16 de setembro de 2011

Memória

Riram-se sem saber que era por eles que os outros choravam.

A memória. É também disso que somos feitos. Individual e colectivamente, a nossa história, as recordações que trazemos, as que não vivemos mas que nos contaram, são parte de nós. Há algo mais do que a matéria das carnes.

Algo de intangível e imensurável consubstancia-nos, dá conteúdo à forma. Felizmente, o presente não nos basta, não me basta a mim, pelo menos. 

Perco muito tempo a tentar perceber o porquê das coisas e gosto de enquadrar o hoje no dia anterior. Na minha profissão chamamos-lhe 'dar contexto'. Contextualizar um acontecimento, perceber a conjuntura - causa, efeito - ajuda-nos a inteligir melhor a realidade.

Uma sociedade sem lembrança, sem conhecimento da sua história, é uma sociedade ignorante, irresponsável e, acima de tudo, uma sociedade frágil, exposta.

Não podemos esperar dos outros que assumam a sua condição de parte de um todo, se a eles o colectivo não passa de algo conceptual, sem conversão prática.

Vem isto a propósito de uma conversa recente com um amigo aqui do Mindelo (de Cabo Verde), sobre o que não está a ser feito para posterizar um passado que, gostemos ou não, é o desta cidade. Edifícios históricos são demolidos ou desprezados, calçadas são substituídas por asfalto, riquíssimas colecções de fotografias ficam ao abandono.

A sede pelo progresso, pelo que é moderno, pelo "que se faz lá fora", fazer igual, ser igual, ter igual, tolda-nos o juízo perfeito. Faz de nós carneirada. Estúpidos ao ponto de não percebermos que, se somos iguais, não há diferença que justifique uma visita. Os lugares interessam-nos pela singularidade.

O passado é o que nos une. O suor e as lágrimas que os bravos derramaram, os edifícios que braços fortes ergueram, os poemas que Homens iluminados escreveram.

Existe, em muitos países, a tentação de apagar o que foi, ou parte dele. Fazem-no porque, fazendo-o, nos contam apenas o que lhes interessa que saibamos, não sabendo eles próprios, porém, que uma Nação sem ontem, é, quase de certeza, uma nação sem amanhã. Sozinhos não nos bastamos. 

15 de setembro de 2011

Dos sítios


Se pudesse escolher, sem cuidar de nada mais a não ser da vontade, escolheria morar num espaço híbrido, algures entre o campo e a cidade. Preciso dos dois, ou do melhor de cada um. Do sossego rural e da vivacidade urbana, do silêncio e da confusão, do não acontecer nada e do acontecer tudo.

Sou cosmopolita numa razão não muito exacta. Gosto de me fazer rodear de gente diferente e adapto-me bem a qualquer situação. Sinto-me em casa com facilidade e acho sempre que o sítio onde cheguei é aquele onde vou ficar.

Sou um campónio com muito pouco de agrícola. Não me fascinam por aí além os animais e as plantas, apenas a serenidade, o silêncio, o conforto do conhecido, as noites estreladas e o vento de outono.

Assiste-me uma inquietude e um desassossego inebriantes. Vou, quedo-me, volto a partir. Há nisto algo de epopeico - num canto à escala, sem poesia nenhuma, claro - mas também de profundamente extenuante.

Boa, má; enorme, pequena; Assim é esta sensação de perceber que se pertence a todo o lado, sem se ser (sendo-se cada vez menos) de sítio algum.

Para onde irei, no dia em que quiser voltar?

14 de setembro de 2011

Pepetela

"Quem sabe, talvez a transgressão nunca fosse possível. Mas a granada existiu, essa granada que traçou no ar espantado do planalto a figura da mulher amada. Mas uma granada, mesmo com tal magia, pode materializar um Mundo?"

Foi leitura de um fim-de-semana recente esta Parábola do Cágado Velho. Não leio tanto quanto gostaria,  mas tenho desde há muito o hábito de me fazer acompanhar sempre de um livro. Trago-o comigo e chego a estar uma ou duas semanas sem o tirar de dentro da pasta. Ainda assim, ele lá continua, à espera de ser companhia numa pausa para café. 

Dentro da mesma pasta tenho também um bloco que uso para trabalhar e um outro, mais pequeno, de capa dura, que espera o dia em que me torne escritor, usando-o para posterizar ideias geniais.

Voltando aos livros, consumo-os muito mais quando saio de casa, durante dias de passeio ou mesmo de trabalho, desde que fora da minha área geográfica de todos os dias.

Foi assim com Parábola. Em Santo Antão, encontrei-o por mero acaso numa mesa de cabeceira na casa onde fiquei e, sem pedir autorização à sua proprietária, assumi-o como meu durante as 48 horas que se seguiram.

Gosto do Pepetela. Quando em Luanda, cruzámo-nos algumas vezes em eventos dos quais ambos tomámos parte. Trabalhava na altura para um canal de televisão e entrevistei-o brevemente em duas ou três ocasiões. Consentiu em agendar uma conversa mais demorada, que nunca chegou a acontecer.

Gosto, e volto à palavra porque é de gostar que se trata, da forma como escreve, mas também do seu ar sério e pesado. Nos seus livros, de contos e lendas tão simples, simples era a vida que nós complicámos, há sempre algo mais do que aquilo que o papel nos diz. 

Considero-o um dos maiores escritores africanos da actualidade, como virtuosa é a geração de Homens de letras que representa. 

Sendo eu neto de uma avó e filho de um pai que nasceram e cresceram a amar aquela terra para lá do Equador, sempre que o leio recordo-me das muitas histórias que ouvi enquanto crescia. Lembro-me ainda daquilo que eu próprio experimentei nos meus tempos de Angola.

Tenho tido a oportunidade de viajar, viver e estar em sítios diferentes e distantes uns dos outros. Tenho tido a sorte de conhecer gente extraordinária, que parece pertencer a outro mundo que não o nosso. Pepetela está nessa lista. 



12 de setembro de 2011

Llanto por un hijo

Reuters
Robert Peraza llora en el World Trade Center a su hijo David, que murió hace 10 años en los atentados del 11 de septiembre.... e provavelmente, a foto do ano. 

11 de setembro de 2011

Terrorismo

Dez anos depois, os ecrãs de televisão voltam a encher-se de imagens dos atentados terroristas contra o World Trade Center, em Nova Iorque. Na verdade, tem sido assim desde 2001. Sempre, a 11 de Setembro - quando não noutras datas - os alinhamentos dos telejornais recuperam aqueles minutos que todos já vimos e revimos 1001 vezes.

Terrorismo. Com o mediatismo que só os Estados Unidos conseguem conferir a qualquer acontecimento, a palavra entrou no léxico do cidadão comum e o conceito ganhou uma nova dimensão. 

Não chego a perceber até que ponto entrámos, a partir de então, numa nova ordem mundial. Houve uma renovada preocupação com a segurança global? Talvez. Mas acima de tudo, os atentados e  aameaça da repetição da tragédia têm servido como argumento político para justificar uma mudança de paradigma na forma como os estados se relacionam com os cidadãos (os seus e os outros) e na forma como, com o despudor de sempre, agora enquadrado num dúbio "supremo interesse nacional", as autoridades invadem e condicionam as liberdades individuais.

Ao abrigo da legitima-defesa, permitiram-se, indulgentemente, assassinatos e torturas, invasões de países soberanos, destruição de cidades e guerras sem fim. É que o tal mundo civilizado também faz justiça com as próprias mãos. 

9 de setembro de 2011

Islândia


Reiquejavique, capital da Islândia


"O castigo por não participares na política é acabares 
governado por pessoas piores do que tu"
Platão

Li ontem esta frase no blogue do Rui Tavares e desde então ando com ela na cabeça. Chamem-me chato, mas não me canso de insistir - e vou repetir a ideia tantas vezes quantas forem necessárias - que todos nós, cidadãos que não fazem política partidária, temos também uma grande responsabilidade na situação a que o nosso país. 

Pela nossa inércia, pelo nosso não querer saber, fomos deixando que os políticos profissionais, que, a ciclos, e desde há quarenta anos, governam Portugal, usassem e abusassem da coisa pública.

Ser cidadão, não se resume a ser-se contribuinte. Esse é o papel que que quem está no poder espera de nós.  Para a elite, quanto menos interventivos e conscientes formos, melhor. Ser cidadão é estar vigilante, é zelar pelo bem comum, é fazer parte da colectividade e defende-la como maior que o interesse individual. 

Nestes tempos de FMI fala-se - como tão bem escreveu o Rui - do exemplo islandês. A Islândia não é só retórica. Faz sentido, por ser verdade, apontar o caso de sucesso cívico deste país nórdico insular.

Gosto de estadistas e de líderes de rara elevação. A Portugal de 2011 faltam estes Homens maiores. Mas a Portugal de hoje faltam, acima de tudo, portugueses de vontade e com vontade. Gente de coragem, que pegue no seu próprio destino.

Temos no poder uma direita ultra-conservadora. Temos na oposição um partido que alinha com quem deveria discordar e uma esquerda radical que prefere faltar às reuniões onde se discute o futuro do país (é agora que sou lapidado pelos meus amigos comunistas).

A Islândia é o exemplo de que o mundo é um só, sim, mas que não é, nem precisa de ser, todo igual. 

8 de setembro de 2011

Mindelact 2011

Cartaz oficial da 17ª edição do Mindelact

Começa amanhã, no Mindelo, em São Vicente, a décima sétima edição do Mindelact, o festival internacional de teatro da cidade e uma das manifestações culturais mais importantes não só do país, como de toda a região africana em que Cabo Verde se insere.

Não estou a exagerar. São dezenas de grupos teatrais, actores e actrizes com vivências e percursos tão diferentes, como distintos são os países de onde chegam. Espanha, Brasil, Itália, Portugal, França, Marrocos, Angola, Alemanha, Polónia e, claro, Cabo Verde.

Aliás, a peça de abertura do festival, Bodas de Sangue, de Garcia Lorca, é assinada por um colectivo nacional que, esta sexta-feira, estreará a sua quadragésima sexta produção.

Nesta cidade há teatro. Bom e mau, como em tudo. Mas mais importante do que isso, há iniciativa e capacidade.

Para mim, que só cá estou há dois anos, o Mindelact é uma lição: a prova em como, num país tão marcado pela separação entre quem veste de verde e quem equipa de amarelo, se arregaçarmos as mangas, pusermos de lado o discurso fatalista, as guerrilhas pessoais e as diferenças ideológicas, conseguimos resultados de que todos, todos sem excepção, se podem e devem orgulhar.


7 de setembro de 2011

Silêncios


Não sou grande coisa com sentimentos. Aliás, corrijo-me, sou uma merda com sentimentos. Bom ou mau, prefiro quase sempre guardar o que sinto, ao invés de o dizer imediatamente. Nas relações de amizade e, especialmente, nas amorosas rendo-me ao comodismo do silêncio. 

Claro que isto é um disparate. O som oco das palavras que não são ditas é ainda mais ensurdecedor do que aquele que sai de uma discussão acesa, cheia de argumentos e opiniões. Ninguém preserva para sempre o que, por ser sobre outro alguém, não lhe pertence verdadeiramente.

Talvez por isso seja um pouco rancoroso. Acho sempre que perdoo depressa, que ultrapasso e esqueço o assunto mas afinal, dias, semanas ou meses depois, dou por mim a reavivar tudo, a fazer renascer uma discórdia passada. 

Acontece que as coisas fazem sentido quando fazem sentido. Se alguém me desilude hoje, então hoje é o tempo certo para que se saiba que assim foi.

Gostava de não ligar, de esquecer. Não consigo. Fica tudo aqui dentro, a consumir-me, fingindo dormir mas esgravatando. Faço metade do que quero fazer: evito o confronto, mas não passo por cima.

Sei que esta é uma parte importante da minha personalidade. Mas também sei - e portanto não pensem que me fazem passar por parvo - que não é a essencial. 

Quando estamos chateados com alguém, tendemos a reduzir essa pessoa ao pior dela própria. Como se, de repente, tudo o que de bom ela em nós representa perdesse o sentido. Aos nossos olhos, nem dois braços, nem duas pernas, rosto ou corpo inteiro. Ali, um sujeito que sequer ao nome próprio pode aspirar.

Felizmente, somos sempre mais do que quem olha vê. Felizmente, somos sempre mais do que quem vê quer ver.



24 de agosto de 2011

Anticonstitucionalissimamente

Quando era miúdo tinha o estranho passatempo de, com um amigo da mesma rua, aprender a pronunciar correctamente as maiores e mais difíceis palavras que encontrávamos na Grande Enciclopédia Larouse em dez volumes que ele tinha numa estante no corredor e que, a julgar pelo barulho das páginas a descolar, só nós usávamos.

Lembro-me do cheiro da casa dele. Cheirava a mofo e a gente. Sempre achei curioso o singular cheiro de cada casa e o facto de só os que não vivem nelas sentirem que, para lá dos móveis, existe algo que as distingue.

Sentavamo-nos na sala, onde, não raras vezes, estava a mãe dele, uma senhora magra, não muito simpática, mas atenciosa, que, ignorando-nos, via televisão, tapada com uma manta estampada com a qual cobria, em simultâneo, o aquecedor a óleo. 

Noutras vezes, íamos para a cozinha beber groselha. Detestava groselha, mas detestava ainda mais fazer-me de esquisito. Recordando os bons ensinamentos familiares, aceitava a oferta e, contorcendo-me, bebia tudo em quatro goles. 

O meu amigo, com um cérebro muito mais ágil do que o meu, aprendia as palavras com grande facilidade. Eu sempre precisei de mais alguns minutos. 

Aliás, com a sua destreza, era, à data, um pequeno inventor. Vivia rodeado de engenhocas, de projectos e experiências. Éramos bons companheiros e ele esperava que eu o acompanhasse nas demandas científicas. 

Acontece que, a mim, além das palavras, só me interessava mesmo perceber como é que os coelhos que tinha no quintal eram mortos e, mais tarde, entrando na puberdade, onde é que a sua irmã mais velha guardaria a roupa interior. 

Perdi-lhe o rasto e perdi-o da memória. Foi assim com quase toda a gente daqueles tempos de 90, em que se brincava na rua, se andava de bicicleta e se jogava à bola nas traseiras do prédio dos meus pais - Rua Fonte da Contenda, Lote D 27, 1º esquerdo.

Há dias, ao olhar para uma foto de então, recordei-me dele e também da Anabela, da Catarina, da Andreia, do Nelson, do Bruno e do outro Bruno.

Vestia um kispo horrível, usava umas calças cor de caca e tinha uns óculos maiores do que a minha cara gorda. 

Tenho saudades de poucas coisas e não tenho saudades do 5º A. Sentia-me bem lá, como me sinto bem aqui. Agora, que foi um longo caminho, lá isso foi. 


14 de julho de 2011

Daqui até Ressano Garcia

Imagem retirada do site http://boagente.blogspot.com

O cheiro é pérfido e não preciso de subir mais do que o primeiro degrau para ficar enjoado. Uma mistura de suor e urina que invade as narinas e, por instantes, nos faz pensar em recuar. "Esta merda não é uma boa ideia".

A estação de caminhos de ferro de Maputo é um edifício histórico, referenciado por quem se interessa por essas coisas e cenário de algumas cenas do filme Diamantes de Sangue

O bilhete é barato e a viagem relativamente curta. São apenas três horas de caminho até Ressano Garcia, uma povoação fronteiriça, no sul de Moçambique, e um daqueles lugares onde o que parece não é e o que é por vezes desaparece.

Quinze meticais (pouco mais de 30 cêntimos) chegam para se ter acesso à plataforma de embarque, para lá do velho portão de ferro que o segurança acaba de abrir.

Dezenas de pessoas correm em direcção ao comboio. Confiro o relógio e ainda faltam vinte minutos até à hora da saída. 

Maputo acorda cedo, como o sol. A partir das cinco e meia instala-se um burburinho que cresce à medida que as ruas são invadidas pela luz que não aquece, num dos cacimbos mais frios dos últimos anos. São sete e vinte e cinco.

Procuro um lugar. Tento escolher a melhor posição. Quero observar e passar despercebido, mas também quero alguma distância da casa de banho sem água, cuja porta não fecha (no lavabo do outro lado da carruagem a porta sequer existe).

Sento-me sensivelmente a meio, num banco com a lona vermelha rasgada. À minha frente, por enquanto, ninguém. Meia-casa, "porreiro". Estico as pernas. 

Está na hora e partimos à tabela. Concentro-me no que se passa lá fora e tento ver alguma coisa pela janela imunda. Uma barata passeia-se pelo vidro e outra segue-lhe o rasto.

"Refresco, refresco", grita um dos rapazes de bata azul aos quadrados. "Pão, bolachas, saldo", anuncia outro.

Paramos em lugares imprevistos. Na maior parte dos casos, não existem estações, apenas metáforas. Paramos muito e muito tempo. Para estas povoações, que cresceram propositadamente ao longo da linha férrea, estes dez minutos de descanso da marcha são o momento alto do dia. Tudo se passa neste fragmento. Gente que sobe e gente que desce. Gente que espera e gente que se limita a olhar sem esperar nada. 

De repente, deixo de conseguir esticar as pernas. De repente, deixo de ter onde pôr a mochila. De repente, deixo de conseguir baixar os braços, que terão ficado algures entre duas pessoas. Sem que me tivesse apercebido, o comboio lotou. Será assim até Moamba, terra com nome de comida. Pensando nisso, já almoçava.

Entre apertos, ruído e embalo, deixo-me ir. Não me lembro de tudo. Devo ter adormecido ou, pelo menos, mergulhado numa suave letargia.

"Refresco, refresco"; "Pão, bolachas, saldo"; "Refresco, saldo, pão, bolachas"; "Bolachas, refresco, saldo"; "Refresco, refresco, pão".

Há uma mulher a dar de mamar. Há outra a comer peixe e a cuspir as espinhas. Está uma criança à minha frente a lamber um chupa. Tem a cara e as mãos sujas e acaba de as limpar às minhas calças. Pego nela ao colo e conversamos por gestos e sons durante largos minutos.

Estamos a chegar. Percebe-se pela movimentação. As capulanas voltam a ser amarradas à cintura, as caixas de plástico regressam ao interior dos sacos, os miúdos são novamente presos às costas das suas mães, num habilidoso movimento de braços.

Tomo posição numa das portas da carruagem e cumpro um sonho de infância: viajar sentado nas escadas, com as pernas para o lado de fora. Acendo um cigarro. Habitualmente não fumo, mas o momento exige celebração. A velocidade, que nunca foi grande, diminui. 

Ressano Garcia tem pó. Tem armazéns e tem gente. Ricos, pobres e duvidosos. Interessam-me estes, acima de tudo.  

Logo ali está a África do Sul. Lícita ou ilicitamente é possível comprar e vender quase tudo. Às claras, ou neste beco para o qual me convidaram. Telemóveis e computadores. Televisores e microondas. Tecnologia mais ou menos moderna, mais ou menos interessante. Um tax free de aeroporto, no quintal da casa de alguém.

Tenho fome. Entro num café e peço uma bifana. "Uma bifana e uma Laurentina, por favor". Média. Clara. "Essa cerveja bem fresca, sim?"