11 de setembro de 2011

Terrorismo

Dez anos depois, os ecrãs de televisão voltam a encher-se de imagens dos atentados terroristas contra o World Trade Center, em Nova Iorque. Na verdade, tem sido assim desde 2001. Sempre, a 11 de Setembro - quando não noutras datas - os alinhamentos dos telejornais recuperam aqueles minutos que todos já vimos e revimos 1001 vezes.

Terrorismo. Com o mediatismo que só os Estados Unidos conseguem conferir a qualquer acontecimento, a palavra entrou no léxico do cidadão comum e o conceito ganhou uma nova dimensão. 

Não chego a perceber até que ponto entrámos, a partir de então, numa nova ordem mundial. Houve uma renovada preocupação com a segurança global? Talvez. Mas acima de tudo, os atentados e  aameaça da repetição da tragédia têm servido como argumento político para justificar uma mudança de paradigma na forma como os estados se relacionam com os cidadãos (os seus e os outros) e na forma como, com o despudor de sempre, agora enquadrado num dúbio "supremo interesse nacional", as autoridades invadem e condicionam as liberdades individuais.

Ao abrigo da legitima-defesa, permitiram-se, indulgentemente, assassinatos e torturas, invasões de países soberanos, destruição de cidades e guerras sem fim. É que o tal mundo civilizado também faz justiça com as próprias mãos. 

9 de setembro de 2011

Islândia


Reiquejavique, capital da Islândia


"O castigo por não participares na política é acabares 
governado por pessoas piores do que tu"
Platão

Li ontem esta frase no blogue do Rui Tavares e desde então ando com ela na cabeça. Chamem-me chato, mas não me canso de insistir - e vou repetir a ideia tantas vezes quantas forem necessárias - que todos nós, cidadãos que não fazem política partidária, temos também uma grande responsabilidade na situação a que o nosso país. 

Pela nossa inércia, pelo nosso não querer saber, fomos deixando que os políticos profissionais, que, a ciclos, e desde há quarenta anos, governam Portugal, usassem e abusassem da coisa pública.

Ser cidadão, não se resume a ser-se contribuinte. Esse é o papel que que quem está no poder espera de nós.  Para a elite, quanto menos interventivos e conscientes formos, melhor. Ser cidadão é estar vigilante, é zelar pelo bem comum, é fazer parte da colectividade e defende-la como maior que o interesse individual. 

Nestes tempos de FMI fala-se - como tão bem escreveu o Rui - do exemplo islandês. A Islândia não é só retórica. Faz sentido, por ser verdade, apontar o caso de sucesso cívico deste país nórdico insular.

Gosto de estadistas e de líderes de rara elevação. A Portugal de 2011 faltam estes Homens maiores. Mas a Portugal de hoje faltam, acima de tudo, portugueses de vontade e com vontade. Gente de coragem, que pegue no seu próprio destino.

Temos no poder uma direita ultra-conservadora. Temos na oposição um partido que alinha com quem deveria discordar e uma esquerda radical que prefere faltar às reuniões onde se discute o futuro do país (é agora que sou lapidado pelos meus amigos comunistas).

A Islândia é o exemplo de que o mundo é um só, sim, mas que não é, nem precisa de ser, todo igual. 

8 de setembro de 2011

Mindelact 2011

Cartaz oficial da 17ª edição do Mindelact

Começa amanhã, no Mindelo, em São Vicente, a décima sétima edição do Mindelact, o festival internacional de teatro da cidade e uma das manifestações culturais mais importantes não só do país, como de toda a região africana em que Cabo Verde se insere.

Não estou a exagerar. São dezenas de grupos teatrais, actores e actrizes com vivências e percursos tão diferentes, como distintos são os países de onde chegam. Espanha, Brasil, Itália, Portugal, França, Marrocos, Angola, Alemanha, Polónia e, claro, Cabo Verde.

Aliás, a peça de abertura do festival, Bodas de Sangue, de Garcia Lorca, é assinada por um colectivo nacional que, esta sexta-feira, estreará a sua quadragésima sexta produção.

Nesta cidade há teatro. Bom e mau, como em tudo. Mas mais importante do que isso, há iniciativa e capacidade.

Para mim, que só cá estou há dois anos, o Mindelact é uma lição: a prova em como, num país tão marcado pela separação entre quem veste de verde e quem equipa de amarelo, se arregaçarmos as mangas, pusermos de lado o discurso fatalista, as guerrilhas pessoais e as diferenças ideológicas, conseguimos resultados de que todos, todos sem excepção, se podem e devem orgulhar.


7 de setembro de 2011

Silêncios


Não sou grande coisa com sentimentos. Aliás, corrijo-me, sou uma merda com sentimentos. Bom ou mau, prefiro quase sempre guardar o que sinto, ao invés de o dizer imediatamente. Nas relações de amizade e, especialmente, nas amorosas rendo-me ao comodismo do silêncio. 

Claro que isto é um disparate. O som oco das palavras que não são ditas é ainda mais ensurdecedor do que aquele que sai de uma discussão acesa, cheia de argumentos e opiniões. Ninguém preserva para sempre o que, por ser sobre outro alguém, não lhe pertence verdadeiramente.

Talvez por isso seja um pouco rancoroso. Acho sempre que perdoo depressa, que ultrapasso e esqueço o assunto mas afinal, dias, semanas ou meses depois, dou por mim a reavivar tudo, a fazer renascer uma discórdia passada. 

Acontece que as coisas fazem sentido quando fazem sentido. Se alguém me desilude hoje, então hoje é o tempo certo para que se saiba que assim foi.

Gostava de não ligar, de esquecer. Não consigo. Fica tudo aqui dentro, a consumir-me, fingindo dormir mas esgravatando. Faço metade do que quero fazer: evito o confronto, mas não passo por cima.

Sei que esta é uma parte importante da minha personalidade. Mas também sei - e portanto não pensem que me fazem passar por parvo - que não é a essencial. 

Quando estamos chateados com alguém, tendemos a reduzir essa pessoa ao pior dela própria. Como se, de repente, tudo o que de bom ela em nós representa perdesse o sentido. Aos nossos olhos, nem dois braços, nem duas pernas, rosto ou corpo inteiro. Ali, um sujeito que sequer ao nome próprio pode aspirar.

Felizmente, somos sempre mais do que quem olha vê. Felizmente, somos sempre mais do que quem vê quer ver.



24 de agosto de 2011

Anticonstitucionalissimamente

Quando era miúdo tinha o estranho passatempo de, com um amigo da mesma rua, aprender a pronunciar correctamente as maiores e mais difíceis palavras que encontrávamos na Grande Enciclopédia Larouse em dez volumes que ele tinha numa estante no corredor e que, a julgar pelo barulho das páginas a descolar, só nós usávamos.

Lembro-me do cheiro da casa dele. Cheirava a mofo e a gente. Sempre achei curioso o singular cheiro de cada casa e o facto de só os que não vivem nelas sentirem que, para lá dos móveis, existe algo que as distingue.

Sentavamo-nos na sala, onde, não raras vezes, estava a mãe dele, uma senhora magra, não muito simpática, mas atenciosa, que, ignorando-nos, via televisão, tapada com uma manta estampada com a qual cobria, em simultâneo, o aquecedor a óleo. 

Noutras vezes, íamos para a cozinha beber groselha. Detestava groselha, mas detestava ainda mais fazer-me de esquisito. Recordando os bons ensinamentos familiares, aceitava a oferta e, contorcendo-me, bebia tudo em quatro goles. 

O meu amigo, com um cérebro muito mais ágil do que o meu, aprendia as palavras com grande facilidade. Eu sempre precisei de mais alguns minutos. 

Aliás, com a sua destreza, era, à data, um pequeno inventor. Vivia rodeado de engenhocas, de projectos e experiências. Éramos bons companheiros e ele esperava que eu o acompanhasse nas demandas científicas. 

Acontece que, a mim, além das palavras, só me interessava mesmo perceber como é que os coelhos que tinha no quintal eram mortos e, mais tarde, entrando na puberdade, onde é que a sua irmã mais velha guardaria a roupa interior. 

Perdi-lhe o rasto e perdi-o da memória. Foi assim com quase toda a gente daqueles tempos de 90, em que se brincava na rua, se andava de bicicleta e se jogava à bola nas traseiras do prédio dos meus pais - Rua Fonte da Contenda, Lote D 27, 1º esquerdo.

Há dias, ao olhar para uma foto de então, recordei-me dele e também da Anabela, da Catarina, da Andreia, do Nelson, do Bruno e do outro Bruno.

Vestia um kispo horrível, usava umas calças cor de caca e tinha uns óculos maiores do que a minha cara gorda. 

Tenho saudades de poucas coisas e não tenho saudades do 5º A. Sentia-me bem lá, como me sinto bem aqui. Agora, que foi um longo caminho, lá isso foi. 


14 de julho de 2011

Daqui até Ressano Garcia

Imagem retirada do site http://boagente.blogspot.com

O cheiro é pérfido e não preciso de subir mais do que o primeiro degrau para ficar enjoado. Uma mistura de suor e urina que invade as narinas e, por instantes, nos faz pensar em recuar. "Esta merda não é uma boa ideia".

A estação de caminhos de ferro de Maputo é um edifício histórico, referenciado por quem se interessa por essas coisas e cenário de algumas cenas do filme Diamantes de Sangue

O bilhete é barato e a viagem relativamente curta. São apenas três horas de caminho até Ressano Garcia, uma povoação fronteiriça, no sul de Moçambique, e um daqueles lugares onde o que parece não é e o que é por vezes desaparece.

Quinze meticais (pouco mais de 30 cêntimos) chegam para se ter acesso à plataforma de embarque, para lá do velho portão de ferro que o segurança acaba de abrir.

Dezenas de pessoas correm em direcção ao comboio. Confiro o relógio e ainda faltam vinte minutos até à hora da saída. 

Maputo acorda cedo, como o sol. A partir das cinco e meia instala-se um burburinho que cresce à medida que as ruas são invadidas pela luz que não aquece, num dos cacimbos mais frios dos últimos anos. São sete e vinte e cinco.

Procuro um lugar. Tento escolher a melhor posição. Quero observar e passar despercebido, mas também quero alguma distância da casa de banho sem água, cuja porta não fecha (no lavabo do outro lado da carruagem a porta sequer existe).

Sento-me sensivelmente a meio, num banco com a lona vermelha rasgada. À minha frente, por enquanto, ninguém. Meia-casa, "porreiro". Estico as pernas. 

Está na hora e partimos à tabela. Concentro-me no que se passa lá fora e tento ver alguma coisa pela janela imunda. Uma barata passeia-se pelo vidro e outra segue-lhe o rasto.

"Refresco, refresco", grita um dos rapazes de bata azul aos quadrados. "Pão, bolachas, saldo", anuncia outro.

Paramos em lugares imprevistos. Na maior parte dos casos, não existem estações, apenas metáforas. Paramos muito e muito tempo. Para estas povoações, que cresceram propositadamente ao longo da linha férrea, estes dez minutos de descanso da marcha são o momento alto do dia. Tudo se passa neste fragmento. Gente que sobe e gente que desce. Gente que espera e gente que se limita a olhar sem esperar nada. 

De repente, deixo de conseguir esticar as pernas. De repente, deixo de ter onde pôr a mochila. De repente, deixo de conseguir baixar os braços, que terão ficado algures entre duas pessoas. Sem que me tivesse apercebido, o comboio lotou. Será assim até Moamba, terra com nome de comida. Pensando nisso, já almoçava.

Entre apertos, ruído e embalo, deixo-me ir. Não me lembro de tudo. Devo ter adormecido ou, pelo menos, mergulhado numa suave letargia.

"Refresco, refresco"; "Pão, bolachas, saldo"; "Refresco, saldo, pão, bolachas"; "Bolachas, refresco, saldo"; "Refresco, refresco, pão".

Há uma mulher a dar de mamar. Há outra a comer peixe e a cuspir as espinhas. Está uma criança à minha frente a lamber um chupa. Tem a cara e as mãos sujas e acaba de as limpar às minhas calças. Pego nela ao colo e conversamos por gestos e sons durante largos minutos.

Estamos a chegar. Percebe-se pela movimentação. As capulanas voltam a ser amarradas à cintura, as caixas de plástico regressam ao interior dos sacos, os miúdos são novamente presos às costas das suas mães, num habilidoso movimento de braços.

Tomo posição numa das portas da carruagem e cumpro um sonho de infância: viajar sentado nas escadas, com as pernas para o lado de fora. Acendo um cigarro. Habitualmente não fumo, mas o momento exige celebração. A velocidade, que nunca foi grande, diminui. 

Ressano Garcia tem pó. Tem armazéns e tem gente. Ricos, pobres e duvidosos. Interessam-me estes, acima de tudo.  

Logo ali está a África do Sul. Lícita ou ilicitamente é possível comprar e vender quase tudo. Às claras, ou neste beco para o qual me convidaram. Telemóveis e computadores. Televisores e microondas. Tecnologia mais ou menos moderna, mais ou menos interessante. Um tax free de aeroporto, no quintal da casa de alguém.

Tenho fome. Entro num café e peço uma bifana. "Uma bifana e uma Laurentina, por favor". Média. Clara. "Essa cerveja bem fresca, sim?"


2 de julho de 2011

Perdão, o senhor disse que acabava?

Prefiro pontos finais. As reticências não são para mim. Escrevo assim, definitivo. Ordeno as letras em palavras, estas em frases, das quais nascem parágrafos e textos. Insignificantes narrativas, iguais a esta e a estas que por aqui se preservam, ao abrigo do tempo, envelhecidas e descontextualizadas por ele, mas aqui, como em tantos outros lugares.

De muitos [deles, dos textos], perdi-lhes o sentido, a intenção. São retalhos de uma vida que, embora minha, sempre minha, inclusive se vivida por outro alguém que não eu, deixou de ter a lógica de outrora, permanecendo-me, porém.

Escolho terminar as frases, ao invés de as deixar abertas. Reticências são isso, continuidade, seguimento, abertura. Prefiro fechar. Preciso de encerrar. Ideias, momentos, sentimentos, contratos, projectos. Só resolvido serei capaz de continuar. Aprendi isso, entretanto.

Do período a que  remonta a origem deste blogue sobra a incapacidade de antecipar ou aceitar a antecipação. Mas convenci-me de que só o definitivo satisfaz. Chegado o momento, o momento é esse. Não antes, não depois. Aquele, aquele ali. Agora de agora.

O ponto final é isso, o fim. Tanto como o novo parágrafo é o recomeço. Não se recomeça sem se ter acabado, só se acredita de novo, depois de ser ter desacreditado.

Escrevo para viver. Faço-o literalmente. Do produto da minha escrita, não esta mas a outra, resulta a matéria que me alimenta, que me veste e me transporta. Acontece que passei a última semana a questionar-me e a ser questionado sobre a forma como o faço. Sucessivas horas de dúvida, reflexão e crítica. Saí de mim e vi-me com tanto para aprender. Eu que sou, até com algum orgulho, um homem de pontos finais, percebi que há frases que se escrevem e que, julgando-se terminadas, ainda não chegaram ao fim. Essas frases somos nós.

17 de junho de 2011

Gente feliz

Gosto de gente feliz. Pessoas normais, de bem com o seu passado, confortáveis no presente, mas com uma qualquer inquietude em relação ao futuro. Gente simples, sem grandes traumas. Prefiro as pequenas histórias, o vulgar. No comum também pode haver insólito.

De todos espero o inesperado. De uma maneira geral, seremos sempre, algum dia, se não já hoje, a desilusão de alguém, de repetidos 'alguéns' e de nós próprios. Talvez por isso prefira o concreto e definido. O hoje e o agora, este tempo e espaço, a certeza à dúvida, a clarividência ao seu contrário.

Menino de escola, lembro-me dos dias em que, nas aulas de Língua Portuguesa, estudámos Antero de Quental. Eu, que não sou dado a citações, que não decoro frases para as repetir mais tarde e que guardo pelos lugares comuns um certo repúdio, arrisco contrariar-me. "Razão, irmã do Amor e da Justiça / Mais uma vez escuta a minha prece / É a voz dum coração que te apetece / Duma alma livre, só a ti submissa.". Não desconfia o cabrão do poeta que, preferindo eu saber tantas das coisas que desconheço, nunca me esqueci destes quatro versos.

Fora eu quem quisera ser e em mim estaria a razão pura. Sou apenas um retalho dessa intenção. Analisando-me, descubro-me ali, no meio caminho entre cá e lá.

Com o tempo e a idade que ainda não tenho, talvez isso faça de mim um homem intenso. Por ora, sei que me transforma em alguém de difícil trato. Num amador.

Quem se aproxima de mim deve saber-me assim, uma dúvida. Uma dúvida que não gosta de ser posta em causa, que prefere não ser questionada

Não é fácil lidar comigo. De tão difícil, às vezes eu próprio me fatigo e embora nunca tenha pensado em desistir de mim, sei perfeitamente que esta personalidade estranha e misteriosa não é tão cativante quanto, nos momentos de extremo-amor, presunção e água benta, afirmo ser. 

Este texto não leva a lado nenhum. Terminará abruptamente, sem uma conclusão lógica, um remate certeiro, uma frase brilhante. Nada do que aqui foi escrito figurará na memória de quem por aqui passar. Também eu não. Com o tempo, a curiosidade acaba por se transformar em cansaço, o entusiasmo em fastio, aborrecimento e aversão. 

O eterno é efémero, como efémeras serão para sempre todas as coisas que esperamos nunca ter um fim.

10 de junho de 2011

Português de primeira

No fundo, sou um patriota. Um daqueles com nível, claro. Não preciso de bandeirinhas, nem do Graciano Saga. O Tony basta-me.

Apesar de me irritar com tanta coisa que se passa em Portugal, e apesar de dele estar longe há alguns anos, continuo a arrepiar-me sempre que escuto o hino nacional e emocionar-me quando... bem, na realidade não me emociono com nada. 

Quando estamos longe do nosso país, as coisas ganham outra dimensão. Sem merdas, a feijoada é mais saborosa, os pasteis de nata mais importantes e o Benfica ainda maior.

Uma vez que continuo a ser em Cabo Verde o miserável que era em Portugal, até me abstenho daqueles comentários depreciativos de quem vive fora e regressa à terra Natal uma vez por ano. Não só não tenho um BMW, como, porra, ando quase sempre a pé ou de autocarro.

Gosto de feriados, das datas que eles representam. Escolho três: 25 de Abril, 10 de Junho e 5 de Outubro. A liberdade, Portugal e a república. Também escolhia o Natal, mas isso seria pelas azevias de grão.

Tenho pena de em nenhum dia do ano celebrarmos com o fervor do 4 de Julho norte-americano. Um pouco de nacionalismo bacoco, não sabem o bem que nos fazia. 

Gostamos pouco do nosso país e daí advêm grande parte dos nossos problemas. Quem ama cuida. A mãe pátria mais parece a nossa sogra. 

Não queremos saber e deixamos andar. Irra, desde que não nos venham ao bolso, está tudo bem. Fodam lá essa merda toda. 

Somos pitorescos por isso. Arranjamos heróis onde outros encontrariam cabrões. O Afonso bateu na mãe, o Sebastião borrou-se, o Scolari é brasileiro, e o Sócrates andou seis anos (eis anos e ninguém deu por nada?) a dar cabo do que restava e agora vai para Paris ,estudar filosofia, presumo que aos domingos.

Tenho-o escrito e continuarei a faze-lo: o país que temos é o povo que somos. Seremos mais, quando quisermos mais. Seremos melhores, quando ambicionarmos melhor. Até lá, por aqui estaremos, nós mesmos, só como nós. 

Hoje, aqui, trabalha-se. Vou vestir as cuecas de duas cores, com tanto de verde esperança, como de vermelho sangue. Se encontrar com o que faze-lo, talvez até corte as unhas. À noite, vou ao jantar da embaixada (não se preocupem, o Estado não me está a dar nada, pago 13 euros do meu bolso) e prometo comer que nem um alarve, até não me caber mais nada no bucho. Se ficar até ao fim, ainda peço que me ponham os restos numa caixinha.

Não me levem a mal, sou um português de primeira. Assim fraquinho, igual a vocês.


2 de junho de 2011

Pequenos partidos

No último texto deixei implícito o meu habitual sentido de voto. Deixei também aberta a minha opção para as legislativas de domingo. Entretanto, alguns dias depois, já resolvi o problema. Escolhi um pequeno partido. Fi-lo por simpatia pessoal para com o seu líder. 

Não estou absolutamente convencido da minha decisão, mas exercer a cidadania também é isto: aceitar o risco e assumir as consequências das nossas escolhas.

A verdade é que a maioria dos partidos que, fora da esfera parlamentar, se apresentam às eleições de dia 5 não são mais do que folclore. Qualquer instituição, maior ou menor, política ou não, se quer ser respeitada, tem de se dar ao respeito. Criatividade e originalidade não são sinónimos de imbecilidade. 

Contudo, existem excepções ao senso comum. Grupos de pessoas que, reunidos em torno de um projecto, defendem valores em que acreditam. Talvez não tenham uma visão global da sociedade e pequem por reduzir tudo a duas ou três bandeiras que agitam até à exaustão, mas esses colectivos desempenham um papel fundamental na sociedade.

Como se uma ameaça ao status quo que comentadores e jornalistas percebem e sobre o qual tanto racionalizam, os pequenos partidos são constantemente relegados para um plano secundário. O que dizem, ignorado. O que fazem, esquecido.

O diferente deve ser tratado de forma diferente. Não concordo com quotas (em nenhuma situação) e sei que a informação séria não se faz de calculadora na mão. Quem produz mais matéria informativa deve ser objecto de maior cobertura mediática.

Agora, afastar uma força política - aceite como candidata a um acto eleitoral - dos alinhamentos dos telejornais, das páginas da imprensa e dos noticiários das rádios é transformar a democracia em mero critério jornalístico.

Um critério no qual só cabem aqueles que já chegaram ao poder. Aqueles de quem tanto nos queixamos e repetidamente diabolizamos. "Os mesmos de sempre".

Falemos de debates. Este ano, como em situações anteriores, fizeram-se frente-a-frentes entre os líderes dos "principais partidos". Depois, a RTP juntou todos os outros e abriu a temporada circense com um espectáculo triste de ser visto. Perante aquilo, da parte, o público terá feito o todo.

As providências cautelares que determinaram a realização de debates, envolvendo PCTP/MRPP e MEP com todos os outros partidos dispostos a participar, expôs a forma ridícula e amadora como colectivamente (a nossa justiça é o espelho do que somos enquanto comunidade) lidamos com o pluralismo, com a diversidade e com a divergência.

Claro que é um disparate o espectáculo a que hoje assistimos, com o presidente do Movimento Esperança Portugal a debater, em simultâneo e em três canais diferentes, com outros tantos interlocutores. Mas poderemos nós censura-lo por reivindicar um direito que lhe está consagrado?

Se o comodismo não for demasiado forte, e se as televisões tiraram alguma lição do episódio recente, quando voltarmos a votos, terão encontrado um novo modelo que, servindo a democracia e não as suas próprias agendas, permita a todos os candidatos expor qualidades e fragilidades, tendo muito, pouco ou nada para dizer.

O país não pode ser escolha do editor.