11 de agosto de 2010

Cancros

Do que eu tenho medo é de acabar assim. Não é a morte que eu temo, só a sua imprevisibilidade e no que toca a inesperado, o cancro é a mais prodigiosa das doenças.

Quando sabemos que o temos, porra, achamos logo que estamos fodidos. A seguir, o bicho dá-nos esperança e, por uns tempos, chegamos a acreditar que o assunto está arrumado, resolvido e guardado na gaveta das más recordações, ao lado das meias velhas que, apesar de já não usarmos, somos incapazes de deitar fora. Finalmente, o tipo volta, às vezes depois de anos em paz dos anjos. Regressa para, implacável, ao jeito de um vilão em filme de série B, dar cabo de nós. Em dias, puf, já fomos.

Custa-me a entender esta maneira de ser, porque, se é para matar, que mate de uma vez. Se é mau demais, se não tem cura, não vale a pena ter esperança, que seja bravo o suficiente para resolver o assunto em meia dúzia de horas. Preferia assim. Poupava-se na esperança, no sofrimento e no erário.

De tanto andar na boca da gente, o cancro tornou-se, no fundo, um de nós. Um tipo cheio de manias, idiossincrasias e obstinações.

Um cancro indeciso, é uma atrapalhação. Ora estamos mal, ora estamos bem, ora um espectáculo, ai que ando de rastos. Foi precisamente assim que se passou com as pessoas que conheci, que tiveram cancro e já nos deixaram desta para melhor.

A minha tia Teresa - acho que nunca a chamei pelo nome próprio - começou com um nódulo inchado: preocupei-me. Operou: fiquei descansado. Descobriram a origem maligna: preocupei-me. Tirou os ovários e o útero: fiquei descansado. Descobriram metástases: preocupei-me. Fez quimioterapia: fiquei descansado. Os valores tumorais voltaram a subir: fiquei preocupado. Fez um tratamento na Alemanha: fiquei descansado. As metástases chegaram aos pulmões: fiquei preocupado. Drenou o líquido: fiquei descansado.

Não sei como é ter um cancro na primeira pessoa, mas sei como é te-lo na terceira. Ao fim de seis anos, quando nos habituámos aos seus altos e baixo e dominamos, longo caminho, toda a linguagem oncológica, eis que os intestinos param, os outros órgãos seguem-lhes o exemplo e começam a entrar em falência. Num ápice, estamos cheios de dores. E até aí, estúpidos - ou humanos, só isso - acreditamos que duplicar a dose de morfina só significa duplicar a dose de morfina.

Então, drogados e anestesiados, na primeira e terceira pessoas, partimos, com e sem dor, encharcados de incredulidade Conjugamos o verbo no plural. Eu, tu, ele, nós. Morremos todos ao mesmo tempo. Morremos um pouco, pelo menos. Até o cancro morre.

Levantamos as mãos ao céu e pedimos a Deus Nosso Senhor que, justo agora, grande cabrão, nos deixe descansar em paz.

13 de julho de 2010

O tudo mais sobre a paixão que o Google não nos diz

E se conseguíssemos mesmo 'googlar' o que alguém sente por nós? Se pudéssemos prever se a nossa mais louca paixão - "ai que eu nunca me senti assim"; "nunca estive tão apaixonado por ninguém" - é correspondida? O que é que fariam se dos génios criativos de Larry Page e Sergey Brin saísse uma forma de nos poupar ao sufoco de ficar minutos, horas, dias intermináveis à espera que o novo "amor da minha vida, agora é que é para sempre, agora é mesmo", nos diga alguma coisa?

Não precisaríamos de nos fazer difíceis, evitaríamos jogar e fingir que não se passa nada. Dormiríamos melhor, estudaríamos e trabalharíamos mais concentrados. Saberíamos, à partida, se o investimento será (seria) ou não recompensado. Pouparíamos vergonhas, embaraços, desilusões, saídas de fininho, dores de cabeça, de dentes e de coração. Caramba, voltaríamos a ser donos e senhores das nossas emoções e esquivar-nos-íamos a expressa-las por aí, ao Deus dará, contra tal "filho(a) da puta, cabrão(a) de merda, camelo(a), dromedário(a), bode, cão, cadela, cavalo e cavala", que embora peixe vai bem na sequência, que insulto é insulto.


Mais: com rigor, terminaríamos uma relação no tempo exacto, no "acabou", porque não haveria dúvida ou esperança que subsistisse ao 'search'. Racionalizaríamos muito mais a vida dos afectos. E, foda-se, daríamos cabo de nós.

Paixão que é paixão tem sofrimento, sangue suor e lágrimas. Agonia, palpitações e variações. Unhas roídas, lápis partidos. Ataques de fúria, gritos, mudez, surdez e até comichão.

A paixão tem de ser trágica: "mas tu não entendes que és único(a)?". Tem de ser dúbia: "o que é queres dizer com isso?". Tem de deixar espaço para a incerteza. Não cabe no 'sinto-me com sorte', porque às vezes é azar.

Uma paixão, daquelas que excitam só de pensar e que tiram a fome para logo depois a devolver como se minguássemos há quinze dias, precisa de fazer suar a palma das mão nervosa e perdida. E precisa de ser escrita em prosa, em verso, quadras pirosas, sonetos horríveis, com rima cruzada, emparelhada, interpelada ou solta, para melhor se levar.

Paixão, 'paixãozona', grande, enorme - ou pequenina, pronto - tem de acabar bem, tem de acabar mal, tem de nunca acabar, para a vida, para o verão, para a tarde, para o tempo que demorar a beber este café: "vá lá, olha para mim, olha, olha, olha. Olá. Credo"

A paixão tem de nos fazer sofrer para, desta vez ou da próxima, nos fazer imensamente felizes, capazes de morrer já aqui, porque, afinal, já estivemos no único lugar onde queríamos estar.

A imagem que deu a ideia foi pescada aqui.


9 de julho de 2010

O Chato*


Como toda a gente, também tem noites más que se seguem, quase sempre, a dias não muito melhores. Nessas noites, ao invés das outras, vai até à varanda. Segura a cerveja numa mão e na outra o cigarro.

Não sendo um grande fumador - o homem não fuma de todo, a não ser nessas noites, digamos, más - preocupa-se pouco com a marca do que leva à boca. Não tem tiques de fumador, não trava e nunca sabe ao certo qual a melhor altura para, num gesto que se esperava seguro, diminuir a cinza do tabaco queimado.

Na sua visão romântica, fumar um cigarro deveria obedecer a todo um ritual. Caramba, não sabendo aquilo a nada, enquanto aceso, deixando a boca a saber a merda, no final, ao menos que seja cerimonial. Mas afinal, até porque já o dissemos, ele não é grande fumador, acaba o cigarro e fica a pensar que o fez demasiado depressa.

Se bem se lembram, contudo, na outra mão - direita, porque fuma com a esquerda - tem a garrafa de cerveja. Não voltará para dentro, deixando sózinha a varanda, a vista limitada pelos prédios altos, e o burburinho das 22 horas, sem acabar os 25 centilitros de água com cevada que, ao contrário de outras coisas, nas quais não é particularmente exigente, tem marca certa e temperatura ideal.

Não o tomem por bêbado. Na realidade, não estivessem estas noites assim tão quentes e teria ido refrescar as ideias só com o cigarro mal fumado.

O problema é que cresceu demasiado depressa e demasiado sozinho. Não se lembra ao certo do que é que andou a fazer até aos dez anos, mas sabe que foi com essa idade que se sentou pela primeira vez a ver um debate na televisão. Azar o seu: muito mais do que os Power Rangers, aquilo é que era animação. Ao virar da sua primeira década de existência deu o passo que o tornaria um chato para o resto da vida.

Por isso, daqui a pouco, quando hesitar entre levar a garrafa para a cozinha ou atira-la para a rua e ver o espectáculo do vidro partido no passeio - Rosseau, não te quero contrariar mas, esta noite, de bom selvagem, este sujeito não vai ter nada - aperceber-se-à que o facto de ter tamanha dificuldade em fazer amigos e, acima de tudo, relacionar-se com pessoas do sexo oposto, é consequência, em grande medida, daquele fatídico frente-a-frente entre Soares e Freitas, em 1986.

Ainda falta um bocado para esse momento. Por enquanto, o pobre coitado - assim curvado, debruçado à procura de um rabo de saias, parece mesmo um infeliz, miserável - só pensa em como é aborrecido viver sozinho no quarto andar de um prédio dos subúrbios da capital, de onde fugiu a tempo de evitar a ordem de despejo dada por um senhorio lógica e justificavelmente enfurecido. E não fosse o apetite voraz da empregada do Pingo Doce - nunca o mundo conheceu uma caixa de supermercado com uma libido em tal estado de sítio - e o tráfego mensal de Internet esgotar-se-ia ao dia dez.

Quando tem as suas noites más, as tais que se seguem a dias não muito bons, é isto que ele faz. Nas outras, as não tão más assim, fica na sala, de comando na mão, absolutamente satisfeito com o que a televisão digital tem para oferecer. Felizmente, isso está prestes a mudar.


* Por favor, não me estou a retratar.

6 de julho de 2010

O Canto da Terra

O senhor meu pai tem um blogue. Como ele gosta muito de plantas, o blogue é quase todo sobre isso. Jardineiros ou não, vejam que vale a pena.

29 de junho de 2010

Tratado sobre relações que são ralações

De uma maneira geral, no mundo ocidental - na concepção que nós, europeus, temos da 'ocidentalidade' - já serão poucos os que se casam por interesse. Ainda assim, continua a haver por aí muita gente presa a relações às quais só sobra a forma, porque estão há muito vazias de conteúdo.

A dada altura, na nossa vida, todos nós já experimentámos manter vivos os laços que nos uniam a alguém, pelo simples facto de acreditarmos - e nessas alturas acreditamos piamente - que é impossível uma coisa tão lógica, como estarmos junto 'daquela' pessoa, deixar de existir. Infelizmente, todos o sabemos - ou aprendemos, por vezes, aos trambolhões - a aritmética das emoções e dos afectos não é uma ciência exacta e nesta coisa dos sentimentos, dois mais dois nem sempre são quatro.

Um amigo e ex-colega contava-me há tempos o seu desaire [na altura] recente. Desabafava a sua pouca sorte e lamentava a falta de ajuda cósmica. Dei-lhe uma palmadinha nas costas e aconselhei-o a seguir em frente. Terá sido de pouco uso o "caga nisso e bebe a cerveja, que gajas há muitas", mas, nestes casos, o que é que de inteligente se pode dizer a quem acha que o mundo (o seu) está a desabar?

Em momentos de confissões sacramentais, fico sempre sem jeito e sem argumentos. Eu, que, de uma maneira geral, tenho opinião formada ou a formar sobre tudo e mais alguma coisa. Nessas ocasiões, olho para o meu interlocutor e julgo simplesmente inútil perder-me em argumentos que tentem convencer aquele sujeito, feito em merda, de que a vida é uma coisa bestial.

Hoje, por e-mail, o tal amigo voltou ao tema. Agora, sonhador, encantado e, de novo, apaixonado. Isso pôs-me a pensar.

Homens e mulheres são diferentes, mas, independentemente dos genitais que o Senhor nos deu, ser pénis ou vagina interessa muito pouco quando aquilo de que se trata é de entregas e devoluções.

O facto de aceitarmos, às vezes com leviandade, partilhar a nossa vida, de mão beijada, com alguém, é, à partida, um risco sujeito a consequências potencialmente desastrosas. A nossa geração, esta dos finais dos anos 70 e princípios da década de 80, tornou demasiado fácil o compromisso, sem se dar ao trabalho de o aprofundar. As relações, as que o chegam a ser, já o são antes de o deverem ser. Hoje eu já te amo, amanhã estarei a viver contigo.

Num ápice, viramos todos imperiais mal tiradas. Dentro do copo, só espuma, sem cerveja. À primeira adversidade, porque não criámos laços sólidos, questionamos tudo e destruímos as leis da física que, cinco minutos antes, tínhamos por universais. Pegamos no saco do lixo, damos um nó, dois e levamos para o contentor. No regresso, estaremos prontos para outra.

Felizmente, restam-nos ainda exemplos felizes, de gente que perdura no tempo. Conheço casais assim. Novos e velhos. Gente feliz e não apenas contente. Homens e mulheres que, com ou sem semelhança de género, não querem saber viver separados.

Uma relação é uma partilha: que não implica que cada parte se anule, que deixa espaço para a individualidade, mas uma partilha que se constrói, aos poucos, devagar. E será sempre uma ralação. Às vezes, estar com alguém, fazer por dar certo, é chato ao ponto de não apetecer mais.

Sou um aprendiz desta coisa que é viver. Aos disparates, conheço-os a todos. Já me anulei, já desprezei e já fui indiferente. Quis estar e arrependi-me profundamente de ter estado. Enganei-me na pessoa e enganei-me a mim próprio. Vivi num permanente estado de ansiedade. Nesse aspecto, tornei-me um homem mais adulto. Pelo menos, inspiro e expiro sem comprometer os batimentos cardíacos.

Escrevi uma vez que os meus pais são o meu modelo. Continuo convencido disso e os seus trinta anos de casamento feliz (complicado, mas feliz) são a prova de que estou certo. A minha mãe tem um feitio difícil e o meu pai é um homem solitário, com poucos amigos. Ele aturou-a e ela fez-lhe companhia. Não me contentarei jamais com menos do que aquilo que eles representam. O seu exemplo será sempre o meu guia. Serei paciente e persistente. Ainda assim, esgotadas todas as possibilidades, preferirei o caminho mais sinuoso, se assim tiver de ser, e tomarei decisões difíceis, se não as puder simplificar.

Mesmo que a tropeçar no meu pé 45, espero nunca me esquecer de como é que se ama alguém: ao meu jeito, no meu defeito e na minha ingenuidade. Por isso, obrigo-me ao dever de querer perceber a mesma verdade - e o mesmo presente - no olhar de quem estiver comigo, seja eu um jovem à beira dos trinta ou um sexagenário com bicos de papagaio.

Esta manhã, ao acordar, olhei para a mulher que amo e pensei o quanto ela é importante na minha vida. O quanto cresci ao lado dela. Naquele fragmento de tempo, revivi um sem número de momentos que partilhámos os dois. Nem todos felizes, muitas discussões e desentendimentos, mas sempre intensos. Os quilómetros que fizemos, a aventura em que nos metemos e as precipitações que protagonizámos. Não sei medir o tamanho do sentimento que nos mantém juntos. Não sei, se o pesássemos, se a balança estaria equilibrada. Talvez não. Não faço ideia onde estaremos daqui por uns meses. Contudo, ao vê-la despenteada, ainda a dormir, não me importei com nada disso. Limitei-me a recordar o seu riso, a sua irreverência, o seu feitio ainda pior que o da minha mãe e o quanto gosto dela quando me faz detesta-la.

Ao meu amigo, agora, não querendo estragar o momento, talvez lhe dissesse que até prova em contrário nos limitamos a viver apenas uma vez, o que, para lá do cliché, é motivo bastante para não perdemos tempo com quem não quer perder tempo connosco. Acrescentaria, porém, que o melhor é não pensar muito no assunto.

Que país é este?

O Pedro Rolo Duarte escreveu sobre as escutas telefónicas que o Correio da Manhã tem vindo a divulgar.

Li o Pedro, li as escutas e pergunto-me: que país é este em que esquemas legais permitem que o conteúdo daquelas horas de gravação possa não ter qualquer implicação?

Que país é este onde, um jornal divulga, como já antes outro o tinha feito, tais provas e haja quem, do topo das suas responsabilidades públicas, continue a afirmar que não houve nada, não se passou nada?

Que país é este, meu Deus - e talvez Ele nos ajude a perceber isto tudo - em que persiste a maior das imoralidades, das impunidades e das indecências?

Quem país é este onde se sabe tudo o que se sabe e o Governo não cai?

O que é que de bom podemos esperar de gente assim?

18 de junho de 2010

Breve nota sobre a profissão

Eu devo gostar mesmo do que faço. Hoje fui ao fim do mundo e voltei. Comi pó durante largas horas, percorri picadas loucas, ia caindo numa ravina, pedi boleia à beira da estrada, andei na caixa aberta de uma carrinha e acabei o dia a comer torresmos regados com cerveja Strella à pressão.

16 de junho de 2010

O projecto do Nuno

Tenho um projecto de vida. Um plano, pelo menos. Quero viver do que escrevo, sem ter de cumprir calendários demasiado rígidos ou temas escolhidos por um editor que, simplesmente, não quer saber das minhas vontades pessoais. Planeio fazer tudo isto no primeiro andar de uma casa, pintada de branco, à beira-mar, na secretária que vou pôr ao pé da janela que há-de ser virada para o oceano. Em cima da mesa terei um candeeiro, muitos papeis, um computador, um lápis e um Moleskine.

A janela desse quarto não terá cortina. Não quero nada a esconder os quatro vidrinhos pelos quais será formada, embora tenha pena de não ter um pedaço de pano a esvoaçar ao ritmo das ondas.

Escreverei crónicas, contarei histórias, talvez até escreva um livro. Interromperei, a espaços, para descansar a vista e esticar as pernas. Caminharei, então, no soalho de madeira e descerei as escadas para o rés-do-chão. Na cozinha quero móveis de cor azul. O frigorífico será Indesit (ainda existem frigoríficos Indesit?). Em cima da mesa, rodeada por quatro bancos, ela e eles também azuis (de um azul claro e luminoso), existirá uma cesta com muita fruta, que comprarei no mercado, religiosamente, uma vez por semana.

A minha casa branca também terá uma sala e um quarto de dormir. Na sala, uma grande poltrona, como um trono. No quarto, o de sempre. Por essa altura, entre a cintura e os joelhos, já não deverei ser dono de mim, apesar disso, à cautela, cuidarei de manter uma caixa de preservativos na gaveta da mesinha de cabeceira.

Serei, nesses tempos, senhor de mim próprio, rei de Terabitia, criador dos sonhos que agora construo e personagem principal de uma história quase contada.

Por enquanto, limito-me a ser apenas protagonista da luta diária que os homens travam uns contra os outros. Quase sempre dominado de incertezas e inquietude. Se fosse marinheiro, afirmar-me-ia num temporal, a caminho do tal porto, junto à casa branca. O pior é que não sou e, assim sendo, tendo em conta o que, em teoria, ainda me falta viver, estou mas é bem fodido.

10 de junho de 2010

Aqui estamos

Este é o país do rei que bateu na mãe. Das caravelas, das naus e do Sebastião que, todos o sabemos, ainda há-de vir para nos salvar, porventura, do estado a que isto chegou. Ai homem que tanto tardas.

Este é o imenso país das fronteiras infinitas, que do Restelo navegou a África, à Ásia e à América e que aí deixou uma língua, uma religião e um jeito estranho de se ser.

Este é, por isso, o país do povo que se deixa roubar. Que baixa a cabeça perante a adversidade, o infortúnio e o fado da existência, escrito, repetido e exausto, nos versos dos poetas, cantados por Amália, que depois de fadista foi lontra, ao lado de Eusébio, que tinha sido futebolista.

Fado, Futebol e Fátima, não por esta ordem, das peregrinações, dos joelhos no chão, da mão no peito, das velas, das procissões e do ‘ai Deus me acuda’, que se for por mim, canso-me antes de lá chegar.

O país de Sócrates de Cavaco e de Alegre. O que mente, o que já mentiu e o que quer mentir, ou não fosse isto uma mentira pegada.

Este país, de inveja feito, cheio de mesquinhice, cusquice e outras ‘ices’, que isto é mas é tudo uma grande chatice. Trabalhar cansa e cansar faz mal. A cunha já tenho, dá-me lá um subsídio.

O país do oitavo para o décimo ano, dos professores que reclamam da avaliação, dos alunos e da ministra que os governa. Aqui o que importa é ter um curso e haver uma ‘nova oportunidade’ de ser doutor, mesmo que em tubagem e sanitários.

Este é o país dos medíocres, dos maus e dos mauzinhos, em que a culpa morre solteira, mas só porque não é gay.

Este é o país dos tipos que escrevem textos como este, o país que não vale a pena, que a selecção vai perder, ficar logo na fase de grupos. Pai, filho, espírito santo.

Este é o país que eu amo. Este país é Portugal.