18 de março de 2010

Até já

Talvez seja o meu destino: andar de casa às costas, sem ganhar raízes em nenhum sítio, a deixar sementes espalhadas por uma série deles (e não falo de filhos).

Se calhar, o melhor é começar a deixar as malas à mão, com um kit de sobrevivência lá dentro. Não há nada como estar sempre pronto a partir.

Cheguei à Praia, aluguei casa, comprei coisas, fui assaltado, bebi muita cerveja e... pronto, é isto.

Agora, arrumo tudo, meto num barco, apanho o avião e aterro numa nova paragem. Pelo menos, desta vez, não vou precisar de pedir novo número de contribuinte.

A partir de dia 1, o Mindelo será a minha cidade. Tenho um quarto a mais. Aceitam-se reservas.

16 de março de 2010

Uma análise ou um murro nas trombas

Depois de um dia cansativo, chegado a casa, para lá das dez da noite, sentei-me no sofá a comer noodles e a ver o Pontos de Vista, na RTPN.

A meio do debate, enquanto os representantes dos partidos dissecavam a Lei da Rolha - não sei qual é o espanto, ou não existisse, desde há muito, em todos os partidos parlamentares, aquela coisa chamada de disciplina partidária - diz-me a mulher com quem partilho os meus dias, até então sentada e enfastiada, a um metro de distância: "no teu país passam a vida a debater tudo e mais alguma coisa, arre, que dá asco".

Bem, talvez não tenha sido exactamente assim, mas no essencial foi isto. Precisei apenas de 20 segundos para engolir o orgulho patriótico e lhe dar razão. De facto, no meu país, toda a gente debate sobre todas as coisas. Debate-se muito. Só.

Não faço ideia - e não me vou dar ao trabalho de contar - quantos programas de análise política, desportiva, económica e social é que existem nas televisões portuguesas. São muitos, de certeza. Fazer informação de baixo custo tem este preço. A dada altura, todos os canais generalistas acharam que era um imperativo moral ter um canal de informação. À falta de orçamento, usam do método fácil: mesas redondas, entrevistas, gente em estúdio a falar durante uma hora, quase sempre sobre os mesmo temas - Portugal nem sequer é um país onde aconteçam coisas muito interessantes - só que em horários e sob nomes diferentes.

Enfim, no país onde até o Pacheco Pereira tem um programa só dele, tudo é possível, claro. Mas soubessemos nós canalizar tanta capacidade de análise para acções concretas e teríamos um país bem melhor. Ou isso ou murros, que cenas de pancadaria também ficam bem em qualquer democracia.

12 de março de 2010

Estive a (re)ver fotografias de Luanda. Aquela cidade é mesmo um esgoto. Vivia no meio da merda... e era tão bom.

5 de março de 2010

Integração ao som do berimbau

O som do berimbau ouve-se ao longe. Ultrapassado o portão da Escola Técnica, não é preciso andar muito, para lá do portão verde da Escola Técnica, para que o batuque ecoe pelos corredores quase vazios. Por baixo de um telheiro, onde o calor do dia ainda se sente, um grupo de crianças repete, ao compasso da música, os passos da dança que o professor ensina. É uma aula de capoeira. Gamal é o professor.

De cabelo trançado, calças largas e t-shirt com as letras da associação cultural de que é o principal mentor, Gamal passa aos mais novos os ensinamentos que trouxe do Brasil, já lá vão 13 anos. Recorda-se do tempo em que atravessou o Atlântico e descobriu mais sobre aquela que é hoje a sua grande paixão. “Fui para o Brasil estudar Educação Física e mesmo antes de começarem as aulas na universidade, inscrevi-me na capoeira. Nas primeiras férias trouxe uns vídeos e aquilo que, entretanto, aprendera”. Estavam deitadas à terra as primeiras sementes.

Em 2000, concluídos os escudos, Gamal regressou definitivamente ao arquipélago. Professor, começou a dar aulas. Às modalidades tradicionais – futebol, basquetebol, atletismo – juntou uma outra, a capoeira. O resultado foi surpreendente. “Como todos estavam no mesmo nível, gerou-se uma fenómeno interessante, em que alunos que nunca se destacaram, revelaram-se óptimas surpresas”.

O segredo do sucesso da dança, que também é luta, sem contacto, pode estar precisamente no inesperado que se gera. “A capoeira, é uma modalidade que consegue envolver os aspectos da expressão e consciência corporal, da formação do esquema motor e da disciplina mental”, resume o ‘mestre’.

O projecto actual promove a integração das crianças e jovens que nele participam. “É a ocupação saudável dos tempos livres”, enquanto alternativa à violência e criminalidade de que tanto se fala.

Ao todo, são cerca de 400 alunos, em vários bairros da cidade da Praia e noutros pontos da ilha de Santiago. Os números do Centro Cultural Humaitá impressionam: além da modalidade mãe, 50 jovens frequentam uma orquestra de percussão e 300 estão envolvidos nas aulas de iniciação à dança. Já são muitas centenas, mas, para um público numa idade em que a afirmação pessoal é o mais importante, todas as alternativas são poucas. “Faltam ginásios públicos, placas desportivas, pistas de skate e de patins. É preciso apoiar as associações juvenis e eclesiásticas”, considera Gamal. “Com apoio institucional pode ser feito muito mais”.

Falta de formação académica, desemprego, inexistência de um projecto de vida. O diagnóstico há muito que está feito. Às novas gerações cabo-verdianas faltam, muitas vezes, perspectivas de futuro. Nada que intimide um dos pioneiros da capoeira no pais crioulo: “Cabo verde é pequeno e em 10, 20 anos pode-se resolver o problema da juventude. Há que ter vontade e disponibilizar meios”, acredita. Se depender do professor, a chave é esta: “ocupar o tempo livre com algo de positivo, onde as pessoas canalizem as suas energias”.

Exemplos de sucesso

Foi isso que fez Juca. Com 24 anos, tem 12 de entrega à modalidade. Via os “muleques” na televisão. Agora, alem de continuar a dançar, é também monitor. “Os meus pais não tinham muitas possibilidades, por isso não pude estudar muito. Queria ter alguma coisa com que ocupar os meus tempos livres. A capoeira foi a minha oportunidade”, reconhece.

Oportunidade é também a palavra que Ady usa para justificar a entrega à luta sem toque. “Coloca os jovens a fazer outra coisa que não a consumir drogas ou a beber álcool”. São sete anos de experiência, em menos de 25 vividos.

O entusiasmo não tem fronteiras de género. Liliane e Maily também fazem parte do movimento. “Desenvolve o eu da pessoa”, defende a primeira. “É uma libertação”, acrescenta a segunda. Têm 20 anos, e, se Liliane acredita que “quando os jovens entram na actividade, já só pensam nisso”, Maily prefere alertar o governo para que “se preocupe com o povo em vez de gastar o dinheiro noutras coisas”.

Uma luta de paz

Não há contacto na capoeira, o que “impõe respeito”, julga Gamal. “Tens de te preocupar com o colega com quem estás a lutar. Temos de ter auto-controlo suficiente. É assim na vida”. A rotatividade de funções – “ora cantas, ora tocas, ora lutas” – ensina que “há uma hora em que temos de servir o outro, outra em que temos de ser servidos”.

“Há momentos em que tu tens de ceder, em que tu tens de fugir. Na vida real precisamos de aprender a ceder. Temos de saber quais as vontades e os deveres de cada um e construir um equilíbrio a partir daí”.


publicado no Expresso das Ilhas (Cabo Verde) n.º 431, de 3 de Março de 2010
fotografia de André Amaral

23 de fevereiro de 2010

A intrigante Sofia

Interessam-me as pequenas histórias. Conheci a Sofia em Luanda. Angolana, passou a maior parte dos 20 e poucos anos que tem de vida em Lisboa. Estudou análises clínicas e, concluída a licenciatura, tirou um mestrado em microbiologia. Quando me foi apresentada estava a meio de um casting para apresentadora de um programa de televisão.

Pelos vistos, não serviu para o posto e acabou como repórter no magazine que, na altura, eu coordenava. De repente, além de analista formada e especializada, virou jornalista do jet7.

Apesar de ter um pai, digamos, endinheirado, a Sofia vivia num anexo, com tecto de chapa, onde divida o espaço com os parcos móveis que conseguiu comprar (um colchão, um fogão, um frigorífico e uma televisão). Para tomar banho, enchia uma mochila com toalha e roupa, saia de casa, andava dez metros e usava o exíguo poliban a que tinha acesso.

Contou-me que gostava de dançar - e conferi que dançava bem. Aliás, foi parar a Angola à conta de um convite para coreografar um bando de insípidos actores, numa telenovela de produção nacional. "Doce Pitanga", uma espécie de "Morangos com Açúcar", só que ainda pior.

O que a Sofia nunca me chegou a contar foi o verdadeiro motivo que a levou a deixar tudo para trás - "uma boa vida", assumia - em troco de nada. Uma casa com baratas, um emprego mal pago e uma solidão quase profana.

Não ficámos amigos, não mantemos contacto e, de certa forma, lamento que assim seja. A Sofia ficou, para mim, uma intriga. Admiro-a, porém. Acho que uma pessoa corajosa deve ser como ela é.

Publicidade porque...

"Juntar artistas consagrados e talentos emergentes, fazê-los tocar Chopin, Schumann, mas também compositores de outras épocas e coordenadas, para um público de todas as idades: é o conceito da segunda edição dos Concertos à Conversa, no CCB, arquitectados por Miguel Henriques e em que participam os pianistas Jorge Moyano, Iryna Brazhnik e Inês Andrade, entre muitos outros músicos e ensembles. Na Outra Margem, antevemos o que prometem ser estes cinco concertos, entre 7 de Março e 11 de Abril.
Para ouvir esta 4ª feira, às 18h05, em 90.4 fm ou em www.radioeuropa.fm, e a partir de 5ª feira em podcast".


... a primeira da vossa esquerda é a minha prima Inês.Tivesse eu o talento dela e não precisava de ser jornalista.

20 de fevereiro de 2010

Explicação aos leitores

Os dois últimos posts publicados neste blog foram alvo de más interpretações e comentários desagradáveis - e ameaçadores - por parte de alguns leitores. Se o primeiro era um texto irónico, relativo ao facto de ter sido assaltado nas ruas da cidade da Praia, por um individuo que levou apenas uma carteira com 10 escudos e a minha carta de condução, o segundo era uma reacção a um desses comentários, que me pareceu (e parece) descabido e sem qualquer fundamento.

No meu segundo texto fiz aquilo que não se deve fazer: Dar valor a um comentário que poderia, simplesmente, ter sido apagado. A autora do dito comentário não percebeu aquilo que eu tentei dizer a priori: não se tratava, Maria, de uma desvalorização do crioulo, antes uma forma humorística de encarar o assalto de que fui vítima.

Todos os cabo-verdianos devem ter orgulho na sua língua materna, mas esse orgulho não pode servir para encobrir uma realidade que é assumida, inclusive, por alguns agentes políticos: há um problema com o ensino e aprendizagem do português. Há um problema em Cabo Verde, na Guiné, em Moçambique, em São Tomé, em Timor Leste e até, imagine-se, em Portugal. Objectivamente, o Brasil é hoje o único e verdadeiro motor da lusofonia no mundo.

Se há coisa que abomino (a palavra é destacada propositadamente) é o preconceito de qualquer espécie. O fundamentalismo - e a falta de disponibilidade para discutir qualquer assunto, sem ameaças e com abertura de espírito - é também uma forma de preconceito.

O meu avô brasileiro, a minha avó e o meu pai angolanos, a minha mãe portuguesa e a minha mulher cabo-verdiana ensinaram-me que o mundo não acaba no fim da rua. Agora, para se conversar, serão sempre precisos dois.

Que me desculpem os leitores que contribuíram de forma construtiva para o debate aqui iniciado. Os textos foram retirados e o blog segue já a seguir.

Abraço a todos.

15 de fevereiro de 2010

Breve constatação

O facto de toda a polémica em torno do Face Oculta ter começado num sucateiro diz muito sobre o estado do país.

13 de fevereiro de 2010

"A lusofonia está a avançar"

Para quem se interessa pelas coisas da lusofonia, fica aqui o excerto de uma entrevista que fiz a Anacoreta Correia, secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa. A entrevista completa pode ser lida aqui.

O espaço da lusofonia resume-se a instituições com a UCCLA e tantas outras, ou é sentido pela população?

Eu julgo que a lusofonia progrediu muito nos últimos anos. Por exemplo, este mês estive no Brasil e o espaço que os noticiários dedicam a países africanos, em horário nobre, é hoje muito maior. Este interesse é inteiramente novo.
Quando começamos a ver o que representa o território dos países - e aí o Brasil é o gigante - nas áreas de territórios agrícolas mundiais, apercebemo-nos que se trata de qualquer coisa de notável.
Quando nos apercebemos da real extensão da costa dos países lusófonos - e aí Cabo Verde conta muito - numa altura em que se acredita que a resolução de muitos problemas do mundo actual pode estar no mar, vemos que temos uma brutalidade, milhares de quilómetros, de Zona Económica Exclusiva.
Finalmente, se pensarmos que, entre as quatro potências emergentes, a única que representa os valores ocidentais, a única que é uma democracia plena, é o Brasil e que o Brasil fala português, é porque temos uma palavra a dizer.
A lusofonia é hoje uma realidade muito maior do que aquilo que podíamos supor há vinte anos. Estamos a avançar.
Repare no interesse que há em Portugal pela gastronomia africana, pela cachupa ou por um caril com coco, fortemente condimentado [prato de Moçambique]. Note a implementação do futebol português nos países africanos.
É claro que gostaríamos de ver coisas mais concretas. Talvez aí, despolitizando um pouco o contexto da CPLP, seja possível a obtenção de mais resultados. Eu julgo que a hora é das pessoas se concentrarem em objectivos. Quem pretende resolver tudo, ao mesmo tempo e com toda a gente, falha.

A língua portuguesa é o principal elemento unificador dos países e das cidades lusófonas. Contudo, em Cabo Verde, há um número significativo de pessoas que não fala, ou fala mal o português, tal como em Moçambique. Em Timor, a percentagem de falantes de língua portuguesa é residual. O que é que está errado?
A língua é o principal factor de união entre os países e dentro dos países. Eu, em meados dos anos 80, estive em Moçambique, numa missão partidária. Lembro-me perfeitamente que o presidente Samora Machel dizia que o português era o que mantinha a integridade da Nação moçambicana.
Em Timor existe um problema, especialmente na geração dos 25 aos 40 anos, que foi educada pela Indonésia. Mas a população gosta muito do português.
A grande surpresa, na expansão do português, é Angola. Sobretudo, pela qualidade da língua que se fala em Angola e isso tem o seu reflexo, nomeadamente na literatura.
Eu estive na Lunda, na fronteira leste de Angola e as pessoas de lá disseram-me que o português extrapolou as fronteiras e fala-se para lá do território angolano. E dizem-me que na Namíbia dez por cento da população percebe o mínimo do português.
Veja, finalmente, o que se passa na América do Sul, onde qualquer latino-americano fala hoje, ou pelo menos ‘arranha', o ‘portunhol'.

12 de fevereiro de 2010

O problema do Pacheco Pereira é que queria ser jornalista e ninguém o deixou, não é? Aquilo só pode ser frustração.