14 de março de 2011

Ainda sobre a manifestação (o rescaldo)

A manifestação de sábado foi um sucesso. Um sucesso porque fez largos milhares de portugueses trocar uma tarde de centro comercial ou de passeio saloio por umas horas de luta e isso, para todos os efeitos, é uma história que merece ser contada.

Claro que se sucederam os comentários a tentar desvalorizar o que aconteceu em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o país (até na Madeira, caramba). Faz parte. Faz parte haver quem  até ache que está tudo mal, mas não esteja disposto a dar o corpo ao manifesto. Quem espere que o país melhore, mas prefira que sejam os outros a cuidar do seu descontentamento. Depois, enfim, há também aqueles para quem é bom que tudo fique como está.

Dos dois grupos, só o primeiro é que me chateia. Enfurece-me gente comodista. São esses, os que, sempre cheios de retórica, preferem ficar no passeio, a ver o cortejo passar, só para depois terem o que dizer ou escrever, que inspiram a classe política, os empresários e os gestores a fazerem de nós, comuns mortais, pouco mais do que lixo.

O povo tem uma força imensa. E o povo não precisa de mais conteúdo do que aquele que existe na vontade de mudar. O desejo da mudança é quanto baste. Para descer a avenida, não é preciso um programa de governo, uma política alternativa, um rumo definido. Basta a ambição de um país diferente. Desde quando cabe ao povo a missão de governar? O 'não quero mais disto' tem de bastar.

Não sair à rua é esconder o descontentamento. Argumentar que os manifestantes são incoerentes e inconsequentes, é ceifar-nos a capacidade - o direito e o dever - de sonhar. 

Quando o povo se resigna, como muitos de nós nos resignámos, é a Nação que está  em risco. Portugal é nosso. Se o queremos, temos que o resgatar. Precisamos de um novo rumo, precisamos de novos políticos e de novas políticas. Foi este o recado que deixámos dia 12. 

Talvez ninguém faça caso disso. Talvez. Talvez devêssemos ser menos doutores e engenheiros. Talvez. Menos aristocratas, burgueses e armados em gente fina. Até seria bom se muitos tomassem banho mais vezes por semana.

O que eu sei é que, às vezes, lutarmos por nós próprios, individual ou colectivamente considerados, não tem mal nenhum. Pode até fazer muito bem. Se isso implica ler e ouvir o que talvez não devesse ter sido escrito ou dito, pois que assim seja. Haverá sempre quem não perceba que da diferença e da incoerência também podem nascer coisas boas.

10 de março de 2011

Estivesse em Portugal e iria à manifestação de Sábado. Iria porque sim. Porque qualquer protesto, qualquer acto que implique levantar o rabo do sofá, merece ser apoiado.

Incomodam-me sempre aqueles que, como Miguel Sousa Tavares - mas como tantos outros, feitas as contas - olham para a iniciativa do próximo fim-de-semana, não só com desdém mas também com sarcasmo e menosprezo.

Certo, o que se vai passar em Lisboa (e ao que parece noutras cidades do país), dificilmente será um 25 de Abril ou um 1º de Maio de 74, mas ainda assim, desvalorizar ou satirizar aqueles que decidem fazer uso do seu direito ao protesto e à indignação parece-me uma atitude muito saudável.

Portugal é o país do comentário. Português que o seja tem uma opinião formada sobre tudo. Aliás, basta vermos a capacidade incrível que os nossos comentadores de televisão têm para falar sobre todo e qualquer assunto (quase tão curioso como o facto de serem, quase todos eles, jornalistas). Comenta-se de mais e faz-se de menos. Claro, é mais fácil estar sentado, a gozar o prato e a aproveitar o palco mediático.

Li o que escreveram os organizadores do protesto de dia 12. Não há ali nada de novo. Falta até alguma coerência. Preferia que fosse diferente, mas então? Querem ver que os partidos têm feito melhor. As greves da CGTP contra "as políticas do governo" têm mais sumo, é isso?

Agora são - ou somos - os Deolindas. Os opinadores já rotularam esta massa de gente sem ideias e sem ambição. De facto, a geração que nos antecede está cheia de razão, querem ver. E que triste que é ver uma sociedade em que os mais velhos - amplamente responsáveis pelo nosso triste estado - ridicularizarem os mais novos (o contrário também é válido).
 
Todos, pela nossa apatia intrínseca, temos a nossa responsabilidade pelo lugar até onde trouxemos Portugal. Fizemos do nosso país um país amorfo, sem um rumo e sem motivação. Engaram-nos, deixámos que nos enganassem e gostámos de estar enganados. Domingo vamos acordar iguais. Na segunda teremos esquecido tudo e voltaremos à vidinha mundana e sem sentido em que nos tornámos doutores. Para recomeçar, é preciso dar o primeiro passo. Que seja assim, que seja Sábado, se não puder ser de outra forma.

22 de fevereiro de 2011

Que parvos que somos

Sou da geração a que se refere a música viral dos Deolinda. E embora seja daqueles que fez questão de a partilhar nas redes sociais, olho para ela com a desconfiança própria dos que já não têm esperança nenhuma em si próprios, individual e colectivamente considerados.

Ninguém me tira da ideia que o facto de "termos" escolhido como hino uma canção que, no fundo, nos descreve como uns sujeitos passivos, absolutamente confortáveis com a merda que nos rodeia, dá a nossa respeito uma imagem de seres amorfos que, revolucionários fossemos, quereríamos, isso sim, afastar.

Mas somos uns pacóvios, não é? Somos tão geneticamente conformados que aplaudimos de pé e entramos em histeria quando alguém canta "sou da geração sem remuneração e não me incomoda esta condição". Aplaudir é gostar, gostar é identificar-se e nós, ao que parece, identificamo-nos com quem nos revela quão parvos somos por termos a sorte de poder estagiar.

"Sou da geração casinha dos pais, se já tenho tudo, para quê querer mais?", perguntam-nos, com toda a propriedade. Os nossos pais (não os meus ou os vossos em particular, entenda-se) deram cabo disto. E nós agradecemos-lhes com uma vénia à estupidez.

A música dos Deolinda não é um incentivo à luta, à resistência, ao protesto. A canção da Ana Bacalhau (e haverá algo mais português que o bacalhau, mesmo que da Noruega?) é apenas a descrição exacta daqueles para quem ela canta. E "gostamos disso". Somos bobos e achamos piada.

Por isso, ao olhar para as reacções que se seguiram à divulgação na Internet dos vídeos manhosos, gravados em telemóvel, durante os concertos nos coliseus, fico ainda mais preocupado. Como se já não bastasse sermos moles, agora também somos burros. E pergunto-me, em que altura da caminhada para a vida adulta nos foi dito que não vale a pena ter juízo crítico sobre as coisas?

Na Tunísia, no Egipto, na Líbia, as pessoas saem à rua e reivindicam que os seus países lhes sejam devolvidos. Em Portugal, entretemo-nos a fazer revoluções nas caixas de comentários dos jornais on-line ou nos blogs, em textos como este.

Quando um dia formos nada e os nossos filhos nos perguntarem o que é que fizemos para mudar o nosso destino, o mais provável é que tenhamos vergonha de lhes responder. Aí, como agora, encolheremos os ombros e seguiremos caminho, fingindo que não se passa nada.

Somos fracos e temos o país e os políticos que merecemos, porque iguais a nós. Em dias como o de hoje, tenho muita pena disso. Tenho muita pena mesmo.

10 de fevereiro de 2011

Tempo

Há dias, numa mesa com amigos, alguém se virou para mim e proferiu a derradeira sentença: "tu és um homem com certezas, sabes bem o que queres da vida". Ali, sem apelo nem agravo, numa única frase, tentou-se definir aquilo que sou. Ainda arrisquei contra-argumentar, contudo, perante tamanha clarividência, desisti.

De facto, sou tudo menos "um homem com certezas". Aceito, tenho uma vaga ideia do percurso que gostaria de percorrer, mas, tirando isso, não sou capaz de afirmar o que devo ou devem esperar de mim.

Seria um disparate pensar que, aos 28 anos - sim, é só essa a minha idade - poderia ter a vida projectada. Nada disso. Aliás, quanto mais experiência tenho, mais ridícula e desnecessária me parece a pretensão de planear o que pretendo fazer (planear o que quer que seja).

Perdemos muito tempo em conjecturas. Gastamos demasiadas energias - e caímos em demasiadas depressões - porque estamos sempre na expectativa. Claro que devemos ter metas. Eu tenho-as. São objectivos e sei que grande parte deles acabarão por se revelar meras ilusões. E isso é bom, até porque, geralmente, o que nos sobra em racionalidade, falta-nos em fantasia. Procuramos inteligir tudo e abdicamos do prazer que nos proporciona a espontaneidade.

As melhores e mais importantes coisas que consegui resultaram do inesperado. Não planeei ir para Angola e quando dei conta estava lá. Algum tempo depois surgiu a possibilidade de vir para Cabo Verde e bastaram dois - sim, dois - e-mails para ter a certeza de que era mesmo isto que me apetecia fazer.

Às vezes dou por mim num grande sufoco, ansioso, sem um motivo em especial. Depois paro e percebo que estou apenas na expectativa. Expectante, nem sei bem de quê. Apenas assim.

Tudo é tão volátil - os empregos, as relações - porque é que temos de procurar ser tão definitivos connosco próprios?

Não me interpretem mal, sou um homem persistente e de compromissos. Assumo-os e levo-os a sério, sejam eles profissionais ou pessoais. Acontece que li há pouco tempo o livro Travessuras da Menina Má e percebi que, em certa medida, há qualquer coisa em Ricardo que me diz muito respeito. Uma vida inteira preso a uma ilusão, à espera de algo que só chega cinco décadas depois, tarde demais.

Não falo de mulheres, falo de tudo o resto (e também delas, porém). Não sei se foi pela conversa, que de alguma forma me chateou, pelo livro, por este post, ou apenas por culpa do vento que está a fazer abanar as janelas e a atirar com o lixo para o ar, mas hoje estou capaz de vos jurar que não há nada na puta da vida que justifique que a deixemos em suspenso enquanto esperamos que aconteça.


7 de fevereiro de 2011

O pós-eleições em Cabo Verde


No rescaldo das eleições legislativas em Cabo Verde, algumas linhas sobre o que poderão ser os tempos que se seguem.

No topo da agenda do PAICV está, por enquanto, a formação de um novo governo. José Maria Neves irá certamente aproveitar a oportunidade para trocar alguns ministros e, provavelmente, recolocar outros. A mais importante substituição, não anunciada, mas há muito percebida, é a de Inocêncio Sousa. O ministro das obras públicas vai avançar para a corrida à Presidência da República e deixa a pasta das Infraestruturas em aberto. A substituição de Inocêncio é delicada, pois ele dava corpo à ala política do elenco governativo.

Na atribuição de lugares, o presidente do partido ganhador, reeleito Primeiro-Ministro, terá de gerir e conciliar as vontades de uma corrente 'tambarina' mais moderada (da qual faz parte) e de outra mais radical (com a qual tem de conviver).

Nos primeiros meses da nova legislatura, o principal desafio será a elaboração e aprovação do Orçamento de Estado para 2011. Recorde-se que, fruto das eleições, o país vive, desde 1 de Janeiro, no sistema de duodécimos e precisa de um Orçamento em vigor no menor espaço de tempo. O facto dos eleitores terem optado pela continuidade política deverá ditar um encurtamento dos prazos, pois não é de esperar um documento estrategicamente diferente - nomeadamente ao nível dos investimentos públicos - daquela que tem sido a linha dos últimos dez anos.

Ao começar um novo mandato, o Governo de José Maria Neves terá um duplo desafio macroeconómico e cinco anos para o resolver. Baixar o nível de dívida pública para valores que não comprometam a viabilidade do Estado cabo-verdiano no médio e longo prazo e, ao mesmo tempo, diminuir o défice orçamental. Um e outro indicadores estão definidos no acordo de paridade cambial que o país mantém com a União Europeia e Bruxelas, a braços com o processo de reequilíbrio das contas públicas dos estados-membros, não deverá estar disposta a aceitar o incumprimento do que está estipulado.

Do lado da oposição, ao segundo maior partido, o desafio que se coloca é, desde logo, clarificar a questão da liderança. Primeiro, perceber se Carlos Veiga tem condições para continuar e, segundo, saindo, que figura estará à altura de o substituir.

A imagem do líder histórico 'ventoinha' está agora associada a três derrotas seguidas e isso tem implicações ao nível do seu crédito político.

O MpD, para ser uma oposição credível e afirmar-se como uma alternativa ao PAICV (e é importante que o seja, para garantir um equilíbrio democrático indispensável ao correcto funcionamento do sistema) precisa de clarificar o rumo que pretende seguir e começar a trilha-lo desde já.

Os projectos políticos fortes, consistentes, nos quais os eleitores aprendem a confiar, demoram anos a cimentar-se. Assim acontece também com os líderes.

Um eventual substituto de Carlos Veiga, deverá estar no Parlamento - ou seja, ser alguém do novo grupo parlamentar. A oposição extra-parlamentar é complicada, mais ainda num país com as características de Cabo Verde. A Assembleia Nacional é o principal palco de debate e de confrontação de ideias e o único local onde, de forma regular, o líder da oposição pode confrontar o Primeiro-Ministro.

Finalmente, a UCID. António Monteiro colocou a fasquia muito alta e por isso a sua derrota, apesar de conservar o mesmo número de deputados, acaba por ser à dimensão da sua ambição. Do resultado do escrutínio percebe-se que o partido continua a ser eminentemente regional, com alguma expressão em São Vicente, mas com dificuldades de penetração noutros círculos. Para crescer, e ser o tal fiel da balança a que se propõe, terá de aproveitar o caminho até 2016 para conquistar novos eleitores e ganhar consistência eleitoral.

Os partidos da oposição tendem a viver para as eleições. Isto tem custos. Quem não tem, como não têm o MpD e a UCID, a máquina do Estado ao seu lado (e não me interpretem mal: as coisas são mesmo assim), não pode esperar pelos meses imediatamente antes de uma ida às urnas para apresentar um projecto, dá-lo a conhecer às pessoas e esperar que elas confiem nele.

Salvo em condições circunstâncias muito específicas, quem está no poder parte sempre em vantagem. E desmontar a retórica de quem se pode basear em conquistas, sejam elas muitas ou poucas, requer tempo, paciência e muita dedicação. Infelizmente, virtudes que escasseiam na vida política dos nossos dias.

3 de fevereiro de 2011

Autópsia ao(s) candidato(s)


As campanhas eleitorais são períodos especialmente ricos em episódios, instantâneos e casos. Habitualmente, os partidos e os candidatos endurecem o discurso e, à medida que se aproxima o dia das eleições, tendem a radicaliza-lo ainda mais. Nunca faltam revelações, contradições e manipulações. Como jornalista, gosto deste tipo de discussões.

Agora, aquilo de que eu gosto mesmo numa campanha é do papel a que algumas pessoas se prestam. Numa lista existem sempre várias categorias de pretendentes ao poder.

Primeiro, aqueles que lá estão por verdadeira convicção. Na sua maior parte, políticos com experiência e mais ou menos reputação (boa ou má, entenda-se). Quanto a esses, exceptuando os mais caricatos (pela aparência ou veemência do discurso), nada a dizer. Já todos os conhecemos.

Seguem-se os obrigados (mas não necessariamente forçados). Quanto mais partidarizada é uma sociedade, mais espécimes destes se encontram nas listas, especialmente do partido que está no poder. São gestores de empresas ou institutos públicos, gente da administração local ou do Estado. Enfim, pessoas que, com ou sem competência para os cargos que ocupam, não podem correr o risco de dizer que não a um "convite" do partido.

Jogam em duas frentes: em caso de nova vitória, garantem o tacho que ocupam (ou até, na loucura, uma promoção); se houver uma reviravolta, têm poiso assegurado num órgão de poder. Se não lhes conhecemos o rosto, podemos indentifica-los pela cara de tédio com que participam em qualquer actividade. Levantam a bandeira a contra-gosto, aplaudem sem convicção e olham ciclicamente para o relógio.

Finalmente, aqueles de quem mais gosto: os estreantes. Militantes ou "independentes" (também gostos muito de "independentes"), fazem a sua gloriosa estreia na vida política activa. A maior parte está num lugar não elegível e então passam quinze dias a desejar que aconteça alguma coisa aos  colegas. Na ilusão, deliram. Quando sobem ao palco nos comícios acham-se logo figuras públicas. Enquanto os bêbados da primeira fila jogam piropos, eles dançam, pulam, improvisam coreografias e esperam, esperam com muita, muita força, que alguém repare neles. Se o presidente do partido estiver presente então aí ninguém os segura. E se por acaso alguém lhes pede para falar, ficam a instantes de um orgasmo. Apelam às suas origens humildes, recordam como, também eles, são do povo e como, no dia da sua eleição, vão fazer tudo, mas tudo, para trazer um bebedouro para a praceta onde, enquanto crianças, costumavam jogar ao berlinde.

20 de janeiro de 2011

38 anos depois de uma traição

“Tu vives – mãe adormecida / nua e esquecida / seca / fustigada pelos ventos / ao som de músicas sem música / das águas que nos prendem” . Os versos foram escritos pela mão de Cabral, na cidade da Praia, algures no ano de 1945. Por essa altura, Amílcar estaria prestes a deixar Cabo Verde em direcção a Lisboa.

O rapaz, nascido em Bafatá, na Guiné-bissau, a 12 de Setembro de 1924, cedo descobriu a vida de viajante. Ainda criança, trocou a África continental pelo arquipélago vizinho e foi no Mindelo que, em 1943, completou o liceu.

No Instituto Superior de Agronomia, em Portugal, forma-se e aprende a ciência de trabalhar a terra. Feito um estranho alquimista, sonha com dois países unidos, como “um clamar aos ventos que passam / e às aves que voam livres”.

Quando, em 1952, regressa à Guiné e pisa o chão de um país cuja história ajudaria a escrever, talvez não imaginasse que o seu caminho ficaria para sempre associado ao nascimento de duas nações independentes.

Ter-se-á disso apercebido o governador da então colónia portuguesa que, pouco disponível para os devaneios de um jovem de trinta anos, o expulsa em direcção a Angola. O exílio forçado serviu apenas para reforçar a convicção. O destino estava traçado. No MPLA aperfeiçoa o seu pensamento. A luta estava em marcha.

Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, os rostos de uma África portuguesa que se queria soberana, encabeçam um movimento que culminaria com a independência das colónias.

Conacri, 20 de Janeiro de 1973. O Volkswagen com dois ocupantes a bordo regressa à garagem da casa branca, de um único piso. Dois faróis e outros tantos perfis: Amílcar e a sua segunda mulher, Ana Maria. “Amarrem-no”, alguém grita na noite. No relógio, a hora: três da madrugada. O fundador do PAIGC resiste. Um disparo. Atingido no fígado, pede diálogo. A resposta: uma rajada de metralhadora. Traído pelos seus, cai por terra o líder histórico.

Amílcar Cabral foi um dos mais carismáticos líderes africanos. A sua acção não se limitou ao plano político. Ela foi também fundamental no campo cultural. Há 38 anos morreu o homem, o humanista e o poeta. Ficou o mito. E a poesia. “Ilha: teus montes e teus vales / não sentiram passar os tempos / e ficaram no mundo dos teus sonhos / os sonhos dos teus filhos”.



Publicado originalmente no Expresso das Ilhas n.º 477, de 19 de Janeiro de 2010

11 de janeiro de 2011

Vida secreta



De uma maneira ou de outra, todos temos uma vida secreta. Para lá da nossa imagem pública, mantemos um lado obscuro, secreto, que não revelamos a ninguém ou que insistimos em manter oculto das pessoas com quem mais coisas partilhamos. Não vale a pena, nisso somos todos iguais.

O que pode variar é a dimensão do segredo que guardamos do mundo. Ao olhar para o colega de trabalho que se senta duas secretárias ao lado da nossa, quem é que pode imaginar que, à noite, apesar dos seus 40 anos, ainda dorme com um pijama de ursinhos? E aquela outra que sonha em estar com uma mulher e até se inscreveu em mais do que um site de encontros? E a nossa mulher, os nossos filhos? O que é eles nos esconderão?

Da mesma forma, por mais resolvidos e determinados que sejamos, por mais certezas que tenhamos a propósito do nosso presente e vontades para o futuro, somos seres com passado. Carregamos, dos anos que já vivemos, personagens e histórias reais. Ninguém é completamente isento de um assunto que ficou por esclarecer, de uma amizade que deixou de existir ou de uma relação amorosa mal resolvida.

Muitas vezes, tentamos virar a página mas não nos dispomos a soltar as amarras que nos prendem ao capítulo que nos faz ficar acorrentados a um lugar ao qual, bem vistas as coisas, já não pertencemos.

Se o que nos prende é uma pessoa, o nó é ainda mais difícil de desfazer. Hoje em dia, a não ser pela morte, dificilmente perdemos o rasto a alguém. Se não é o telemóvel, será o email. Se não for uma ou outra coisa (quando não as duas), ainda temos o Facebook. No fundo, é como se o nosso passado estivesse ali, sempre disponível, com tudo o que de maravilhoso ele teve, até porque o tempo se encarregou de arrumar aquilo que, objectivamente, nos afastou daquele caminho.

Como na gramática, queremos mudar o tempo verbal das nossas vidas. Nunca dá certo. A história não se repete e o que foi não voltará a ser.

Não há uma fórmula que nos explique o que é que nos mantém presos a uma pessoa ou a um tempo. Temos os nossos motivos e serão tão válidos como quaisquer outros... pelo menos, à luz dos nossos critérios. Será falta de compreensão, infelicidade pela situação actual. Um suspiro, "naquela altura é que era bom".

Temos de ser consequentes com as nossas opções. Assumi-las, encara-las e defende-las. A não ser que nos tenhamos enganado (e só agora nos apercebamos disso), chafurdar nas memórias é não conseguir seguir em frente.

Como já escrevi, é um desperdício viver a vida pela metade. Como é que podemos aproveitar verdadeiramente o que temos hoje, se só pensamos no que tínhamos ontem?

Alguns dos meus piores momentos seguiram-se a hesitações, a quebras de confiança em mim próprio. Nessas alturas, vacilei e recuei. Fui à procura de coisas que já não existiam. De sítios onde me senti bem. Não há como evitar. É tão fácil perceber quando o sujeito não conjuga com o predicado.

Todos têm uma vida secreta e quase de certeza que não vamos gostar de conhecer o que de secreto os outros procuram ocultar. Todos temos uma vida secreta e alguns de nós andamos a ser consumidos por ela. Para nos libertarmos, o primeiro passo é termos vontade de o fazer. Estaremos interessados nisso?

7 de janeiro de 2011

23


Como dize-lo? Ao olhar para os candidatos a Presidente da República, a única coisa que me vem à cabeça é que são todos uma grande merda.

Por brincadeira, criei no Facebook, em Janeiro ou Fevereiro do ano passado, um grupo de "apoio à candidatura de Marinho Pinto à presidência da república". Disparate como era, a iniciativa acabou por resultar num grande fracasso e não convenceu mais do que 188 (número de hoje) pessoas. A julgar pelos comentários, também eles não em grande número, deixados no mural, a maior parte daqueles que se juntaram ao movimento fizeram-no, nem tanto pela seriedade (inexistente) da proposta que ali fiz, mas mais pela vontade de mudar o estado da arte.

Se o Marinho Pinto se tivesse candidato não votaria nele. As pessoas devem estar no lugar certo. E a algumas caberá apenas e sempre o papel de cornetas. Nenhum mal nisso. Pinto cumpre a sua missão justiceira com grande sabedoria. Faltar-lhe-à, eis o problema, algum poder de concretização: capacidade que, talvez por não o conhecer para lá das câmaras de televisão e de um encontro fugaz, longínquo no tempo, nunca lhe descortinei.

A verdade é que, não votando nele (no hipotético cenário de), também não vou votar em ninguém. Diga-se: vivendo fora de Portugal, nem sequer me recenseei, o que faz de mim um cidadão desprezível, aliás.

Cavaco irrita-me. Como pode um homem que é uma figura central da vida política portuguesa do pós-25 de Abril conservar ainda a postura de quem não tem nada a ver com a merda em que isto se tornou?

Alegre entristece-me. Há cinco anos, quanto votei em ti, paspalho, fizeste-me acreditar, estúpido eu, que apesar da tua história partidária conservavas o discernimento necessário para te afirmares como um homem acima das convenções. Afinal, não. Como se um partido não te bastasse, arranjaste dois! E que dois. Amigos que eles são, pá.

Fernando Nobre urtica-me (de urticária, percebem?). Então, andou meia vida a apregoar valores humanistas, solidários e de partilha e afinal era isto que ele queria? Talvez esteja a ser pouco justo, mas reconhecerão que andar a fazer campanha à custa dos desgraçadinhos que ajudou, como se a AMI fosse uma sociedade unipessoal, não me parece um grande exemplo. Para mais, reparem na quantidade de vezes que, em discursos, debates e entrevistas, Nobre se refere "à capacidade e disponibilidade para ouvir os outros", atributos que lhe terão dado "uma ampla compreensão do mundo e das sociedades humanas".

Francisco Lopes, Defensor Moura e aquele outro rapaz da Madeira, não me merecem, sequer, comentários. Lopes merece-me todo o respeito. Acompanhei de perto alguma das suas campanhas, enquanto candidato à Assembleia da República, mas não me consigo ligar a um candidato (realidade extensível a Moura e ao outro) que têm como único propósito - assumido e proclamado - forçar uma segunda volta. É que não me identifico com perdedores, embora alguns me partam o coração.

6 de janeiro de 2011

Assange


Continuo sem certezas a propósito do Wikileaks. Sem ser verdadeiramente inovadora - a divulgação de informações mais ou menos secretas é, no essencial, uma vertente fundamental do jornalismo - o site sueco introduziu como novidade o volume de documentos disponibilizados num curto espaço de tempo. São milhares de páginas, sem qualquer tipo de tratamento, sujeitas apenas ao escrutínio de quem se der ao trabalho de as ler.

Curiosamente, o impacto directo do Wikileaks é muito reduzido. Quantos de vocês já foram ao portal e fizerem, por livre iniciativa, uma pesquisa ao conteúdo que está 'em linha', acessível a qualquer um de nós? Julian Assange precisou - e sabendo disso contactou, desde logo, quem melhor sabe do seu ofício - dos meios de comunicação social, no sentido convencional do termo, para estes fazerem, em primeiro lugar, o trabalho de filtragem que não tinha sido feito, e, em segunda instância, seleccionarem, mediante critérios editoriais (que valem o que valem), o que constitui ou não notícia.

Pessoalmente, enternece-me o facto de terem sido jornais (e não canais de televisão) a assumirem a empreitada inaugural que antecedeu a divulgação dos primeiros documentos.

Não me surpreende a resposta da generalidade da sociedade das nações, com especial destaque para o tradicional orgulho ferido dos Estados Unidos que, com soberba iniciaram já o seu terrorismo diplomático que serve, apenas, para desviar a atenção do essencial: durante anos, responsáveis políticos e militares do seu país cometerem crimes hediondos, sem qualquer respeito pelo direito internacional, do qual fizeram, como quase sempre no passado, tábua rasa.

A grande maioria dos documentos tornados públicos são pouco mais do que embaraçosos. Mostram linguagem imprópria de embaixadores que se deveriam poupar a determinados juízos de valor. O que mais interessa é, por isso mesmo, a minoria escondida que aos poucos, como uma tortura para quem vê o seu lado lunar esmiuçado até às entranhas, vai vendo a luz do dia.

Numa altura de crise financeira internacional, em que o centro do mundo é deslocalizado para oriente, e em que ganha consistência um eixo sobre o qual nós, ocidentais, pouco sabemos, a machadada infligida pelo nada inocente Assange poderá ter sido fatal para o paradigma vigente deste do fim da guerra fria.

Custa-me a acreditar que, daqui por diante, algo de significativo mude na forma de fazer a política e a guerra. Mas durante muitos anos uma variável permanecerá diferente na forma como os actores globais olham para os norte-americanos. Como num casamento tocado pela traição: eu dou-te uma segunda oportunidade, mas sabes que nunca mais vou confiar em ti da mesma maneira.