10 de abril de 2010

Outras marchas

"Os dois lados da Revolta" - Um trabalho sobre as duas facções do mais recente incidente político na Guiné-Bissau.

"Chegou a hora da decisão" - A menos de um mês das eleições, o perfil dos dois candidatos a Primeiro-Ministro no Reino Unido.

"Morreu o homem que sonhava com um país de brancos" - A reportagem da morte do líder político racista sul-africano, Terre'Blanche.


Aqui ao lado, no Marcha dos Pinguins - Trabalho.

9 de abril de 2010

Pão com marmelada

Do seu tempo de criança recorda-se, em especial, dos Verões que, embora passados sempre no mesmo sítio, nunca se repetiram.

Ao chegar Agosto, eis as férias em família. Do último dia de Julho, traziam as malas feitas, o Fiat, carregado para lá do razoável (a mala e dois dos três lugares do banco traseiro), e o eco dos gritos de uma inconsequente discussão entre o pai e a mãe. Ele atarefado a inventar espaço para tudo o que Ela queria levar: "não vá faltar-nos alguma coisa".

A manhã começava cedo. Ainda a aurora estava longe, já a D. Carmelinda andava pela cozinha, com a sua camisa de noite florida, a panar os bifes que, depois de estarem dentro do pão, que o Sr. Carlos iria comprar logo às seis, assim abrisse a padaria, seriam o almoço da longa viagem. Impreterivelmente, Pedro era o último a acordar. Os pais poupavam-no à madrugada e poupavam-se à sua presença ensonada

Seriam sete, se já não fossem oito e meia. Motor nervoso, válvula do ar fechada. Quatrocentos quilómetros - "ainda falta muito? quantos quilómetros faltam?" - ou nem tanto, de Nacional. A serra e o vale. Um caminho apertado, nem sempre com asfalto. As bermas, no inverno, quando lá iam pelo Natal, verdes, às vezes brancas. No esplendor da "melhor estação do ano", castanhas, a cor do calor intenso, que não deixa respirar. Sufocante, como o aperto no peito, à última curva, antes da recta, 300 metros até ao início dos casebres. A periferia, mesmo nas aldeias, nunca é tão bonita como o centro. Dispersa e vulgar.

Pedro era o primeiro a sair do carro. "Pai, já vou". A corrida até ao tanque comunitário, a ver se água continuava verde. "Sim, continua". Naquele tanque, de águas paradas - numa altura em que os meninos o eram, como se os germes e os vermes de então não fossem mais do que personagens do Grande Livro dos Contos, essa narrativa sem páginas, a não ser as inscritas na memória da avó Maria sabia de cor - toda a aldeia, a de Agosto, de gentes ocasionais, se banhava.

Os Verões do seu tempo de criança não tinham consolas, televisão por cabo - televisão, sequer - ou Internet. Só calções, sapatilhas, joelhos magoados e pernas arranhadas pelos espinhos dos arbustos onde apanhava as amoras que comia, quentes, até ficar com uma dor de barriga que passava quando fazia cocó na horta do Sr. Casemiro, sem que ele imaginasse.

Agosto desses anos teve sempre demandas sagradas, do sol que nasce ao sol que se põe. "Mãe, posso ir?". E a mãe dizia que "sim, mas leva um boné". E levava também uma mochila com o lanche, que comia a meio da manhã. Duas fatias de pão caseiro, com marmelada e manteiga, um sumo, uma banana e era uma festa.

Voltava para casa ao meio-dia e meia, ao assobio combinado com o pai. Voltou sempre, todos os anos, durante muitos anos. Voltei hoje, já sozinho, para percorrer as ruas vazias, de uma terra que já não é de ninguém, mas que continua a ser a minha.

1 de abril de 2010

30 de março de 2010

Sobre os comentários nos jornais online

A quantidade de disparates que aparecem nos comentários que os leitores deixam nos jornais online são a prova de que o povo nunca tem nada de importante para dizer. Aliás, se assim não fosse, os boletins de voto tinham várias linhas e não apenas pequenos quadrados, onde se cabe uma cruzinha.

25 de março de 2010

De como me irritam os portugueses (categoria na qual me incluo)

O problema é o sentimento de impunidade. Quantos portugueses acham que José Sócrates e os seus cachicos se imiscuíram nos critérios editoriais de órgãos de comunicação social? Muitos. Quantos portugueses acreditam que da Comissão de Inquérito, criada no Parlamento, sairão resultados conclusivos? Muito poucos.

A dinâmica de "deixa andar" com que a classe política gere a agenda dos escândalos, que se abatem sobre os seus mais destacados dirigentes, é gregoriante. O país está cheio de figuras a quem a justiça não chega.

O mais revoltante não é fulano de tal ser ou ter sido, em dado momento, corrupto, indecoroso, pouco digno. Todas as famílias têm as suas ovelhas negras. Profundamente inquietante é nós sabermos, à partida, que "não vai dar em nada", que uma suspeita não passará disso mesmo. E, pior, estamo-nos a borrifar.

A nossa passividade, a nossa incapacidade de sair às ruas, de exigir responsabilidades, de fazer questão que, aqueles que nos dirigem, sob os quais existem suspeitas (suspeitas deveriam bastar), saiam pela porta pequena, está a dar cabo do conceito de país sobre o qual nos falam os livros de história (qualquer dia só nos compêndios seremos grandes).

Não há ninguém - muitas vozes a uma só - capaz de cumprir o desígnio de, cara a cara, dizer aos medíocres que povoam o mais alto espaço político: "se queres fo%&# alguma coisa, arranja uma charolesa e vai-lhe por trás, mas deixa o meu país sossegado!"

Se me irritam os governantes, os governados irritam-me muito mais.

18 de março de 2010

Até já

Talvez seja o meu destino: andar de casa às costas, sem ganhar raízes em nenhum sítio, a deixar sementes espalhadas por uma série deles (e não falo de filhos).

Se calhar, o melhor é começar a deixar as malas à mão, com um kit de sobrevivência lá dentro. Não há nada como estar sempre pronto a partir.

Cheguei à Praia, aluguei casa, comprei coisas, fui assaltado, bebi muita cerveja e... pronto, é isto.

Agora, arrumo tudo, meto num barco, apanho o avião e aterro numa nova paragem. Pelo menos, desta vez, não vou precisar de pedir novo número de contribuinte.

A partir de dia 1, o Mindelo será a minha cidade. Tenho um quarto a mais. Aceitam-se reservas.

16 de março de 2010

Uma análise ou um murro nas trombas

Depois de um dia cansativo, chegado a casa, para lá das dez da noite, sentei-me no sofá a comer noodles e a ver o Pontos de Vista, na RTPN.

A meio do debate, enquanto os representantes dos partidos dissecavam a Lei da Rolha - não sei qual é o espanto, ou não existisse, desde há muito, em todos os partidos parlamentares, aquela coisa chamada de disciplina partidária - diz-me a mulher com quem partilho os meus dias, até então sentada e enfastiada, a um metro de distância: "no teu país passam a vida a debater tudo e mais alguma coisa, arre, que dá asco".

Bem, talvez não tenha sido exactamente assim, mas no essencial foi isto. Precisei apenas de 20 segundos para engolir o orgulho patriótico e lhe dar razão. De facto, no meu país, toda a gente debate sobre todas as coisas. Debate-se muito. Só.

Não faço ideia - e não me vou dar ao trabalho de contar - quantos programas de análise política, desportiva, económica e social é que existem nas televisões portuguesas. São muitos, de certeza. Fazer informação de baixo custo tem este preço. A dada altura, todos os canais generalistas acharam que era um imperativo moral ter um canal de informação. À falta de orçamento, usam do método fácil: mesas redondas, entrevistas, gente em estúdio a falar durante uma hora, quase sempre sobre os mesmo temas - Portugal nem sequer é um país onde aconteçam coisas muito interessantes - só que em horários e sob nomes diferentes.

Enfim, no país onde até o Pacheco Pereira tem um programa só dele, tudo é possível, claro. Mas soubessemos nós canalizar tanta capacidade de análise para acções concretas e teríamos um país bem melhor. Ou isso ou murros, que cenas de pancadaria também ficam bem em qualquer democracia.

12 de março de 2010

Estive a (re)ver fotografias de Luanda. Aquela cidade é mesmo um esgoto. Vivia no meio da merda... e era tão bom.