16 de junho de 2010

O projecto do Nuno

Tenho um projecto de vida. Um plano, pelo menos. Quero viver do que escrevo, sem ter de cumprir calendários demasiado rígidos ou temas escolhidos por um editor que, simplesmente, não quer saber das minhas vontades pessoais. Planeio fazer tudo isto no primeiro andar de uma casa, pintada de branco, à beira-mar, na secretária que vou pôr ao pé da janela que há-de ser virada para o oceano. Em cima da mesa terei um candeeiro, muitos papeis, um computador, um lápis e um Moleskine.

A janela desse quarto não terá cortina. Não quero nada a esconder os quatro vidrinhos pelos quais será formada, embora tenha pena de não ter um pedaço de pano a esvoaçar ao ritmo das ondas.

Escreverei crónicas, contarei histórias, talvez até escreva um livro. Interromperei, a espaços, para descansar a vista e esticar as pernas. Caminharei, então, no soalho de madeira e descerei as escadas para o rés-do-chão. Na cozinha quero móveis de cor azul. O frigorífico será Indesit (ainda existem frigoríficos Indesit?). Em cima da mesa, rodeada por quatro bancos, ela e eles também azuis (de um azul claro e luminoso), existirá uma cesta com muita fruta, que comprarei no mercado, religiosamente, uma vez por semana.

A minha casa branca também terá uma sala e um quarto de dormir. Na sala, uma grande poltrona, como um trono. No quarto, o de sempre. Por essa altura, entre a cintura e os joelhos, já não deverei ser dono de mim, apesar disso, à cautela, cuidarei de manter uma caixa de preservativos na gaveta da mesinha de cabeceira.

Serei, nesses tempos, senhor de mim próprio, rei de Terabitia, criador dos sonhos que agora construo e personagem principal de uma história quase contada.

Por enquanto, limito-me a ser apenas protagonista da luta diária que os homens travam uns contra os outros. Quase sempre dominado de incertezas e inquietude. Se fosse marinheiro, afirmar-me-ia num temporal, a caminho do tal porto, junto à casa branca. O pior é que não sou e, assim sendo, tendo em conta o que, em teoria, ainda me falta viver, estou mas é bem fodido.

10 de junho de 2010

Aqui estamos

Este é o país do rei que bateu na mãe. Das caravelas, das naus e do Sebastião que, todos o sabemos, ainda há-de vir para nos salvar, porventura, do estado a que isto chegou. Ai homem que tanto tardas.

Este é o imenso país das fronteiras infinitas, que do Restelo navegou a África, à Ásia e à América e que aí deixou uma língua, uma religião e um jeito estranho de se ser.

Este é, por isso, o país do povo que se deixa roubar. Que baixa a cabeça perante a adversidade, o infortúnio e o fado da existência, escrito, repetido e exausto, nos versos dos poetas, cantados por Amália, que depois de fadista foi lontra, ao lado de Eusébio, que tinha sido futebolista.

Fado, Futebol e Fátima, não por esta ordem, das peregrinações, dos joelhos no chão, da mão no peito, das velas, das procissões e do ‘ai Deus me acuda’, que se for por mim, canso-me antes de lá chegar.

O país de Sócrates de Cavaco e de Alegre. O que mente, o que já mentiu e o que quer mentir, ou não fosse isto uma mentira pegada.

Este país, de inveja feito, cheio de mesquinhice, cusquice e outras ‘ices’, que isto é mas é tudo uma grande chatice. Trabalhar cansa e cansar faz mal. A cunha já tenho, dá-me lá um subsídio.

O país do oitavo para o décimo ano, dos professores que reclamam da avaliação, dos alunos e da ministra que os governa. Aqui o que importa é ter um curso e haver uma ‘nova oportunidade’ de ser doutor, mesmo que em tubagem e sanitários.

Este é o país dos medíocres, dos maus e dos mauzinhos, em que a culpa morre solteira, mas só porque não é gay.

Este é o país dos tipos que escrevem textos como este, o país que não vale a pena, que a selecção vai perder, ficar logo na fase de grupos. Pai, filho, espírito santo.

Este é o país que eu amo. Este país é Portugal.

2 de junho de 2010

Carta

Olá!

Então como vão as coisas por aí? Não conheço o sítio para onde te mudaste, mas têm-me dito que vale a pena. Faz frio, calor? Como é que são os dias? Há dias? E como é que se ocupam? Acredito que tenham muito tempo livre. Tens estado com a avó? Ela está boa? Diz-lhe que tenho saudades das cócegas na barriga e da mousse de chocolate nos anos. Olha, o importante é que estejas feliz e tenho a certeza que sim... caso contrário já terias voltado.

Hoje lembrei-me daquela vez em que a chuva tentou estragar o nosso piquenique e tu, com aquela paciência que tinhas para as coisas vulgares, improvisaste uma floresta no escritório. O sol, no candeeiro; o pano verde, nas vezes da erva; as formigas na parede. Ainda assim, consegui ficar doente.

Aliás, tu sabes que eu tenho uma tendência para estragar as melhores intenções de toda a gente. O febrão no circo Chen? A Expo de Sevilha? E a cama na Bendada, dias antes da jarra partida em Madrid?

Fiquei muito contente por ter chegado a tempo de te desejar boa viagem, "vai com Deus". Estava imensa gente. És mesmo popular. Pudera! Passaste a vida inteira a viver a vida dos outros e, às vezes, até te esqueceste da tua. Ou talvez não. Talvez tenha sido nos outros, naqueles a quem tanto bem fizeste, que encontraste a razão do teu viver.

Acho que foi isso que tanta gente, naqueles bancos corridos, ao som melodioso de canções bonitas, te quis dizer, mesmo antes de te ires embora.

O que ainda não percebi é porque é que tiveste de sair tão de repente. Estava mesmo para te ligar a saber de ti, dessa chatice que te levou de mim.

A Dulce fica bem. Cuidamos dela. Cuidaremos de nós, também. Não te preocupes: jamais seguiremos caminhos que nos levem para longe da casa de partida, à qual, inevitavelmente, voltaremos sempre que precisarmos de recuperar o fôlego.

Em todo o caso, quero que saibas que a tua morte provoca em mim um imenso embaraço.

Falamos depois.


Nuno


28 de maio de 2010

Tenho imensas coisas para escrever, mas não o fazer, simplesmente, porque está tanto vento nesta terra (tanto, de TANTO) que a minha casa deve cair a qualquer momento. Como estou cá dentro, percebem que não vale a pena perder tempo em narrativas, certo?

15 de maio de 2010

Não me lixem a vida

Tivesse sido um acaso, e a coincidência seria perfeita. Acontece que a escolha do Governo para anunciar, esta semana, o aumento - mais do que esperado - das medidas de combate ao sempre presente défice foi tudo menos inocente.

Toda a gente sabe que os portugueses passam a maior parte do ano a dormir, mas não há semana mais perfeita para aprovar e fazer passar medidas que vão directamente aos nossos bolsos, do que aquela que se segue à consagração do Benfica como campeão nacional e na mesma altura em que Bento XVI - mesmo sendo Bento XVI o dono daquela cara que se vê - por cá andava.

Os noticiários televisivos e os jornais tiverem de dividir atenções entre tanto acontecimento. Ontem, no final de um dos telejornais na noite, o pivot dizia, com todo o direito, que esta tinha sido uma semana atípica em termos de produção noticiosa. Pois sim, verdade.

Quem me conhece mais a fundo, no sentido figurado da profundidade, sabe das minhas limitações académicas (ah, Economia do 2º ano) no que a assuntos económicos diz respeito. Ainda assim, não é preciso ser um grande especialista na matéria para perceber que um aumento da receita, ainda que o temporário passe a definitivo, não resolve o problema estrutural que está do lado da despesa.

Reconheça-se, contudo, a inteligência da escolha por um aumento ligeiro da taxa de IRS, (além do IVA e do IRC) ao invés do congelamento do décimo terceiro mês. Os resultados, mais imediatos e o peso, mais discreto. Tão discreto que, facilmente, a medida conjuntural passará a estrutural, sem que ninguém se lembre disso. Com o subsídio de Natal seria diferente. Dificilmente poderia ficar congelado por mais de dois anos, sem causar uma celeuma e um ruído insuportáveis.

A questão é que aumentar a receita, a fórmula usada repetidamente e que, impopular, sempre acaba por ser mais pacífica do que cortar a sério na despesa, limita-se a chutar o problema para a frente. O Estado tem de ser mais magro. Tem de cortar nas prestações sociais. Tem de passar para os privados a tutela parcial de sectores - entre eles, precisamente, a protecção social - tradicionalmente debaixo da sua alçada. Terá de faze-lo, pelo menos, até ao dia em que conseguir convencer os portugueses a ter mais filhos. Em que dê a quem cá mora condições para que as famílias aumentem, contribuindo, desta feita, para o aumento, a médio prazo, da população activa.

Somos um país com cada vez menos gente a trabalhar. Independentemente da curva ascendente do desempro, a verdade é que Portugal tem cada vez menos contribuintes e mais beneficiários e isso implica - implicará - consequências, mesmo que numa situação de contas públicas saudáveis e crescimento económico digno de registo. É aritmética simples (e ainda bem, porque essa cadeira eu fiz sem problemas). Se há mais gente a receber e menos a pagar, só há duas soluções: ou quem paga, paga mais, ou quem recebe, recebe menos.

Não se enganem, sou um homem de esquerda. Defendo um Estado presente e interventivo. O que eu quero é um país inteligente, que proteja quem precisa de ser protegido, mas que não hipoteque o futuro. É que, nessa altura, os que agora vivem sob a sua protecção, já estarão mortos e quem se vai lixar sou eu.

14 de maio de 2010

Martinho

Martinho é uma espécie de historiador. Apesar de não ser natural da ilha onde agora vive, por lá se fixou há muitos anos e conhece de cor as lembranças que cada rua, cada travessa e cada porta conservam. Ou então não. Em todo o caso, foi assim que me convenceu.

Martinho, que presumo estar no esplendor dos 60 (tenho os sexagenários em grande conta), é um personagem, só por si. Quando lhe bati à porta, com 24 horas de atraso, acolheu-me como se fossemos amigos de longa data. Decretou, quase de imediato, que, pela similaridade dos nossos nomes – não tão iguais assim, perceba-se – passaríamos a ser primos. Não fosse a sua casa um caos completo, como estava prestes a descobrir, e teria desconfiado dele.

O lugar onde vivemos diz muito sobre quem somos. A loucura daquele primeiro andar – ao qual se chega por uma escada estreita e, também ela, atabalhoada – tranquilizou-me. Eis um homem coerente.

No escritório, onde os livros roubaram, aposto que há muito, o lugar ao chão, as estantes esforçam-se hold and still para sobreviverem ao excesso de carga a que são sujeitas.

Na sala, os sofás, cobertos de uso, viram-se para o piano. A visita não acabará sem uma morna.

Conversa solta, desprendida e desconexa. Despropositada. Eis um homem coerente. A cidade, as pessoas da cidade e a cidade das pessoas. De Adriano, claro (era sobre ele que ali estava). E do Manuel, da Carlota, da Joaquina, do Serôdio e de todos os nomes que conseguirem, comigo, inventar. Martinho tem, sobre qualquer um de vocês, uma memória.

Duas horas depois, Sagres Mini para elevar o espírito, o piano, finalmente o piano. Desafinado. Um desafino que é um desatino. B’Leza em notas soltas, a uma mão, sem acordes por decreto. Não há compasso. Que homem tão coerente.

Saí da casa, na segunda rua de Chã de Alecrim, às seis da tarde. Podia ter saído às 10 da noite. Podia ainda lá estar hoje. Caminhei até à pracinha do bairro, à procura de um táxi. Quis acompanhar-me e pedi-lhe que não o fizesse. Martinho, na sua casa, é tudo o que quer e quiser ser. Nós somos o que formos, onde tivermos de ser. Na circunstância – eis um homem coerente – isso bastava.


10 de abril de 2010

Outras marchas

"Os dois lados da Revolta" - Um trabalho sobre as duas facções do mais recente incidente político na Guiné-Bissau.

"Chegou a hora da decisão" - A menos de um mês das eleições, o perfil dos dois candidatos a Primeiro-Ministro no Reino Unido.

"Morreu o homem que sonhava com um país de brancos" - A reportagem da morte do líder político racista sul-africano, Terre'Blanche.


Aqui ao lado, no Marcha dos Pinguins - Trabalho.

9 de abril de 2010

Pão com marmelada

Do seu tempo de criança recorda-se, em especial, dos Verões que, embora passados sempre no mesmo sítio, nunca se repetiram.

Ao chegar Agosto, eis as férias em família. Do último dia de Julho, traziam as malas feitas, o Fiat, carregado para lá do razoável (a mala e dois dos três lugares do banco traseiro), e o eco dos gritos de uma inconsequente discussão entre o pai e a mãe. Ele atarefado a inventar espaço para tudo o que Ela queria levar: "não vá faltar-nos alguma coisa".

A manhã começava cedo. Ainda a aurora estava longe, já a D. Carmelinda andava pela cozinha, com a sua camisa de noite florida, a panar os bifes que, depois de estarem dentro do pão, que o Sr. Carlos iria comprar logo às seis, assim abrisse a padaria, seriam o almoço da longa viagem. Impreterivelmente, Pedro era o último a acordar. Os pais poupavam-no à madrugada e poupavam-se à sua presença ensonada

Seriam sete, se já não fossem oito e meia. Motor nervoso, válvula do ar fechada. Quatrocentos quilómetros - "ainda falta muito? quantos quilómetros faltam?" - ou nem tanto, de Nacional. A serra e o vale. Um caminho apertado, nem sempre com asfalto. As bermas, no inverno, quando lá iam pelo Natal, verdes, às vezes brancas. No esplendor da "melhor estação do ano", castanhas, a cor do calor intenso, que não deixa respirar. Sufocante, como o aperto no peito, à última curva, antes da recta, 300 metros até ao início dos casebres. A periferia, mesmo nas aldeias, nunca é tão bonita como o centro. Dispersa e vulgar.

Pedro era o primeiro a sair do carro. "Pai, já vou". A corrida até ao tanque comunitário, a ver se água continuava verde. "Sim, continua". Naquele tanque, de águas paradas - numa altura em que os meninos o eram, como se os germes e os vermes de então não fossem mais do que personagens do Grande Livro dos Contos, essa narrativa sem páginas, a não ser as inscritas na memória da avó Maria sabia de cor - toda a aldeia, a de Agosto, de gentes ocasionais, se banhava.

Os Verões do seu tempo de criança não tinham consolas, televisão por cabo - televisão, sequer - ou Internet. Só calções, sapatilhas, joelhos magoados e pernas arranhadas pelos espinhos dos arbustos onde apanhava as amoras que comia, quentes, até ficar com uma dor de barriga que passava quando fazia cocó na horta do Sr. Casemiro, sem que ele imaginasse.

Agosto desses anos teve sempre demandas sagradas, do sol que nasce ao sol que se põe. "Mãe, posso ir?". E a mãe dizia que "sim, mas leva um boné". E levava também uma mochila com o lanche, que comia a meio da manhã. Duas fatias de pão caseiro, com marmelada e manteiga, um sumo, uma banana e era uma festa.

Voltava para casa ao meio-dia e meia, ao assobio combinado com o pai. Voltou sempre, todos os anos, durante muitos anos. Voltei hoje, já sozinho, para percorrer as ruas vazias, de uma terra que já não é de ninguém, mas que continua a ser a minha.

1 de abril de 2010

30 de março de 2010

Sobre os comentários nos jornais online

A quantidade de disparates que aparecem nos comentários que os leitores deixam nos jornais online são a prova de que o povo nunca tem nada de importante para dizer. Aliás, se assim não fosse, os boletins de voto tinham várias linhas e não apenas pequenos quadrados, onde se cabe uma cruzinha.