12 de outubro de 2011

A casa

Calculo que tenham sobrado da obra os mosaicos partidos que cobrem o passeio na entrada do prédio. A porta de ferro parece um improviso. É que, transpondo-a, existem dois canteiros daqueles que costumam ficar do lado de fora e não de dentro. Dois canteiros e outra porta. São duas, então.

A parede das escadas, pintada de amarelo, precisa de tinta. Aliás, não sou engenheiro mas acho que precisa de mais do que isso. Deve haver algum cano roto.

São três andares até lá e lá é onde eu moro, mesmo antes do terraço. Primeiro: duas portas, uma ao lado da outra; direito, esquerdo; um par de apartamentos, ambos vazios, alugados ocasionalmente e ao dia a emigrantes ou turistas barulhentos. Segundo (estou a contar os andares): senhorio; Eugénio, viúvo, dois filhos que se saiba; no patamar, um arranjo floral de plástico, um leque gigante e um vaso que me faz tropeçar diariamente.

Terceiro e é aqui. Chegando, a porta está logo em frente. Tem ela um postigo que costumo deixar aberto.

Não, não é só pequena a minha casa. É esquisita. Parece o pedaço de uma coisa maior, porque, de facto, é disso que se trata: de um retalho arrancado ao T4 que antes existia. 

As janelas são altas e o o tecto baixo (não tão altas, nem tão baixo, porém). Nunca está quente. Enquanto todos se queixam de calor, à noite tenho de me cobrir melhor para não ter frio. 

Tem móveis baratos, móveis que mandei fazer, móveis que outros começaram e eu acabei, moveis que eu próprio fiz do princípio ao fim. Tem também um gato. Tinha outro, mas fugiu. Pela janela. Calculo que tenha morrido e só espero que não tenha sido suicídio. Detesto depressivos.

A minha casa, que é a mais pequena e estranha onde já morei (a segunda mais estranha, agora que penso nisso), é de todas a melhor. Morar num sítio assim... é como morar num sítio assim. É bom. 

6 de outubro de 2011

Fantasia



Aqui me confesso: falo com gente que não existe. Todos os dias mantenho diálogos improváveis.

Não sou esquisito: faço-o tanto em casa como na rua. Sem grande pudor, evito apenas gestos largos e um tom demasiado elevado. Fujo aos embaraços, mas às vezes não tenho como evita-los. Ocasionalmente, um transeunte indignado-me mira-me de soslaio tentando perceber se estou em mim ou noutro alguém. 

Tenho-me, então, noutros que não apenas eu. E, tendo-me fora, posso estar em qualquer lugar, na melhor ou pior companhia. Discuto o mundo e a existência. Raramente chego a conclusões.

Se me olho ao espelho e vejo-o tão igual, estudo as expressões, a gravidade do olhar, o balancear da cabeça que diz e que ouve ao mesmo tempo, sem saber quem faz o quê, se eu ou ele.

Num passeio, faço pausas e atento nas perguntas. Respondo sempre. Quem diz que não me entende, que não percebe o meu lado de lá, talvez deva procurar o velho com cabelo grisalho, andar cambaleante, olhos papudos e óculos redondos, sempre descaídos na ponta do nariz.

As personagens que crio, são parte do meu real imaginário, daquele fragmento que só a mim diz respeito. Projectam a meu respeito uma imagem insana, mas se é esse o preço a pagar para manter a fantasia, podem trazer a factura. 


5 de outubro de 2011

Barba (e cabelo)


Tenho uma relação difícil com a barba. Falta-lhe a consistência e a regularidade necessárias.

Experimentei máquinas descartáveis, lâminas e máquina eléctrica. O resultado foi sempre desastroso.

Desde que estou no Mindelo, e salvo raras excepções, todas as semanas vou ao barbeiro. Na barbearia da esquina, sento-me na cadeira - uma clássica, com mais de 50 anos - que o senhor Chico recosta para trás.

Bata vestida, navalha na mão, borrifa-me a cara, antes de perguntar: "O de sempre?". 

Nhô Chico gosta de um trabalho bem feito e não se inibe de criticar quando vê um cabelo mal cortado ou uma barba mal aparada.

Sem cuidar de saber se os clientes têm pressa, com a legitimidade própria de quem, aos setenta, ainda se levanta todos os dias antes do sol para uma caminhada na cidade e umas braçadas na Laginha, o artista demora o seu tempo: ele demora, eu espero sem refilar e assim nos entendemos. 

Certo dia, depois de uma ausência de algumas semanas (nas quais recorri aos serviços da concorrência), vendo-me passar, inspecciona-me e lança: "Quem é que lhe fez isso?"; "Isso?"; "Esse serviço aí em cima?". Fez-me entrar para "resolver o problema", porque "um homem com mau corte não tem como andar na rua de cabeça levantada". 

Dez minutos depois, sem querer saber de pagamento, mandou-me à minha vida, não sem antes deixar um aviso: "eu que o apanhe mais uma vez nesses preparos e fica sem um cabelo que seja para contar a história".

Desta quase rotina, gosto do regresso aos clássicos e gosto, acima de tudo, de me olhar ao espelho e conseguir ver no reflexo um gajo que até parece já ter barba de gente grande.

3 de outubro de 2011

Teia


Há por aí muita parvoíce. Nos blogues, mostram-se as roupas que se vestem, aquelas que já se vestiram, combinações de saias, tops, blusas, sapatos, malas e demais acessórios. Nas redes sociais, copiam-se  e colam-se estados, como antigamente se reencaminhavam e-mails. 

Anda toda a gente preocupada com a privacidade que tem, que não tem, que perdeu, que vai perder, e decidem discutir o assunto num sítio que tem tudo a ver com partilha e ao qual todos chegámos por vontade própria.

Desocupados, ocupados, desocupados de quem se esperava ocupação, entopem as caixas de comentários dos sites de notícias com ódio destilado.

A Internet dá-nos liberdades. A de expressão e a outra, a de dever estar calado e escolher não o fazer. Espera-se de nós que tenhamos sempre uma opinião e nós temo-la, mesmo que só por ter.

Ligámo-nos uns aos outros, deixámos um rasto que nos persegue, criámos uma vida paralela e, às tantas, deixámos de saber onde começa o virtual e acaba o real.

Sou daqueles que está, um dos que se ligou. Não estou mais do que quero estar, porque, simplesmente, aquilo de meu que cá está não sou eu, apenas parte de mim.


2 de outubro de 2011

Chá


Não sei quando é que me tornei uma pessoa de chá, mas hoje bebo-o várias vezes ao dia. 

Prefiro-o preto e sempre que com um pouco de leite, sem açúcar . De manhã e à noite, com toda a certeza. Depois do almoço, se ao fim-de-semana.

Não sou grande fã de rotinas, mas gosto de rituais. A chávena que comprei propositadamente, a água a ferver, os minutos de espera. 

30 de setembro de 2011

Hoje


O toque às cinco e trinta,  última aula, camisola ligeiramente para cima, a descobrir o pulso, para ver o relógio, a professora de Inglês, o toque às seis e vinte. 

Como é que naquele tempo cinquenta minutos demoravam tanto a passar?

Paragem cheia de gente, autocarro, Rodoviária do Sul do Tejo. Torre da Marinha, Casal do Marco, Padaria Central, ponte, auto-estrada lá em baixo, Pinhal de Frades.

Ritmo acelerado, curva à direita, casa do dentista, curva à esquerda, casa da velha, fábrica das batatas fritas Dalimar. Sempre em frente, um prédio, outro, terceiro, quarto. D 27, primeiro esquerdo. Mochila na entrada, à rasca para mijar, casa de banho, ufa.

"Lavaste as mãos?". 

É Sexta-feira. Bom fim-de-semana.

29 de setembro de 2011

Monos

Uma das coisas que aprendi nestes anos que levo entre Angola e Cabo Verde é que tudo tem uma segunda vida. Não estou a fazer poesia, até porque não existe nada de lírico em ter o frigorífico avariado, que foi o que me aconteceu.

Lembro-me de ser garoto e de, lá em casa, sempre que se estragava alguma coisa, a primeira preocupação ser tentar repara-la.

Tudo era passível de conserto. Varinhas mágicas, ferros de engomar, televisões, rádios, máquinas de lavar, de barbear e por aí adiante.

Claro que nesses tempos os electrodomésticos tinham outra resistência, mas acho que o fazíamos, essencialmente, porque a vida nos era mais difícil.

Entretanto, Portugal transformou-se num canteiro de Wortens. Deixou de compensar arranjar o velho, porque passou a sair mais barato comprar novo.

Ainda assim, as coisas mudam quando não está tudo acessível ou quando, estando, o preço é quase pornográfico. 

Aqui onde vivo - cidade onde faltou o fiambre durante um mês - tudo tem uma vida muito para lá de útil. Há sempre alguma coisa a fazer, nem que seja apertar com um arame. Nada de se deita fora. 

A oficina onde deixei o frigorífico parece um cemitério de monos brancos, alguns dos quais meio esventrados, sem partes e peças que passaram para outros à procura de salvação. É que mesmo quando não há nada a fazer, há sempre alguma coisa que pode ser feita.





23 de setembro de 2011

Do Amor, esse filho da puta

... e das horas que ele nos dá.
Sobre esse assunto ouvirás dizer que o amor é onde tudo começa e acaba, a melhor coisa da vida e o que faz mover o mundo. Dir-te-ão que nada supera o acto de. Ouvirás tudo isto, o muito mais que te vão contar, e acreditarás.

Depois, sem saberes ao certo como é que a teoria sobre a qual te disseram se realiza na prática, chegará a hora em que julgarás amar alguém. Será cruel, será duro e dramático. Acharás que morres, que assim não pode ser, que sozinho(a) não és capaz. Beijarás e com esse beijo quererás casar, viver feliz para sempre. Afinal, estarás na idade em que o teu eterno é imediato e terminará algures entre o 8º e o 9º ano. 

Crescerás, ainda bem e ainda assim. Farás sexo com outra pessoa que não aquela. Não vai ser tão bom quanto tinhas imaginado, mas sobre isso falarás com propriedade. Eis-te chegado(a) ao clube dos que amam abaixo da cintura. 

Voltarás a amar mais uma vezes, a apaixonar-te pelo menos - porque entenderás a diferença - e de cada vez olharás para o ridículo do teu passado, do tão estúpido(a) que foste.

Cairás e levantar-te-às. Pensarás ser a última, que desta é que é, que agora nunca mais. E apesar das tuas certezas, andarás em círculos, a fazer hoje o que ontem nem pensar.

Até que um dia repousarás. Perceberás que amor é isto e não aquilo. Nem tão muito como antes, nem tão pouco como depois.

Amar-te-às primeiro e amarás só a quem te ama. Não reverterás a equação. Estarás mais esperto(a), mais atento(a), até mais desconfiado(a). Mas estará pronto(a) para perceber que o teu tempo é o presente.

Porque hoje é o dia e não há momentos certos. Que somos nós que nos temos, mas que também é bom sermos tomados por outro alguém. 

22 de setembro de 2011

Inês


Do que eu gosto nela é do seu pragmatismo, da certeza que coloca à vida e da forma como, tendo idade para não saber grande coisa a seu respeito, tão bem conhece o chão que pisa.

Do seu talento, dos 19 valores como média de final de curso, da ida para estudar e trabalhar em Nova Iorque, dos prémios e da carreira promissora, não tiro nada, a não ser a naturalidade de quem, satisfeito, já esperava que dali resultasse algo que, podendo não ser nestes termos, se-lo-ia sempre em outros, no mínimo, semelhantes. O que me importa é a assertividade que coloca naquilo que faz.

Vi-a crescer, como quem cresce. Tornar-se mulher, como quem se torna mulher. Fazer-se, como quem se faz.  É disso que se trata: ser como quem tem de ser.

Dela ficaria a avó Minda orgulhosa. Do alto do seu metro e cinquenta, sorriria satisfeita por, como era seu desejo, um dos netos ter encontrado na música uma forma de ser feliz.

Boa vida, Inês. Boa vida e boa sorte.

20 de setembro de 2011

O velho


Passado um bocado, com as ideias amaciadas pelo álcool, mantendo ainda a lucidez, revela o seu lado mais sentimental.

As rugas crivadas no rosto conferem-lhe, quase sempre, um ar duro, de homem sofrido, amargurado. Naquele fim de tarde, porém, sentado num banco de madeira gasta, com as costas apoiadas na parede por caiar da sua pequena casa e os olhos postos no mar que, como poucos, e como a nada, conhece bem, o seu rosto diz de si apenas que o tempo passou. "Não te foi fácil esta passagem por aqui, meu velho", parece segredar o lado mais visível da idade.

A garrafa de qualquer coisa forte - pouco interessa o que é, desde que forte - está a menos de um quarto. Existem dois copos. O seu, nunca vazio - embora nunca cheio - poisado por breves segundos na laje de pedra. O outro, do interlocutor que o acompanha naquele fim de tarde, metade cheio, a baloiçar entre dois dedos.

Quem o escuta é muito mais novo. Quem o ouve nas seis e meia do outono em Agosto sou eu próprio. "Está frio aqui", arrisco enquanto me preparo para sentar à sua frente, a não mais de um metro de distância. "Não se sente aí, vai tapar a vista e nunca devemos virar as costas ao mar", avisa, sem responder ao desabafo meteorológico.

"Quer saber o quê, afinal?", pergunta indisposto. Bem sei que foi a contragosto que consentiu receber-me. Chegou àquela fase da vida em que não deve palavras a ninguém. Deve-se a si próprio e, mesmo assim, só para não cair em omissão.

Quero saber tudo, na realidade. Dos tempos passados, das memórias de criança, da primeira vez no mar, dos sustos, as desilusões, o encanto e o seu oposto.

"Já volto", diz, enquanto se levanta. Regressa com a garrafa e os copos. Coloca-os frente a frente, servindo-os. Mira-os, na sua 'bedjice' e estende-me o menos estalado.

Fala. Sobre o que lhe perguntaria e o que não julgava apropriado querer perguntar. Não houve um mote,  um 'como é que...?'. 

Duas horas e trinta minutos de uma existência quase centenária, num monólogo sem interrupções, porque nenhuma faria sentido. Mostro-me atento, interessado. Mais, estou cativado. 

De repente, um silêncio, o primeiro. "A minha vida foi uma merda, sabe? Mas não a trocava por nada". Ergue-se com um ligeiro esgar, arrasta os pés e ao entrar em casa, antes de fechar a porta, avisa: "não se atreva a roubar-me os copos".