25 de abril de 2011

Nós, a montanha e o mar

 « O sol das 11 horas é quente. O Hiace não vai cheio e no seu interior são quase todos turistas. A viagem desde o Porto Novo é rápida e inclui uma paragem, pouco antes da localidade de Janela, para uma curta sessão fotográfica. O cenário é perene e ergue-se imponente à vista de todos. A montanha e o mar. Ouve-se um "ah", seguido de um "uau", rematado com o definitivo "incroyable [incrível]", indício da eventual nacionalidade dos companheiros de viagem.
"Français? [francês]". "Oui [sim]". Raphael veste caqui. A aparência não ilude. Está ali para caminhar e se dúvidas restassem, o próprio cuida de as esclarecer rapidamente (...) »


Uma reportagem feita em Santo Antão, para ler no Marcha dos Pinguins - Trabalho, o nosso vizinho do lado.

A crise também somos nós

Se excluirmos o Benfica, tudo o resto que vai além da nossa vida individual ou familiar interessa-nos pouco. Se nem o nome do vizinho da frente sabemos, quanto mais preocuparmo-nos verdadeiramente com o estado do país. E preocupar não significa mandar umas bocas no café ou à volta do bebedouro no escritório. Preocupar é fazer parte. É manter uma participação cívica activa. 

Não será por acaso que, em todo o mundo, as democracias mais avançadas e aquelas em que os políticos mais respeitam a coisa pública e, por inerência, os cidadãos, são as mesmas que têm uma sociedade civil vibrante e integradora de vontades. 

Já escrevi muito sobre a nossa total inaptidão para uma vida em comunidade. Somos individualistas, invejosos e até cruéis para com o próximo. Passamos o ano a lutar por nós próprios (e ainda bem que o fazemos) e para isso abdicamos dos escrúpulos (o que já não tem tanto mérito assim). Depois, achamos que nos redimimos com um quilo de feijão na campanha do Banco Alimentar. 

Se fossemos mais cordiais, solidários e unidos (talvez conscientes e inteligentes), Portugal não estaria como está. Pois que venham os Deolinda ou os Homens da Luta. As manifestações e os "gosto disso" no Facebook. Que venha até o Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. 

Em pouco mais de 30 anos, conseguimos ir por três vezes à bancarrota. E continuaremos a ser prodigiosos na arte de nos arruinarmos enquanto não metermos na cabeça que viver de esquemas, de manigâncias, berliques e berloques não é próprio de um país moderno. Se pudermos fugir aos fisco, fugimos. Se pudermos não passar factura, não passamos. Se der para não pagar IVA, não pagamos. Até com os corruptos somos condescendentes, especialmente se forem autarcas: "bem, o gajo rouba, mas ao menos...". 

Queremos estar empregados mas desde que não dê muito trabalho. O Estado não é pessoa de bem e  a administração pública existe para se alimentar a si própria. Os empresários não são empreendedores e os patrões preferem ser chefes a líderes. 

Falam-nos de flexibilidade laboral e comparam-nos à Alemanha, mas o que nos querem dizer é que somos tão importantes como um dos operários da fabrica chinesa em Yiwu especializada em falsificar produtos de marca.

Os que pululam em torno do poder não são piores ou melhores do qualquer um de nós. São apenas portugueses. Portugueses como nós.

Aquilo de que precisamos não é de 74, mas de 2011. Precisamos do Abril de agora, que nos traga um Abril em nós próprios. A revolução está feita. A ela só faltamos nós.

6 de abril de 2011

"O Blog do Desassossego" acabou hoje. Há pouco, antes de publicar o seu último post, a Diana explicou-me o que se passava e quis saber a minha opinião sobre a sua intenção.

Concordei com ela e fiz apenas uma exigência: "tens de acabar com um 'puta que pariu'". Lá está ele, no remate de meia década de memórias.  

A Internet é uma gigantesca base de dados, onde a informação se conserva, acessível a todos, até à eternidade. Temos um rasto difícil de apagar.

Um dos argumentos para o fim do Desassossego é-me muito caro. Como a Leididi, também eu passo o dia a escrever. Nem sempre foi assim. Quando esta Marcha começou, há quase cinco anos, trabalhava numa rádio. Entretanto, estive na televisão. Agora, vim parar a um jornal. Nunca escrevi tanto como agora, mas também nunca o meu blogue ficou tanto tempo esquecido. 

As palavras esgotam-se. As minhas, pelo menos. Não é que não tenha coisas para partilhar. O que me falta é a capacidade de as organizar em frases coerentes, capazes de resultar em algo de que não me envergonhe.

Não imaginam a quantidade de vezes que abro o blogger e fico longos minutos, com os dedos apostos, a olhar para o cursor. De vez em quando arrisco um parágrafo. Quase sempre, porém, desisto ao fim de duas linhas.

Os blogues pessoais estão a acabar. As pessoas encontraram outras formas de comunicação, mais rápidas e instantâneas. Continuamos cheios de desabafos, mas entretanto existem outros sítios - um em especial - onde nos dão atenção mais rapidamente. 

A lista de ligações aqui ao lado assinala cada vez menos actualizações, sinal de que a blogosfera se está a transformar num gigantesco cemitério de confissões. Nós, os que persistimos, somos pré-históricos.

Um dia, o Marcha dos Pinguins também vai acabar. Quando isso acontecer, escreverei o devido elogio fúnebre (porque quando morremos, somos todos bestiais). Algumas semanas depois, apagarei o que restar. Nunca se deve deixar um morto por enterrar. 

De alguma forma, a Diana inspirou-me a fazer isto. E por enquanto apetece-me continuar. Desculpem-me se não conseguir ser o que esperam de mim.


17 de março de 2011

[falta de] Talento

Gostava de ter um talento. Criança, arrisquei por três vezes aprender música. Desisti sempre ao fim de poucas aulas. Apesar da persistência e paciência dos professores, nunca se manifestou em mim o tal ouvido melódico. Aliás, tão pouco cheguei a perceber como é que as notas se distribuem na pauta e como é que desse exercício pode resultar outra coisa que não barulho. 

Da educação musical na preparatória lembro-me do nome da professora: Natacha. Além disso, a única recordação que guardo - e que só ajuda a provar que a minha teoria do desastre está certa - é a de uma apresentação pública no sexto ano. Meia hora escondido na última fila, a fingir soprar para a flauta, evitando, a todo o custo, que dela saísse qualquer tipo de ruído comprometedor.

Trinta minutos foi de quanto precisei para ganhar coragem e dar um beijinho à colega mais feia e mais peluda que um rapaz de doze anos pode ter. O sacrifício foi amplamente compensado pelos dias de glória que se seguiram. Chamava-se Anabela.

No desporto também não triunfei. Quer dizer, excepto daquela vez em que, jogador de andebol, ganhámos esmagadoramente (costumávamos perder na mesma proporção). Não saí do banco. 

Entre duas aulas, "vamos fazer equipas". Rui, André, Bruno Santos, Bruno Lima (o gajo era ainda mais gordo do que eu), Tiago. E eu? O Nuno fica com as raparigas e à baliza, para não ter de correr. Era derrota pela certa, quase sempre humilhante. A única conquista foi ter sido o único a ver os pensos higiénicos que a Filipa (uma matulona, malcriada e com umas mamas - seios, perdão - de meter respeito) guardava dentro da mochila.

Consolo-me a pensar que a minha inaptidão para perceber quando raio é que é fora de jogo é largamente compensada por uma ampla compreensão do universo feminino - assimilada em sucessivos intervalos de 15 minutos - e que isso me há-de valer, dia virá, a gloriosa ascensão a uma vida celeste cheia de ninfas vestidas com não mais do que uma tanguinha atrevida.

Matemática, também não. Ciências, tão pouco. Artes plásticas, só conceptuais e forçosamente abstractas. Mundo do crime, apenas abrir portas com um cartão multibanco (cresci na Margem Sul, não se esqueçam!).

Em tendo um talento, talvez pudesse equacionar fazer outra coisa da vida que não apenas isto que faço não melhor do que razoavelmente bem. Tivesse eu sido abençoado com um raciocínio veloz, uma memória fantástica e conseguiria decorar todos os ossos do corpo humano e perceber porque raio é que interessa a alguém que o quadrado da hipotenusa seja igual à soma do quadro dos catetos. 

Controlasse eu o meu corpo e faria, mesmo que só pelo gozo, passes certeiros para o ponta de lança que está desmarcado, colocado em jogo pelo defesa adversário, e que, por certo, cara a cara com o guarda-redes, vai atirar para o fundo da baliza, correndo eufórico ao meu encontro para juntos celebrarmos as maravilhas da táctica, aliadas às virtudes da técnica.

Serei, então, um homem vulgar. É esta a minha condição. E apesar de, quase sempre, me sentir bem com ela, às vezes gostava de ter um talento e ser capaz de fazer algo verdadeiramente extraordinário. Por exemplo, arranjar um final lógico para este texto que vos fizesse pensar qualquer coisa não distante de: "o cabrão escreve mesmo bem".

14 de março de 2011

Ainda sobre a manifestação (o rescaldo)

A manifestação de sábado foi um sucesso. Um sucesso porque fez largos milhares de portugueses trocar uma tarde de centro comercial ou de passeio saloio por umas horas de luta e isso, para todos os efeitos, é uma história que merece ser contada.

Claro que se sucederam os comentários a tentar desvalorizar o que aconteceu em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o país (até na Madeira, caramba). Faz parte. Faz parte haver quem  até ache que está tudo mal, mas não esteja disposto a dar o corpo ao manifesto. Quem espere que o país melhore, mas prefira que sejam os outros a cuidar do seu descontentamento. Depois, enfim, há também aqueles para quem é bom que tudo fique como está.

Dos dois grupos, só o primeiro é que me chateia. Enfurece-me gente comodista. São esses, os que, sempre cheios de retórica, preferem ficar no passeio, a ver o cortejo passar, só para depois terem o que dizer ou escrever, que inspiram a classe política, os empresários e os gestores a fazerem de nós, comuns mortais, pouco mais do que lixo.

O povo tem uma força imensa. E o povo não precisa de mais conteúdo do que aquele que existe na vontade de mudar. O desejo da mudança é quanto baste. Para descer a avenida, não é preciso um programa de governo, uma política alternativa, um rumo definido. Basta a ambição de um país diferente. Desde quando cabe ao povo a missão de governar? O 'não quero mais disto' tem de bastar.

Não sair à rua é esconder o descontentamento. Argumentar que os manifestantes são incoerentes e inconsequentes, é ceifar-nos a capacidade - o direito e o dever - de sonhar. 

Quando o povo se resigna, como muitos de nós nos resignámos, é a Nação que está  em risco. Portugal é nosso. Se o queremos, temos que o resgatar. Precisamos de um novo rumo, precisamos de novos políticos e de novas políticas. Foi este o recado que deixámos dia 12. 

Talvez ninguém faça caso disso. Talvez. Talvez devêssemos ser menos doutores e engenheiros. Talvez. Menos aristocratas, burgueses e armados em gente fina. Até seria bom se muitos tomassem banho mais vezes por semana.

O que eu sei é que, às vezes, lutarmos por nós próprios, individual ou colectivamente considerados, não tem mal nenhum. Pode até fazer muito bem. Se isso implica ler e ouvir o que talvez não devesse ter sido escrito ou dito, pois que assim seja. Haverá sempre quem não perceba que da diferença e da incoerência também podem nascer coisas boas.

10 de março de 2011

Estivesse em Portugal e iria à manifestação de Sábado. Iria porque sim. Porque qualquer protesto, qualquer acto que implique levantar o rabo do sofá, merece ser apoiado.

Incomodam-me sempre aqueles que, como Miguel Sousa Tavares - mas como tantos outros, feitas as contas - olham para a iniciativa do próximo fim-de-semana, não só com desdém mas também com sarcasmo e menosprezo.

Certo, o que se vai passar em Lisboa (e ao que parece noutras cidades do país), dificilmente será um 25 de Abril ou um 1º de Maio de 74, mas ainda assim, desvalorizar ou satirizar aqueles que decidem fazer uso do seu direito ao protesto e à indignação parece-me uma atitude muito saudável.

Portugal é o país do comentário. Português que o seja tem uma opinião formada sobre tudo. Aliás, basta vermos a capacidade incrível que os nossos comentadores de televisão têm para falar sobre todo e qualquer assunto (quase tão curioso como o facto de serem, quase todos eles, jornalistas). Comenta-se de mais e faz-se de menos. Claro, é mais fácil estar sentado, a gozar o prato e a aproveitar o palco mediático.

Li o que escreveram os organizadores do protesto de dia 12. Não há ali nada de novo. Falta até alguma coerência. Preferia que fosse diferente, mas então? Querem ver que os partidos têm feito melhor. As greves da CGTP contra "as políticas do governo" têm mais sumo, é isso?

Agora são - ou somos - os Deolindas. Os opinadores já rotularam esta massa de gente sem ideias e sem ambição. De facto, a geração que nos antecede está cheia de razão, querem ver. E que triste que é ver uma sociedade em que os mais velhos - amplamente responsáveis pelo nosso triste estado - ridicularizarem os mais novos (o contrário também é válido).
 
Todos, pela nossa apatia intrínseca, temos a nossa responsabilidade pelo lugar até onde trouxemos Portugal. Fizemos do nosso país um país amorfo, sem um rumo e sem motivação. Engaram-nos, deixámos que nos enganassem e gostámos de estar enganados. Domingo vamos acordar iguais. Na segunda teremos esquecido tudo e voltaremos à vidinha mundana e sem sentido em que nos tornámos doutores. Para recomeçar, é preciso dar o primeiro passo. Que seja assim, que seja Sábado, se não puder ser de outra forma.

22 de fevereiro de 2011

Que parvos que somos

Sou da geração a que se refere a música viral dos Deolinda. E embora seja daqueles que fez questão de a partilhar nas redes sociais, olho para ela com a desconfiança própria dos que já não têm esperança nenhuma em si próprios, individual e colectivamente considerados.

Ninguém me tira da ideia que o facto de "termos" escolhido como hino uma canção que, no fundo, nos descreve como uns sujeitos passivos, absolutamente confortáveis com a merda que nos rodeia, dá a nossa respeito uma imagem de seres amorfos que, revolucionários fossemos, quereríamos, isso sim, afastar.

Mas somos uns pacóvios, não é? Somos tão geneticamente conformados que aplaudimos de pé e entramos em histeria quando alguém canta "sou da geração sem remuneração e não me incomoda esta condição". Aplaudir é gostar, gostar é identificar-se e nós, ao que parece, identificamo-nos com quem nos revela quão parvos somos por termos a sorte de poder estagiar.

"Sou da geração casinha dos pais, se já tenho tudo, para quê querer mais?", perguntam-nos, com toda a propriedade. Os nossos pais (não os meus ou os vossos em particular, entenda-se) deram cabo disto. E nós agradecemos-lhes com uma vénia à estupidez.

A música dos Deolinda não é um incentivo à luta, à resistência, ao protesto. A canção da Ana Bacalhau (e haverá algo mais português que o bacalhau, mesmo que da Noruega?) é apenas a descrição exacta daqueles para quem ela canta. E "gostamos disso". Somos bobos e achamos piada.

Por isso, ao olhar para as reacções que se seguiram à divulgação na Internet dos vídeos manhosos, gravados em telemóvel, durante os concertos nos coliseus, fico ainda mais preocupado. Como se já não bastasse sermos moles, agora também somos burros. E pergunto-me, em que altura da caminhada para a vida adulta nos foi dito que não vale a pena ter juízo crítico sobre as coisas?

Na Tunísia, no Egipto, na Líbia, as pessoas saem à rua e reivindicam que os seus países lhes sejam devolvidos. Em Portugal, entretemo-nos a fazer revoluções nas caixas de comentários dos jornais on-line ou nos blogs, em textos como este.

Quando um dia formos nada e os nossos filhos nos perguntarem o que é que fizemos para mudar o nosso destino, o mais provável é que tenhamos vergonha de lhes responder. Aí, como agora, encolheremos os ombros e seguiremos caminho, fingindo que não se passa nada.

Somos fracos e temos o país e os políticos que merecemos, porque iguais a nós. Em dias como o de hoje, tenho muita pena disso. Tenho muita pena mesmo.

10 de fevereiro de 2011

Tempo

Há dias, numa mesa com amigos, alguém se virou para mim e proferiu a derradeira sentença: "tu és um homem com certezas, sabes bem o que queres da vida". Ali, sem apelo nem agravo, numa única frase, tentou-se definir aquilo que sou. Ainda arrisquei contra-argumentar, contudo, perante tamanha clarividência, desisti.

De facto, sou tudo menos "um homem com certezas". Aceito, tenho uma vaga ideia do percurso que gostaria de percorrer, mas, tirando isso, não sou capaz de afirmar o que devo ou devem esperar de mim.

Seria um disparate pensar que, aos 28 anos - sim, é só essa a minha idade - poderia ter a vida projectada. Nada disso. Aliás, quanto mais experiência tenho, mais ridícula e desnecessária me parece a pretensão de planear o que pretendo fazer (planear o que quer que seja).

Perdemos muito tempo em conjecturas. Gastamos demasiadas energias - e caímos em demasiadas depressões - porque estamos sempre na expectativa. Claro que devemos ter metas. Eu tenho-as. São objectivos e sei que grande parte deles acabarão por se revelar meras ilusões. E isso é bom, até porque, geralmente, o que nos sobra em racionalidade, falta-nos em fantasia. Procuramos inteligir tudo e abdicamos do prazer que nos proporciona a espontaneidade.

As melhores e mais importantes coisas que consegui resultaram do inesperado. Não planeei ir para Angola e quando dei conta estava lá. Algum tempo depois surgiu a possibilidade de vir para Cabo Verde e bastaram dois - sim, dois - e-mails para ter a certeza de que era mesmo isto que me apetecia fazer.

Às vezes dou por mim num grande sufoco, ansioso, sem um motivo em especial. Depois paro e percebo que estou apenas na expectativa. Expectante, nem sei bem de quê. Apenas assim.

Tudo é tão volátil - os empregos, as relações - porque é que temos de procurar ser tão definitivos connosco próprios?

Não me interpretem mal, sou um homem persistente e de compromissos. Assumo-os e levo-os a sério, sejam eles profissionais ou pessoais. Acontece que li há pouco tempo o livro Travessuras da Menina Má e percebi que, em certa medida, há qualquer coisa em Ricardo que me diz muito respeito. Uma vida inteira preso a uma ilusão, à espera de algo que só chega cinco décadas depois, tarde demais.

Não falo de mulheres, falo de tudo o resto (e também delas, porém). Não sei se foi pela conversa, que de alguma forma me chateou, pelo livro, por este post, ou apenas por culpa do vento que está a fazer abanar as janelas e a atirar com o lixo para o ar, mas hoje estou capaz de vos jurar que não há nada na puta da vida que justifique que a deixemos em suspenso enquanto esperamos que aconteça.


7 de fevereiro de 2011

O pós-eleições em Cabo Verde


No rescaldo das eleições legislativas em Cabo Verde, algumas linhas sobre o que poderão ser os tempos que se seguem.

No topo da agenda do PAICV está, por enquanto, a formação de um novo governo. José Maria Neves irá certamente aproveitar a oportunidade para trocar alguns ministros e, provavelmente, recolocar outros. A mais importante substituição, não anunciada, mas há muito percebida, é a de Inocêncio Sousa. O ministro das obras públicas vai avançar para a corrida à Presidência da República e deixa a pasta das Infraestruturas em aberto. A substituição de Inocêncio é delicada, pois ele dava corpo à ala política do elenco governativo.

Na atribuição de lugares, o presidente do partido ganhador, reeleito Primeiro-Ministro, terá de gerir e conciliar as vontades de uma corrente 'tambarina' mais moderada (da qual faz parte) e de outra mais radical (com a qual tem de conviver).

Nos primeiros meses da nova legislatura, o principal desafio será a elaboração e aprovação do Orçamento de Estado para 2011. Recorde-se que, fruto das eleições, o país vive, desde 1 de Janeiro, no sistema de duodécimos e precisa de um Orçamento em vigor no menor espaço de tempo. O facto dos eleitores terem optado pela continuidade política deverá ditar um encurtamento dos prazos, pois não é de esperar um documento estrategicamente diferente - nomeadamente ao nível dos investimentos públicos - daquela que tem sido a linha dos últimos dez anos.

Ao começar um novo mandato, o Governo de José Maria Neves terá um duplo desafio macroeconómico e cinco anos para o resolver. Baixar o nível de dívida pública para valores que não comprometam a viabilidade do Estado cabo-verdiano no médio e longo prazo e, ao mesmo tempo, diminuir o défice orçamental. Um e outro indicadores estão definidos no acordo de paridade cambial que o país mantém com a União Europeia e Bruxelas, a braços com o processo de reequilíbrio das contas públicas dos estados-membros, não deverá estar disposta a aceitar o incumprimento do que está estipulado.

Do lado da oposição, ao segundo maior partido, o desafio que se coloca é, desde logo, clarificar a questão da liderança. Primeiro, perceber se Carlos Veiga tem condições para continuar e, segundo, saindo, que figura estará à altura de o substituir.

A imagem do líder histórico 'ventoinha' está agora associada a três derrotas seguidas e isso tem implicações ao nível do seu crédito político.

O MpD, para ser uma oposição credível e afirmar-se como uma alternativa ao PAICV (e é importante que o seja, para garantir um equilíbrio democrático indispensável ao correcto funcionamento do sistema) precisa de clarificar o rumo que pretende seguir e começar a trilha-lo desde já.

Os projectos políticos fortes, consistentes, nos quais os eleitores aprendem a confiar, demoram anos a cimentar-se. Assim acontece também com os líderes.

Um eventual substituto de Carlos Veiga, deverá estar no Parlamento - ou seja, ser alguém do novo grupo parlamentar. A oposição extra-parlamentar é complicada, mais ainda num país com as características de Cabo Verde. A Assembleia Nacional é o principal palco de debate e de confrontação de ideias e o único local onde, de forma regular, o líder da oposição pode confrontar o Primeiro-Ministro.

Finalmente, a UCID. António Monteiro colocou a fasquia muito alta e por isso a sua derrota, apesar de conservar o mesmo número de deputados, acaba por ser à dimensão da sua ambição. Do resultado do escrutínio percebe-se que o partido continua a ser eminentemente regional, com alguma expressão em São Vicente, mas com dificuldades de penetração noutros círculos. Para crescer, e ser o tal fiel da balança a que se propõe, terá de aproveitar o caminho até 2016 para conquistar novos eleitores e ganhar consistência eleitoral.

Os partidos da oposição tendem a viver para as eleições. Isto tem custos. Quem não tem, como não têm o MpD e a UCID, a máquina do Estado ao seu lado (e não me interpretem mal: as coisas são mesmo assim), não pode esperar pelos meses imediatamente antes de uma ida às urnas para apresentar um projecto, dá-lo a conhecer às pessoas e esperar que elas confiem nele.

Salvo em condições circunstâncias muito específicas, quem está no poder parte sempre em vantagem. E desmontar a retórica de quem se pode basear em conquistas, sejam elas muitas ou poucas, requer tempo, paciência e muita dedicação. Infelizmente, virtudes que escasseiam na vida política dos nossos dias.

3 de fevereiro de 2011

Autópsia ao(s) candidato(s)


As campanhas eleitorais são períodos especialmente ricos em episódios, instantâneos e casos. Habitualmente, os partidos e os candidatos endurecem o discurso e, à medida que se aproxima o dia das eleições, tendem a radicaliza-lo ainda mais. Nunca faltam revelações, contradições e manipulações. Como jornalista, gosto deste tipo de discussões.

Agora, aquilo de que eu gosto mesmo numa campanha é do papel a que algumas pessoas se prestam. Numa lista existem sempre várias categorias de pretendentes ao poder.

Primeiro, aqueles que lá estão por verdadeira convicção. Na sua maior parte, políticos com experiência e mais ou menos reputação (boa ou má, entenda-se). Quanto a esses, exceptuando os mais caricatos (pela aparência ou veemência do discurso), nada a dizer. Já todos os conhecemos.

Seguem-se os obrigados (mas não necessariamente forçados). Quanto mais partidarizada é uma sociedade, mais espécimes destes se encontram nas listas, especialmente do partido que está no poder. São gestores de empresas ou institutos públicos, gente da administração local ou do Estado. Enfim, pessoas que, com ou sem competência para os cargos que ocupam, não podem correr o risco de dizer que não a um "convite" do partido.

Jogam em duas frentes: em caso de nova vitória, garantem o tacho que ocupam (ou até, na loucura, uma promoção); se houver uma reviravolta, têm poiso assegurado num órgão de poder. Se não lhes conhecemos o rosto, podemos indentifica-los pela cara de tédio com que participam em qualquer actividade. Levantam a bandeira a contra-gosto, aplaudem sem convicção e olham ciclicamente para o relógio.

Finalmente, aqueles de quem mais gosto: os estreantes. Militantes ou "independentes" (também gostos muito de "independentes"), fazem a sua gloriosa estreia na vida política activa. A maior parte está num lugar não elegível e então passam quinze dias a desejar que aconteça alguma coisa aos  colegas. Na ilusão, deliram. Quando sobem ao palco nos comícios acham-se logo figuras públicas. Enquanto os bêbados da primeira fila jogam piropos, eles dançam, pulam, improvisam coreografias e esperam, esperam com muita, muita força, que alguém repare neles. Se o presidente do partido estiver presente então aí ninguém os segura. E se por acaso alguém lhes pede para falar, ficam a instantes de um orgasmo. Apelam às suas origens humildes, recordam como, também eles, são do povo e como, no dia da sua eleição, vão fazer tudo, mas tudo, para trazer um bebedouro para a praceta onde, enquanto crianças, costumavam jogar ao berlinde.