A janela desse quarto não terá cortina. Não quero nada a esconder os quatro vidrinhos pelos quais será formada, embora tenha pena de não ter um pedaço de pano a esvoaçar ao ritmo das ondas.
Escreverei crónicas, contarei histórias, talvez até escreva um livro. Interromperei, a espaços, para descansar a vista e esticar as pernas. Caminharei, então, no soalho de madeira e descerei as escadas para o rés-do-chão. Na cozinha quero móveis de cor azul. O frigorífico será Indesit (ainda existem frigoríficos Indesit?). Em cima da mesa, rodeada por quatro bancos, ela e eles também azuis (de um azul claro e luminoso), existirá uma cesta com muita fruta, que comprarei no mercado, religiosamente, uma vez por semana.
A minha casa branca também terá uma sala e um quarto de dormir. Na sala, uma grande poltrona, como um trono. No quarto, o de sempre. Por essa altura, entre a cintura e os joelhos, já não deverei ser dono de mim, apesar disso, à cautela, cuidarei de manter uma caixa de preservativos na gaveta da mesinha de cabeceira.
Serei, nesses tempos, senhor de mim próprio, rei de Terabitia, criador dos sonhos que agora construo e personagem principal de uma história quase contada.
Por enquanto, limito-me a ser apenas protagonista da luta diária que os homens travam uns contra os outros. Quase sempre dominado de incertezas e inquietude. Se fosse marinheiro, afirmar-me-ia num temporal, a caminho do tal porto, junto à casa branca. O pior é que não sou e, assim sendo, tendo em conta o que, em teoria, ainda me falta viver, estou mas é bem fodido.
