5 de outubro de 2011

Barba (e cabelo)


Tenho uma relação difícil com a barba. Falta-lhe a consistência e a regularidade necessárias.

Experimentei máquinas descartáveis, lâminas e máquina eléctrica. O resultado foi sempre desastroso.

Desde que estou no Mindelo, e salvo raras excepções, todas as semanas vou ao barbeiro. Na barbearia da esquina, sento-me na cadeira - uma clássica, com mais de 50 anos - que o senhor Chico recosta para trás.

Bata vestida, navalha na mão, borrifa-me a cara, antes de perguntar: "O de sempre?". 

Nhô Chico gosta de um trabalho bem feito e não se inibe de criticar quando vê um cabelo mal cortado ou uma barba mal aparada.

Sem cuidar de saber se os clientes têm pressa, com a legitimidade própria de quem, aos setenta, ainda se levanta todos os dias antes do sol para uma caminhada na cidade e umas braçadas na Laginha, o artista demora o seu tempo: ele demora, eu espero sem refilar e assim nos entendemos. 

Certo dia, depois de uma ausência de algumas semanas (nas quais recorri aos serviços da concorrência), vendo-me passar, inspecciona-me e lança: "Quem é que lhe fez isso?"; "Isso?"; "Esse serviço aí em cima?". Fez-me entrar para "resolver o problema", porque "um homem com mau corte não tem como andar na rua de cabeça levantada". 

Dez minutos depois, sem querer saber de pagamento, mandou-me à minha vida, não sem antes deixar um aviso: "eu que o apanhe mais uma vez nesses preparos e fica sem um cabelo que seja para contar a história".

Desta quase rotina, gosto do regresso aos clássicos e gosto, acima de tudo, de me olhar ao espelho e conseguir ver no reflexo um gajo que até parece já ter barba de gente grande.

3 de outubro de 2011

Teia


Há por aí muita parvoíce. Nos blogues, mostram-se as roupas que se vestem, aquelas que já se vestiram, combinações de saias, tops, blusas, sapatos, malas e demais acessórios. Nas redes sociais, copiam-se  e colam-se estados, como antigamente se reencaminhavam e-mails. 

Anda toda a gente preocupada com a privacidade que tem, que não tem, que perdeu, que vai perder, e decidem discutir o assunto num sítio que tem tudo a ver com partilha e ao qual todos chegámos por vontade própria.

Desocupados, ocupados, desocupados de quem se esperava ocupação, entopem as caixas de comentários dos sites de notícias com ódio destilado.

A Internet dá-nos liberdades. A de expressão e a outra, a de dever estar calado e escolher não o fazer. Espera-se de nós que tenhamos sempre uma opinião e nós temo-la, mesmo que só por ter.

Ligámo-nos uns aos outros, deixámos um rasto que nos persegue, criámos uma vida paralela e, às tantas, deixámos de saber onde começa o virtual e acaba o real.

Sou daqueles que está, um dos que se ligou. Não estou mais do que quero estar, porque, simplesmente, aquilo de meu que cá está não sou eu, apenas parte de mim.


2 de outubro de 2011

Chá


Não sei quando é que me tornei uma pessoa de chá, mas hoje bebo-o várias vezes ao dia. 

Prefiro-o preto e sempre que com um pouco de leite, sem açúcar . De manhã e à noite, com toda a certeza. Depois do almoço, se ao fim-de-semana.

Não sou grande fã de rotinas, mas gosto de rituais. A chávena que comprei propositadamente, a água a ferver, os minutos de espera. 

30 de setembro de 2011

Hoje


O toque às cinco e trinta,  última aula, camisola ligeiramente para cima, a descobrir o pulso, para ver o relógio, a professora de Inglês, o toque às seis e vinte. 

Como é que naquele tempo cinquenta minutos demoravam tanto a passar?

Paragem cheia de gente, autocarro, Rodoviária do Sul do Tejo. Torre da Marinha, Casal do Marco, Padaria Central, ponte, auto-estrada lá em baixo, Pinhal de Frades.

Ritmo acelerado, curva à direita, casa do dentista, curva à esquerda, casa da velha, fábrica das batatas fritas Dalimar. Sempre em frente, um prédio, outro, terceiro, quarto. D 27, primeiro esquerdo. Mochila na entrada, à rasca para mijar, casa de banho, ufa.

"Lavaste as mãos?". 

É Sexta-feira. Bom fim-de-semana.

29 de setembro de 2011

Monos

Uma das coisas que aprendi nestes anos que levo entre Angola e Cabo Verde é que tudo tem uma segunda vida. Não estou a fazer poesia, até porque não existe nada de lírico em ter o frigorífico avariado, que foi o que me aconteceu.

Lembro-me de ser garoto e de, lá em casa, sempre que se estragava alguma coisa, a primeira preocupação ser tentar repara-la.

Tudo era passível de conserto. Varinhas mágicas, ferros de engomar, televisões, rádios, máquinas de lavar, de barbear e por aí adiante.

Claro que nesses tempos os electrodomésticos tinham outra resistência, mas acho que o fazíamos, essencialmente, porque a vida nos era mais difícil.

Entretanto, Portugal transformou-se num canteiro de Wortens. Deixou de compensar arranjar o velho, porque passou a sair mais barato comprar novo.

Ainda assim, as coisas mudam quando não está tudo acessível ou quando, estando, o preço é quase pornográfico. 

Aqui onde vivo - cidade onde faltou o fiambre durante um mês - tudo tem uma vida muito para lá de útil. Há sempre alguma coisa a fazer, nem que seja apertar com um arame. Nada de se deita fora. 

A oficina onde deixei o frigorífico parece um cemitério de monos brancos, alguns dos quais meio esventrados, sem partes e peças que passaram para outros à procura de salvação. É que mesmo quando não há nada a fazer, há sempre alguma coisa que pode ser feita.





23 de setembro de 2011

Do Amor, esse filho da puta

... e das horas que ele nos dá.
Sobre esse assunto ouvirás dizer que o amor é onde tudo começa e acaba, a melhor coisa da vida e o que faz mover o mundo. Dir-te-ão que nada supera o acto de. Ouvirás tudo isto, o muito mais que te vão contar, e acreditarás.

Depois, sem saberes ao certo como é que a teoria sobre a qual te disseram se realiza na prática, chegará a hora em que julgarás amar alguém. Será cruel, será duro e dramático. Acharás que morres, que assim não pode ser, que sozinho(a) não és capaz. Beijarás e com esse beijo quererás casar, viver feliz para sempre. Afinal, estarás na idade em que o teu eterno é imediato e terminará algures entre o 8º e o 9º ano. 

Crescerás, ainda bem e ainda assim. Farás sexo com outra pessoa que não aquela. Não vai ser tão bom quanto tinhas imaginado, mas sobre isso falarás com propriedade. Eis-te chegado(a) ao clube dos que amam abaixo da cintura. 

Voltarás a amar mais uma vezes, a apaixonar-te pelo menos - porque entenderás a diferença - e de cada vez olharás para o ridículo do teu passado, do tão estúpido(a) que foste.

Cairás e levantar-te-às. Pensarás ser a última, que desta é que é, que agora nunca mais. E apesar das tuas certezas, andarás em círculos, a fazer hoje o que ontem nem pensar.

Até que um dia repousarás. Perceberás que amor é isto e não aquilo. Nem tão muito como antes, nem tão pouco como depois.

Amar-te-às primeiro e amarás só a quem te ama. Não reverterás a equação. Estarás mais esperto(a), mais atento(a), até mais desconfiado(a). Mas estará pronto(a) para perceber que o teu tempo é o presente.

Porque hoje é o dia e não há momentos certos. Que somos nós que nos temos, mas que também é bom sermos tomados por outro alguém. 

22 de setembro de 2011

Inês


Do que eu gosto nela é do seu pragmatismo, da certeza que coloca à vida e da forma como, tendo idade para não saber grande coisa a seu respeito, tão bem conhece o chão que pisa.

Do seu talento, dos 19 valores como média de final de curso, da ida para estudar e trabalhar em Nova Iorque, dos prémios e da carreira promissora, não tiro nada, a não ser a naturalidade de quem, satisfeito, já esperava que dali resultasse algo que, podendo não ser nestes termos, se-lo-ia sempre em outros, no mínimo, semelhantes. O que me importa é a assertividade que coloca naquilo que faz.

Vi-a crescer, como quem cresce. Tornar-se mulher, como quem se torna mulher. Fazer-se, como quem se faz.  É disso que se trata: ser como quem tem de ser.

Dela ficaria a avó Minda orgulhosa. Do alto do seu metro e cinquenta, sorriria satisfeita por, como era seu desejo, um dos netos ter encontrado na música uma forma de ser feliz.

Boa vida, Inês. Boa vida e boa sorte.

20 de setembro de 2011

O velho


Passado um bocado, com as ideias amaciadas pelo álcool, mantendo ainda a lucidez, revela o seu lado mais sentimental.

As rugas crivadas no rosto conferem-lhe, quase sempre, um ar duro, de homem sofrido, amargurado. Naquele fim de tarde, porém, sentado num banco de madeira gasta, com as costas apoiadas na parede por caiar da sua pequena casa e os olhos postos no mar que, como poucos, e como a nada, conhece bem, o seu rosto diz de si apenas que o tempo passou. "Não te foi fácil esta passagem por aqui, meu velho", parece segredar o lado mais visível da idade.

A garrafa de qualquer coisa forte - pouco interessa o que é, desde que forte - está a menos de um quarto. Existem dois copos. O seu, nunca vazio - embora nunca cheio - poisado por breves segundos na laje de pedra. O outro, do interlocutor que o acompanha naquele fim de tarde, metade cheio, a baloiçar entre dois dedos.

Quem o escuta é muito mais novo. Quem o ouve nas seis e meia do outono em Agosto sou eu próprio. "Está frio aqui", arrisco enquanto me preparo para sentar à sua frente, a não mais de um metro de distância. "Não se sente aí, vai tapar a vista e nunca devemos virar as costas ao mar", avisa, sem responder ao desabafo meteorológico.

"Quer saber o quê, afinal?", pergunta indisposto. Bem sei que foi a contragosto que consentiu receber-me. Chegou àquela fase da vida em que não deve palavras a ninguém. Deve-se a si próprio e, mesmo assim, só para não cair em omissão.

Quero saber tudo, na realidade. Dos tempos passados, das memórias de criança, da primeira vez no mar, dos sustos, as desilusões, o encanto e o seu oposto.

"Já volto", diz, enquanto se levanta. Regressa com a garrafa e os copos. Coloca-os frente a frente, servindo-os. Mira-os, na sua 'bedjice' e estende-me o menos estalado.

Fala. Sobre o que lhe perguntaria e o que não julgava apropriado querer perguntar. Não houve um mote,  um 'como é que...?'. 

Duas horas e trinta minutos de uma existência quase centenária, num monólogo sem interrupções, porque nenhuma faria sentido. Mostro-me atento, interessado. Mais, estou cativado. 

De repente, um silêncio, o primeiro. "A minha vida foi uma merda, sabe? Mas não a trocava por nada". Ergue-se com um ligeiro esgar, arrasta os pés e ao entrar em casa, antes de fechar a porta, avisa: "não se atreva a roubar-me os copos". 


19 de setembro de 2011

Número 42

A Dona Ricardina voltou-se a esquecer de tirar a roupa da corda. Pendurou-a ao final da manhã, altura em que o sol cobre de luz directa a apertada rua e ilumina as fachadas envelhecidas. A humidade que desce neste final de tarde rapidamente poisará sobre as blusas e a saias - negras, do luto - as toalhas e os lençóis - brancos, de simplicidade.

Ainda não se vê o número 42. Ao longo dos 200 metros de ombreiras alinhadas há uma mistura de cheiros no ar. Aqui, torradas e chá. Adiante, a cebola queimada do refogado há demasiado tempo no lume.

Nem todas as casas estão ocupadas. Em muitas, a tinta em sobrepostas camadas começou a sair, desvendando o cimento, também ele envelhecido e rasgado, como se de rugas se tratassem as fendas abertas com os anos.

Uma portada aberta balança com a aragem. Devagar. A espaços, percebe-se o chiar das dobradiças a precisar de óleo.

A estrada é o passeio, mas por aqui passam poucos carros. De vez em quando, como acontece com este Fiat verde escuro, matricula de 92, alguém se lembra de tapar o caminho. De nada servem os avisos da câmara e os reparos dos vizinhos. "Mas custa muito estacionar no parque, merda?"

Pedi ao empreiteiro que pintasse a porta de verde e ele pintou, só que por cima do vermelho que agora se volta a ver.

Cansado, procuro a chave. Bolso da direita, da esquerda; casaco; pasta. "Onde é que a meti?". Um passo atrás, subo o olhar pela parede e procuro luz a sair por uma das janelas no primeiro andar.

Gosto de sítios com história. Às casas, prefiro-as antigas. Sempre que me mudo, transporto comigo o que não deixo para trás. E deixo sempre alguma coisa. Seja um utensílio de cozinha, um varão de cortina, um objecto pessoal dentro da gaveta.

Por isso, quando chego de novo, procuro sempre um sinal da presença que me antecedeu. A mancha de uma quadro que já esteve pendurado, a marca dos móveis no chão de madeira, um pano do pó ou as molas na corda da roupa.

Preciso do que contar. Encontro e invento, como inventada é a parte deste texto que não chegou a acontecer. Imagino. Gosto da sensação de continuidade dos lugares que eram antes de chegarmos e que ficam depois de partirmos.


16 de setembro de 2011

Memória

Riram-se sem saber que era por eles que os outros choravam.

A memória. É também disso que somos feitos. Individual e colectivamente, a nossa história, as recordações que trazemos, as que não vivemos mas que nos contaram, são parte de nós. Há algo mais do que a matéria das carnes.

Algo de intangível e imensurável consubstancia-nos, dá conteúdo à forma. Felizmente, o presente não nos basta, não me basta a mim, pelo menos. 

Perco muito tempo a tentar perceber o porquê das coisas e gosto de enquadrar o hoje no dia anterior. Na minha profissão chamamos-lhe 'dar contexto'. Contextualizar um acontecimento, perceber a conjuntura - causa, efeito - ajuda-nos a inteligir melhor a realidade.

Uma sociedade sem lembrança, sem conhecimento da sua história, é uma sociedade ignorante, irresponsável e, acima de tudo, uma sociedade frágil, exposta.

Não podemos esperar dos outros que assumam a sua condição de parte de um todo, se a eles o colectivo não passa de algo conceptual, sem conversão prática.

Vem isto a propósito de uma conversa recente com um amigo aqui do Mindelo (de Cabo Verde), sobre o que não está a ser feito para posterizar um passado que, gostemos ou não, é o desta cidade. Edifícios históricos são demolidos ou desprezados, calçadas são substituídas por asfalto, riquíssimas colecções de fotografias ficam ao abandono.

A sede pelo progresso, pelo que é moderno, pelo "que se faz lá fora", fazer igual, ser igual, ter igual, tolda-nos o juízo perfeito. Faz de nós carneirada. Estúpidos ao ponto de não percebermos que, se somos iguais, não há diferença que justifique uma visita. Os lugares interessam-nos pela singularidade.

O passado é o que nos une. O suor e as lágrimas que os bravos derramaram, os edifícios que braços fortes ergueram, os poemas que Homens iluminados escreveram.

Existe, em muitos países, a tentação de apagar o que foi, ou parte dele. Fazem-no porque, fazendo-o, nos contam apenas o que lhes interessa que saibamos, não sabendo eles próprios, porém, que uma Nação sem ontem, é, quase de certeza, uma nação sem amanhã. Sozinhos não nos bastamos.