5 de novembro de 2010

Alguém de boa fé é capaz de dizer que este menino não é o filho que qualquer mãe deseja?

Bom dia e uma canção

Em Cabo Verde, na sétima noite após o nascimento de um bebé, junta-se família e amigos (com um ou outro penetra pelo meio, que quer mesmo é comer à borla) e, à meia-noite, canta-se esta canção:

Ô rosto doce de odjo maguado,
Es bo cudado
Botal pa traz
Nhor Dés ta dano um bida de paz
De odjo maguado

Ná, ô menino ná.
sombra rum fuji de li!
Ná, ô menino ná,
Dixa nha fidjo dormi

Sono de bida, sonho de amor
Ou graça, ou dor,
Es ê nós sorte...
Se Deus, más logo, mandano morte,
Quem que tem medo
Ta morrê cedo.

Toma nha ombro, encosta cabeça
Já n'dabo peto,
Amá "ragaz"
Ô espirito doce, ca bo tem pressa
Deta cu jeito
Dormi na paz


5 de outubro de 2010

O novo homem do lixo

Esta noite, depois do Telejornal, voltará a vestir o casaco grosso e demasiado usado. Antes de sair de casa, beijará a mulher e sorrirá aos filhos que brincam no quarto. Sem palavras, abrirá a porta, acenderá a luz das escadas e chamará o elevador. Ouvirá, então, a velha cabine descer do sétimo andar. Com os pés na alcatifa gasta, pressionará o botão, escolhendo o caminho da rua.

De noite, pouco movimento. Três cães vadios a correr atrás de uma cadela com o cio, um carro a estacionar, uma rua inteira de prédios e gente silenciosos.

Sorumbático, apressado, atravessará a estrada, subirá a pequena ladeira, virando à esquerda antes da escola primária. Os Correios do lado direito e ainda o emudecimento por decreto. A papelaria, a loja vazia e o "arrenda-se" ressequido pelo sol. O talho, o café aberto e a telenovela da noite como cliente. Evitará olhar para o balcão.

Do lado de lá desta outra estrada, que cruzará sem ser na passadeira, olhará novamente em redor, à procura de solidão. Esperará que a luz do supermercado se apague. Ainda um pouco mais até que a última empregada saia. Dois minutos exactos. Cabeça baixa, escondendo a vergonha que lhe impuseram, "ajudai-me Senhor, porque eu sei o que faço", levantará a tampa do contentor.

Vive uma vida conjugada no futuro, de um presente adiado. Não se conformou, ajustou-se. Demasiado pequeno, demasiado insignificante, fará amanhã o que não pode fazer hoje. Ou então na próxima semana, na outra, num mês, em dois. Sabe-se esquecido, mas não se esquece do caminho para casa, onde regressará, com os restos da noite, no resto do dia, e servirá um alimento muito mais nutritivo do que as sobras que disputa, à vez, com outros que tais. Com a dignidade de um jantar em família, perguntará sobre o dia de escola, verificará se os trabalhos de casa foram feitos e prometerá, só para si, que melhores dias virão.

Fraquejará apenas na cama, longa insónia de ideias, ao pensar no disparate em que isto se tornou. Pensará nuns e noutros. Suspirará e depois, em sussurro, longe dele acordar alguém, mandará tudo e todos para a puta que os pariu.

12 de setembro de 2010

O circo de Carlos Cruz


Indignado, Carlos Cruz passou a última semana entre jornalistas, dando entrevistas e aparecendo em tudo quanto é órgão de comunicação social do país.

Em todas as aparições, além de jurar a pés juntos a sua inocência, houve um outro denominador comum no discurso: a vitimização por, alegadamente, ter sido sempre ele o escolhido pelos media, de cada vez que era preciso ilustrar uma notícia a propósito do processo Casa Pia.

No entanto, aquilo que Cruz lamenta é também resultado do seu próprio comportamento ao longo dos últimos anos de julgamento e já antes, nas fases de investigação e instrução. O ex-apresentador nunca se inibiu de fazer aparições públicas ou justificar-se nas páginas dos jornais, nos microfones da rádio ou perante as câmaras de televisão. A linguagem e o ritmo da comunicação, que conhecerá como poucos e que agora condena, foram e continuam a ser o seu palco privilegiado.

Carlos Cruz expôs-se como ninguém. Não bastassem os minutos de antena e as páginas impressas, criou um site, suscitou a sua visita, usou-o para chamar a opinião pública à sua causa.

Se é legítima e consciente a estratégia utilizada, é mais criticável que, usando-a, venha agora tentar moralizar os jornalistas, acusando-os de terem feito do caso de pedofilia, o "Caso Carlos Cruz". Além de que, para denunciar a sobre-exposição, expõe-se ainda mais.

Tudo é estranho no dossier Casa Pia. O tempo que demorámos a chegar aqui e, mesmo chegados, os dias que são precisos para se conhecer a versão final e completa do acórdão do colectivo de juízes. Problemas de compatibilidade são, digo eu, um utilizador regular de diferentes processadores de texto, argumentos pouco válidos. A não ser que tenha sido utilizado um software soviético, do tempo da Guerra Fria, a comunicação entre programas resolve-se, hoje em dia, com um simples "save as" no formato correcto.

Estranho não é, contudo, que Carlos Cruz seja o epicentro do circo que ajudou a montar. Bem vistas as coisas, talvez nós, jornalistas, pequemos por excesso, sim. Sedentos de notícias e perante um 'easy going guy', esquecemo-nos do essencial: a justiça condenou-o e não seremos nós a absolve-lo.

9 de setembro de 2010

Ordem de expulsão

Como emigrante (ou imigrante, consoante o ponto de vista) que sou, indignam-me comportamentos indignos como os de Sarkozy e do Governo francês contra os cidadãos de países estrangeiros, alguns até naturalizados.

Sejamos francos: de ciganos, ninguém gosta. E não há grande mal nisso, porque é justo não gostar de quem não gosta de nós. A integração de uma comunidade só acontece, por mais programas e políticas inclusivas, havendo vontade própria. Agora, usar uma minoria como arma de arremesso contra sondagens desfavoráveis e fazer da ciganada um argumento para ganhar votos é até um pouco repugnante.

Em Portugal, o ideal era corrermos, não só com os ciganos, como também com os pretos, os ucranianos, os chineses e os brasileiros. As brasileiras podiam ficar, porque têm fama de acrobatas na cama.

No essencial, somos tão intolerantes quanto grotescos e lidamos mal com a diferença. Do que gostamos é de conservar a linhagem, mas se calhar o nosso avô devia ter pensado nisso antes de ir para Angola fazer um filho à criada que tinha em casa.

Numa coisa somos muito parecidos com os franceses: eles e nós, estúpidos como poucos. O que nos distingue é que, agora, eles têm coragem de fazer aquilo que há tanto tempo desejamos.

Puro sangue, nos dias que correm, só os cavalos e apenas porque crescem em cativeiro. A mistura, a mestiçagem e o regabofe genético fazem parte da condição humana e a história já nos devia ter ensinado que selecções raciais dão sempre mau resultado.

O José Falcão, da SOS Racismo, disse-me certa vez que prefere os xenófobos e os racistas que dão a cara. Também eu. Pior do que um francês atrevido, só um português de falinhas mansas, como aqueles que - e nunca me vou esquecer disto - num inquérito que fiz no oitavo ano, me responderam que "racista? nem pensar", para logo a seguir garantirem que jamais beijariam alguém de outra cor.

7 de setembro de 2010

Comentódremo

O país que somos, português como nós, está já ali, por ventura como em nenhum outro sítio, nas caixas de comentários online.

O mais que as redes sociais nos mostram, para lá da libertinagem a que todos nos propomos (e venha daí a treta da privacidade, "oh Facebook, que isso não se faz"), é o acto margoso de percebermos, valha-nos quem valer, que, espremidos, somos mais secos do que as laranjas que vendem no Mindelo.

Para todas as notícias, o português tem uma opinião. Mesmo que não faça ideia do que é ter opinião, ele comenta. Com a facilidade de escrever uns disparates e clicar no 'enviar', destila o veneno da sua essência e mostra ao mundo o quão merdoso consegue ser.

Revolta-se. Sentado na sua secretária, no escritório onde lhe deram um emprego precário, mal pago e bem descontado, refila, vocifera, enerva-se e indigna-se com os políticos - esses filhos da puta - com os empresários - esses caciques - ou com os jogadores da bola - grandes vaidosos, que só querem é ganhar dinheiro para comprar grandes carros, relógios de diamantes e comer mulheres mais bonitas que a gorda que tenho em casa e que esta noite me vai servir, pela terceira vez esta semana, e ainda a semana só tem três dias, massa com carne. Ao menos rapa esses pelos, caralho!

E quando a notícia não é sobre estes, aqueles ou os outros, revolta-se contra o jornalista que a escreveu: "mas que raio de merda é esta? Estes jornalistas são do pior que temos", diz o vendedor de tintas Robbialac, eleita marca de excelência do Readers Digest.

Danadinhos, andamos mas é todos a ter uma vida fraquinha, fraquinha, sem eira nem beira, de aperto em aperto e de cuspidela em cuspidela, como se nos servisse de muito sermos os maiores da escarreteira. Das 9 às 5 é contra tudo e todos. Depois, uma hora extraordinária bem passada - que ninguém nos vai pagar - quando desligamos o computador - isto hoje é que foi trabalhar - passamos pela sala do chefe e cá vai disto "que se não precisa de mim, senhor director, vou indo, para ver se ainda apanho o comboio das 6 e meia".

Não sei se foi sempre assim, mas algures na nossa existência colectiva virámos estes seres híbridos: aborrecidos e desanimados com a vida, enquanto incapazes de fazer qualquer outra coisa, a não ser comentar. Send.


11 de agosto de 2010

Cancros

Do que eu tenho medo é de acabar assim. Não é a morte que eu temo, só a sua imprevisibilidade e no que toca a inesperado, o cancro é a mais prodigiosa das doenças.

Quando sabemos que o temos, porra, achamos logo que estamos fodidos. A seguir, o bicho dá-nos esperança e, por uns tempos, chegamos a acreditar que o assunto está arrumado, resolvido e guardado na gaveta das más recordações, ao lado das meias velhas que, apesar de já não usarmos, somos incapazes de deitar fora. Finalmente, o tipo volta, às vezes depois de anos em paz dos anjos. Regressa para, implacável, ao jeito de um vilão em filme de série B, dar cabo de nós. Em dias, puf, já fomos.

Custa-me a entender esta maneira de ser, porque, se é para matar, que mate de uma vez. Se é mau demais, se não tem cura, não vale a pena ter esperança, que seja bravo o suficiente para resolver o assunto em meia dúzia de horas. Preferia assim. Poupava-se na esperança, no sofrimento e no erário.

De tanto andar na boca da gente, o cancro tornou-se, no fundo, um de nós. Um tipo cheio de manias, idiossincrasias e obstinações.

Um cancro indeciso, é uma atrapalhação. Ora estamos mal, ora estamos bem, ora um espectáculo, ai que ando de rastos. Foi precisamente assim que se passou com as pessoas que conheci, que tiveram cancro e já nos deixaram desta para melhor.

A minha tia Teresa - acho que nunca a chamei pelo nome próprio - começou com um nódulo inchado: preocupei-me. Operou: fiquei descansado. Descobriram a origem maligna: preocupei-me. Tirou os ovários e o útero: fiquei descansado. Descobriram metástases: preocupei-me. Fez quimioterapia: fiquei descansado. Os valores tumorais voltaram a subir: fiquei preocupado. Fez um tratamento na Alemanha: fiquei descansado. As metástases chegaram aos pulmões: fiquei preocupado. Drenou o líquido: fiquei descansado.

Não sei como é ter um cancro na primeira pessoa, mas sei como é te-lo na terceira. Ao fim de seis anos, quando nos habituámos aos seus altos e baixo e dominamos, longo caminho, toda a linguagem oncológica, eis que os intestinos param, os outros órgãos seguem-lhes o exemplo e começam a entrar em falência. Num ápice, estamos cheios de dores. E até aí, estúpidos - ou humanos, só isso - acreditamos que duplicar a dose de morfina só significa duplicar a dose de morfina.

Então, drogados e anestesiados, na primeira e terceira pessoas, partimos, com e sem dor, encharcados de incredulidade Conjugamos o verbo no plural. Eu, tu, ele, nós. Morremos todos ao mesmo tempo. Morremos um pouco, pelo menos. Até o cancro morre.

Levantamos as mãos ao céu e pedimos a Deus Nosso Senhor que, justo agora, grande cabrão, nos deixe descansar em paz.

13 de julho de 2010

O tudo mais sobre a paixão que o Google não nos diz

E se conseguíssemos mesmo 'googlar' o que alguém sente por nós? Se pudéssemos prever se a nossa mais louca paixão - "ai que eu nunca me senti assim"; "nunca estive tão apaixonado por ninguém" - é correspondida? O que é que fariam se dos génios criativos de Larry Page e Sergey Brin saísse uma forma de nos poupar ao sufoco de ficar minutos, horas, dias intermináveis à espera que o novo "amor da minha vida, agora é que é para sempre, agora é mesmo", nos diga alguma coisa?

Não precisaríamos de nos fazer difíceis, evitaríamos jogar e fingir que não se passa nada. Dormiríamos melhor, estudaríamos e trabalharíamos mais concentrados. Saberíamos, à partida, se o investimento será (seria) ou não recompensado. Pouparíamos vergonhas, embaraços, desilusões, saídas de fininho, dores de cabeça, de dentes e de coração. Caramba, voltaríamos a ser donos e senhores das nossas emoções e esquivar-nos-íamos a expressa-las por aí, ao Deus dará, contra tal "filho(a) da puta, cabrão(a) de merda, camelo(a), dromedário(a), bode, cão, cadela, cavalo e cavala", que embora peixe vai bem na sequência, que insulto é insulto.


Mais: com rigor, terminaríamos uma relação no tempo exacto, no "acabou", porque não haveria dúvida ou esperança que subsistisse ao 'search'. Racionalizaríamos muito mais a vida dos afectos. E, foda-se, daríamos cabo de nós.

Paixão que é paixão tem sofrimento, sangue suor e lágrimas. Agonia, palpitações e variações. Unhas roídas, lápis partidos. Ataques de fúria, gritos, mudez, surdez e até comichão.

A paixão tem de ser trágica: "mas tu não entendes que és único(a)?". Tem de ser dúbia: "o que é queres dizer com isso?". Tem de deixar espaço para a incerteza. Não cabe no 'sinto-me com sorte', porque às vezes é azar.

Uma paixão, daquelas que excitam só de pensar e que tiram a fome para logo depois a devolver como se minguássemos há quinze dias, precisa de fazer suar a palma das mão nervosa e perdida. E precisa de ser escrita em prosa, em verso, quadras pirosas, sonetos horríveis, com rima cruzada, emparelhada, interpelada ou solta, para melhor se levar.

Paixão, 'paixãozona', grande, enorme - ou pequenina, pronto - tem de acabar bem, tem de acabar mal, tem de nunca acabar, para a vida, para o verão, para a tarde, para o tempo que demorar a beber este café: "vá lá, olha para mim, olha, olha, olha. Olá. Credo"

A paixão tem de nos fazer sofrer para, desta vez ou da próxima, nos fazer imensamente felizes, capazes de morrer já aqui, porque, afinal, já estivemos no único lugar onde queríamos estar.

A imagem que deu a ideia foi pescada aqui.


9 de julho de 2010

O Chato*


Como toda a gente, também tem noites más que se seguem, quase sempre, a dias não muito melhores. Nessas noites, ao invés das outras, vai até à varanda. Segura a cerveja numa mão e na outra o cigarro.

Não sendo um grande fumador - o homem não fuma de todo, a não ser nessas noites, digamos, más - preocupa-se pouco com a marca do que leva à boca. Não tem tiques de fumador, não trava e nunca sabe ao certo qual a melhor altura para, num gesto que se esperava seguro, diminuir a cinza do tabaco queimado.

Na sua visão romântica, fumar um cigarro deveria obedecer a todo um ritual. Caramba, não sabendo aquilo a nada, enquanto aceso, deixando a boca a saber a merda, no final, ao menos que seja cerimonial. Mas afinal, até porque já o dissemos, ele não é grande fumador, acaba o cigarro e fica a pensar que o fez demasiado depressa.

Se bem se lembram, contudo, na outra mão - direita, porque fuma com a esquerda - tem a garrafa de cerveja. Não voltará para dentro, deixando sózinha a varanda, a vista limitada pelos prédios altos, e o burburinho das 22 horas, sem acabar os 25 centilitros de água com cevada que, ao contrário de outras coisas, nas quais não é particularmente exigente, tem marca certa e temperatura ideal.

Não o tomem por bêbado. Na realidade, não estivessem estas noites assim tão quentes e teria ido refrescar as ideias só com o cigarro mal fumado.

O problema é que cresceu demasiado depressa e demasiado sozinho. Não se lembra ao certo do que é que andou a fazer até aos dez anos, mas sabe que foi com essa idade que se sentou pela primeira vez a ver um debate na televisão. Azar o seu: muito mais do que os Power Rangers, aquilo é que era animação. Ao virar da sua primeira década de existência deu o passo que o tornaria um chato para o resto da vida.

Por isso, daqui a pouco, quando hesitar entre levar a garrafa para a cozinha ou atira-la para a rua e ver o espectáculo do vidro partido no passeio - Rosseau, não te quero contrariar mas, esta noite, de bom selvagem, este sujeito não vai ter nada - aperceber-se-à que o facto de ter tamanha dificuldade em fazer amigos e, acima de tudo, relacionar-se com pessoas do sexo oposto, é consequência, em grande medida, daquele fatídico frente-a-frente entre Soares e Freitas, em 1986.

Ainda falta um bocado para esse momento. Por enquanto, o pobre coitado - assim curvado, debruçado à procura de um rabo de saias, parece mesmo um infeliz, miserável - só pensa em como é aborrecido viver sozinho no quarto andar de um prédio dos subúrbios da capital, de onde fugiu a tempo de evitar a ordem de despejo dada por um senhorio lógica e justificavelmente enfurecido. E não fosse o apetite voraz da empregada do Pingo Doce - nunca o mundo conheceu uma caixa de supermercado com uma libido em tal estado de sítio - e o tráfego mensal de Internet esgotar-se-ia ao dia dez.

Quando tem as suas noites más, as tais que se seguem a dias não muito bons, é isto que ele faz. Nas outras, as não tão más assim, fica na sala, de comando na mão, absolutamente satisfeito com o que a televisão digital tem para oferecer. Felizmente, isso está prestes a mudar.


* Por favor, não me estou a retratar.