os frangos hão-de ser a salvação.

Os mais velhos contam que, em tempos passados, Figueira Muita fazia jus ao seu nome. Hoje, na povoação, lugar perdido por entre vales e montanhas, a meia hora do Tarrafal, o que falta em árvores de fruto, sobra em esperança de dias melhores.

O olhar dos pouco mais de 190 habitantes de Figueira Muita está virado para [o que há-de ser] uma estrada. O asfalto deve chegar - chegará um dia - e com ele uma ligação mais rápida ao futuro. Só assim fará sentido o projecto que apresentaram a concurso e que mereceu o apoio da Embaixada dos Estados Unidos. As mulheres - e os homens, em minoria - da terra das figueiras querem pôr mãos à obra e fazer da criação de galinhas e frangos um projecto rentável, criador de emprego e dinamizador da economia local.

Criadas as condições, estando o aviário a produzir, "vamos dar emprego a oito ou dez mulheres e serão elas a fazer a criação e a distribuição pelas lojas e mercados". Quem o diz é a presidente da Associação de Amigos.

Maria Júlia nasceu e cresceu na terra que "muito ama". Refere-se a si na terceira pessoa: "A Maria Júlia fica triste sempre que uma família deixa Figueira Muita". Para combater a desertificação, a líder associativa sabe que é preciso "criar condições para que as pessoas fiquem cá". O projecto do aviário e a estrada são, por isso, "duas coisas muito urgentes". É que "este isolamento sente-se no corpo".

Figueira Muita de coisa pouca

Não é que não haja homens em Figueira Muita. Eles existem, sim, mas naquelas terras serranas, a luta faz-se, quase sempre, no feminino. Com Portugal e França no destino, "os homens saíram para trabalhar fora do país, enquanto nós ficámos". Vai daí, "começa a crescer o número de mulheres". Ainda hoje é assim. Maria Júlia conta que "a maior parte dos chefes de família são mulheres. Mulheres de muita coragem".

Nada de extraordinário, para quem faz da bravura sinónimo de sobrevivência. "As mulheres de Figueira Muita têm de ser corajosas. Quando temos um filho, se lhe queremos dar uma alimentação adequada, se queremos que ele ande na escola e se, para isso, não temos ajuda de ninguém temos de ser fortes, claro que temos de ser fortes", sentencia.

Quem chega, não demora a perceber que todas as vidas se conjugam com pobreza. Feitas as contas, dos que restam - os que não partiram - serão "apenas cinco ou seis" os que estão empregados. O resto dos 196 habitantes vive "do que a terra lhes dá e da ajuda da associação". É uma vida sem planos, sujeita ao livre arbítrio da meteorologia. "Em 2009 choveu bastante e isso ajudou à agricultura", afirma Maria Júlia.

A chuva ajudou também a encher os tanques nos quais a população armazena água. Todas as casas têm a sua própria cisterna. Simultaneamente, um grande reservatório garante o abastecimento quando os depósitos individuais secam. O esforço não chega e "dentro de algum tempo" Figueira Muita ficará sem pinga de água. Aí, um carro dos bombeiros percorrerá o íngreme caminho desde o Tarrafal. Fará o percurso duas vezes por semana e levará água às famílias que dependerão desta ajuda para suprir as mais básicas necessidades.

Uma ‘estrada de sonhos'

Elas - voltamos às mulheres - já fizeram do sonho realidade quando conseguiram uma sala para que as crianças da terra possam frequentar a escola até ao sexto ano. A partir daí, só se estuda em Assomada ou no Tarrafal. O problema é que, sem estrada, só lá chega quem tem onde ficar. Pelo relato percebe-se que são poucos os que prosseguem os estudos.

O que se passa é que, sem estrada - um caminho cheio de buracos nunca será uma estrada - só há transporte duas vezes por semana. Demasiado pouco para os que sonham ir além dos porcos, das galinhas e das cabras.

"Eu amo muito esta terra, mas quero ver progresso e desenvolvimento", repete, várias vezes, Maria Júlia.

A chave para o próximo nível está, então, na estrada. As pedras já lá estão, o asfalto é que tarda. Mesmo quando a obra acontecer, talvez nem tudo fique resolvido. O projecto inicial previa a ligação, alcatroada, entre Fundura e Ribeira Prata, mas "parece que agora já não querem assim", revela, preocupada, a presidente da associação local.

De acordo com a líder comunitária, "só querem construir a estrada até ao fim do empedrado". Se assim for, "os nossos problemas vão-se manter".

Não se pense que é coisa menor. Com a obra podem vir "mais transportes", "mais comércio" e até "mais gente".

A ambição de uma ligação à modernidade sente-se em cada frase. "Talvez com a estrada até os emigrantes pensem em voltar, porque já vão poder desenvolver os seus próprios projectos". Entretanto, Maria Júlia sonha já com a próxima empreitada que vai liderar. "Queremos aproveitar a água das chuvas que vai no asfalto". Para isso, a população prepara-se para ‘arregaçar as mangas' e construir um novo reservatório para armazenamento das águas pluviais. "A vida não pára".

Nasceu para liderar

Maria Júlia é uma líder nata. Apesar de fazer questão de afirmar que a criação de uma associação (ver caixa) foi um projecto colectivo, não são precisos muitos minutos de conversa para perceber a garra desta mulher de 42 anos.

Passa os dias em Figueira Muita e quando está fora é a tratar dos assuntos da terra, "porque a presidente da associação representa toda a comunidade, mesmo os que não são sócios da Associação de Amigos", assegura.

A sua casa é uma das primeiras da povoação. À chegada, recebe-nos ela e a sua filha mais nova. "A minha filha precisa de estudar e, para estudar, tem de sair e ficar longe de mim. Os filhos precisam das mães", desabafa.

Espera que 2010 seja melhor que 2009. "Espero e tem de ser melhor", determina. "A Maria Júlia tem muita coragem, mas não deixa de ser mulher".

publicado no Expresso das Ilhas (Cabo Verde) n.º 424, de 6 de Janeiro de 2009
fotografia de Quim Macedo