12 de janeiro de 2012

Cabral ca morrê


O fotógrafo e meu amigo Diogo Bento inaugura segunda-feira, no Mindelo, uma exposição de fotografia sobre o legado de Amilcar Cabral no Cabo Verde dos nossos dias.

Os detalhes estão na imagem acima.

Homens de avental


Não sei se chego a perceber o porquê de tanto ruído em torno da maçonaria. Nós, os jornalistas, temos disto. De vez em quando, arranjamos um tema e durante semanas não conseguimos falar de outra coisa. O problema é que a partir do segundo dia já não acrescentamos nada de novo à discussão e o que se segue são matérias enfadonhas, com mais do mesmo.

A coisa resultou? O público mostrou-se interessado? Então vamos continuar, escarafunchar até não sobrar nada. Matar o assunto. Insistimos tanto, tão depressa e com tanta preguiça que o desfecho acaba por ser sempre igual: saturamos as pessoas e saturamo-nos a nós próprios.

Tendo em conta a histeria dos últimos dias, parece que descobrimos agora que a maçonaria existe. Pior. Como se até há duas semanas ninguém soubesse que o Parlamento, a vida política e pública em geral estão cheios de maçons.

A coisa é tão evidente que na Assembleia da República existe uma casa de banho - sim, sanitários - que assinala, desde há anos, a presença maçónica naquele órgão de soberania. Pois: lavabos com o tradicional preto e branco do movimento.

Perante a evidência - não deve haver organização secreta mais pública do que esta - mãos ao céu, vêm os iluminados do costume defender uma declaração de interesses, exigir que quem é - porra, são quase todos - seja obrigado a dize-lo.

Mesmo que o fizessem, o que é que aconteceria a seguir? A política em Portugal transformar-se-ia numa coisa primaveril? 

Grupos de pressão existirão sempre. Chamemos-lhes maçonaria, Sonae ou Isabel dos Santos, o resultado há-de ser idêntico.

Posto isto, recentremos a discussão no essencial: os tipos apertam o avental sozinhos ou pedem ajudam ao maçon do lado?



Esta publicação também pode ser lida aqui:

11 de janeiro de 2012

Guantanamo

A pior face do homem. É isso que representa Guantanamo, prisão que hoje cumpre dez anos de funcionamento.
Homens privados de liberdade, tratados como gado, sem acusação formada, encarcerados pela força da vontade e não da lei. Guantanamo não é só um campo de concentração. É a prova de que o terrorismo também se faz sem bombas.

Begins this journey without reins,
Ends in capture without aims;
Now lying in the cell awake,
with merriment and smiles all fake:

Freedom is spent, time is up -
Tears have rent my sorrow's cup;
Home is a cage, and cage is steel,
Thus manifest realitys unreal.
Moazzam Begg
Preso em Guantanamo, Moazzam foi
libertado
ao fim de três anos sem acusação formada

10 de janeiro de 2012

Carneirada

Como que incapazes de pensar algo novo, levamo-nos por ideias que outros tiveram, repetidas até à exaustão. Somos seguidistas. Preferimos que outros façam por nós, para que nos baste copiar e colar.

O que realmente me chateia nas redes sociais não é a partilha, o querer saber da vida alheia - eu quero, quero muito, e assumo-o sem remorsos. A mim dão-me cabo da paciência os "passa a isto a dez amigos", as "semanas do autismo" (a propósito, não existe tal coisa e o dia internacional assinala-se em Abril, não em Janeiro).

E então, quando achamos que não pode piorar, percebemos que estávamos enganados. Porque agora são os signos, os carros de cada signo, os perfumes de cada signo, as casas de cada signo, os desodorizantes de cada signo, a água mineral de cada signo, os detergentes de cada signo, a puta que os pariu de cada signo.

E se não são os astros, sê-lo-ão os pensamentos, as citações, as reflexões profundas e as imagens com piadas sobre o governo, a crise e a maçonaria.

Temos 400 amigos no Facebook mas podíamos ter só um. Afinal, dizem todos o mesmo.

Vamos lá, um pouco de criatividade, por favor (isso e menos erros ortográficos... usem o Firefox ou o Chrome que têm corrector).


9 de janeiro de 2012

Temp d'Canequinha

O mal de encontrarmos perdida, no meio de uma pasta, uma foto de família com mais de dez anos é que, passando revista, começamos a contar quantos éramos e os que somos. Entre mais velhos que já se foram e mais novos que ainda não se multiplicaram, a conta é necessariamente de subtracção. 

As famílias são hoje mais pequenas. Os nossos pais tiveram poucos filhos e nós teremos ainda menos ou nenhuns.

Sequer a possibilidade de nos juntarmos em pose, como nesse retrato, expositor de loja vintage, parece viável, espalhados que estamos por tantos lugares.

Houve um tempo em que quase mensalmente nos reuníamos em irmãos, tios e primos. Uma vez por anos, fazíamo-lo em versão alargada, até ao terceiro grau.

A festa que era foi acabando e hoje é cada vez mais raro encher a mesa, pedir cadeiras ao vizinho (porque as que temos não chegam) ou acordar cedo para uma viagem ao Oeste. 

Unia-nos o sentido de Família dos nosso avós e parece que também esse se foi com eles.

7 de janeiro de 2012

Que se seguem

Meio inquieta, e a propósito do texto "Morrer Depois das 8:00", uma amiga de longa data perguntou-me há dias sobre o meu interesse pela morte.

Expliquei-lhe que o tema me suscita curiosidade, essencialmente de um ponto de vista literário.
Tenho sobre a morte, uma postura de não relevo. Relativizo o verdadeiro propósito da nossa existência, tanto quanto pragmatizo a inevitabilidade do seu fim - ou desvalorizo a eventualidade de um regresso após cumprida a matéria (embora não negue a possibilidade).

Depois do dia, os dias seguir-se-ão aos dias, tanto quanto as horas ter-se-ão sucedido em horas, os minutos em minutos, os segundos, os instantes.

No fundo, por mais importantes que nos tenhamos, o mundo não morrerá connosco. É sobre isso que fala este poema de Alberto Caeiro, também ele sugerido pela amiga da inquietação.

Bom fim-de-semana pa bzot tud.

6 de janeiro de 2012

Frio

E eu fecho as janelas. Eu, que quase sempre as mantenho abertas, a não ser que chova, porque nos dois dias do ano em que chove a casa ficaria toda molhada se não as fechasse, fecho as janelas. 

Não estou a perceber o tempo deste cacimbo. Arrefeceu e isso é bom - é bom depois do calor infernal do verão - mas este ano está um frio tal que um tipo tem de pôr um um cobertor na cama, vestir calças, até usar uma manga comprida, e rezar um terço completo antes de conseguir abrir a água gelada do banho.

Estou prestes a morrer congelado. Estão 21 graus no Mindelo.

Adenda das 11:48: Hoje de manhã vacilei. Um homem também tem direito a desistir. Aqueci água numa panela e temperei a que já estava no balde.


O primeiro do ano

Ser emigrante - e sê-lo sem família por perto - é também estar disposto a abdicar. Desde que saí de Portugal, apenas por uma vez consegui passar o Natal com a minha gente de sempre. No primeiro ano é estranho, mas depois habituamo-nos e já não fazemos caso.

Desta vez estive em Santo Antão, ilha vizinha de São Vicente, com uma família amiga - a quem a minha mãe envia um abraço de solidariedade pela paciência que tem para me aturar (não é fácil, acreditem).

Foram dias maravilhosos, repetidos no fim-de-semana seguinte, a tempo da passagem de ano.

Aproveitei para ler. O segundo convenceu-me mais do que o primeiro.





30 de dezembro de 2011

Toda Ponchita


- Mas tu vais sair a esta hora, Rúbito? - pergunta-lhe a mãe, depois de entrar na sala e sentir um cheiro forte a perfume.

- Vou sim, mamã. Vou ter com uns amigos - responde-lhe o rapaz, que de catraio até tem muito pouco, pois ninguém chega menino aos 42.

- Com uns amigos? Mas isto agora é todas as noites? Com quem é que tu andas Rúbito? Com quem é que tu andas Rúbito, Rúbito? - exalta-se a mamã - Quem são essas companhias?

- Oh mamã, não se preocupe. Já não confia no seu filhinho. Não sabe que eu me porto sempre bem?

Tem razões para confiar, a mamã. Lá em casa, Rúbito é todo delicadezas. Joelhinho no chão pela manhã e ao deitar, Pai nosso que estais no céu dai-me força, daí-me sabedoria, amor e humildade. Camisa aprumada, calça vincada e sapatinho lustroso.

- A sua bênção mamã.

- Não me tires do sério. Dormes na rua se voltas tarde - Ai, ai, ai - pausa para respirar e corrigir a entoação - ai, ai, ai - esforçando os graves.

Olha para o relógio Rúbito. São 20 agora. Tem duas horas entre ir e voltar. Apressa o passo, com o coraçãozinho a bater rápido.

A ele nunca ninguém conheceu namorada. Caseirinho, trabalho, casa, casa, trabalho, acredita-se que leva a vida de feição, comendo a horas certas - e nunca sai da mesa sem acabar o que está no prato - abdicando do futebol e indo à missa todos os domingos e dias santos.

Aos ímpetos das partes baixas, pecado, pecado, sempre respondeu com uma enérgica punhetinha debaixo dos lençóis, luz apagada, sem ui que se ouvisse. Se ao despertar lhe aquecessem os ânimos durante o banho, que lugar impróprio, desligava a água quente de rompante e esperava que o frio se entranhasse no corpo, descesse até ao membro armado e desse cabo da libido matinal.

O dia da desgraça de Rúbito chegou aos 13 de Outubro do ano da graça de 2011, mais precisamente às 15:32, hora a que, depois de um robalo assado no forno, com batatinhas e salada, tudo empurrado com um copinho de sumo de laranja, que este homem nunca foi de vinho, Rubito estacionou a Renault Kangoo três ruas a seguir ao mercado, pegou na caixa de cartão, 20 de largo, 20 de comprimento e outros 20 de altura - um cubo, portanto - e, depois de andar duzentos metros a pé, tocou no 5º F da morada que estava escrita.

- ¿Hola, quien eres?

- Estafeta. Para entregar uma encomenda.

No quinto andar, à saída do elevador, a Terra parou. Ao olhar para a porta, sentindo o volume púbico a aumentar, Rubito teve de se esforçar para voltar ao essencial. 

- Ponchita Lizarraga?

- Para ti, Toda Ponchita.

- Tod... Pon...

- Se quieras, Ponchita, la Peruana.

Posto isto, nem cinco segundos passaram, avé Maria cheia de graça, de nada lhe valeria a água fria, gelada que fosse, Rúbito foi todo fel. O estafeta teve o seu primeiro orgasmo com uma mulher sem que esta, sequer, lhe pusesse as mãos.

Caído em tentação, não mais o menino da mamã, conseguiu parar. Desde aí, então, não há dia que passe sem que, de manhã, à tarde, ou à noite, não interessa, tanto faz, o ex-beato, agora visitador, se entregue aos prazeres da carne e se delicie em actividades exploratórias, pelos seios redondos, os mamilos rosados e duros, o ventre liso - um desvio - a coxinha de pele sedosa e, agora sim, o sexo húmido que, de ser o primeiro, lhe parece o mais perfeito de todos. 

- Ponchita, queres ser a minha putinha?

- Ya lo soy, Rúbito. Ya lo soy.

29 de dezembro de 2011

Já temos página no Facebook. Mais uns tempos e começo a falar de marcas e a fazer passatempos, simulando total desinteresse, como se fosse apenas um gajo de bom coração.

Podeis gostar. Deveis faze-lo. Clicai na imagem ou ide até ao fundo da página.


2.0


Lembrei-me da simpática família Parret. Os Parret, pai e mãe, acolheram-me há alguns anos, durante a minha passagem por Londres.

Relativamente formais, relativamente afectuosos, zelosos de uma boa experiência londrina, receberam-me no quarto de hóspedes da sua casa, num dos bairros periféricos da cidade.

Desse bairro, partia todos os dias para o centro da capital britânica. Fazia a pé o trajecto até à estação de comboios. A meio caminho, passava por um pub, a very typical one, que tinha este escrito numa das janelas da frente: "Pass by us, and forgive us our happiness" (Fyodor Dostoyesky, O Idiota).

Quem me conhece sabe que não sou - e tenho em relação a isso uma certa mágoa - um tipo de citações. Admiro muito aquelas pessoas que têm sempre a sentença perfeita para todas as ocasiões, mas a minha memória não dá para tanto - dá até para muito menos, devo admitir.

Acontece que estas palavras, talvez pela apresentação original - a ideia da montra de bar, com um grupo de bêbados bem dispostos no seu interior - ficaram-me na memória e a imagem é um belo mote para o exercício que se segue.

Foram voláteis os dias de 2011. Tão vorazes que tenho alguma dificuldade em me encontrar na vida que tinha nos primeiros de Janeiro.

Comecei o ano com uma casa, uma vida partilhada, e a certeza absoluta de estar onde queria estar, sem precisar de mudar nada do que é essencial. Termino-o noutra casa, para a qual me mudei sozinho, e com mais dúvidas do que alguma vez me lembro de ter tido.

Agora, agora que estamos no fim, revisito essas tão certas certezas - todas elas - e já não me parece lógico que fossem tão absolutas assim. 

Se pudéssemos antecipar, se conseguíssemos saber antes, cometeríamos menos erros, faríamos menos disparates.

Não compreendo aquelas pessoas que insistem em defender que nunca se arrependem de nada (a não ser do que não fizeram). Há algo de 'desumano' nisto. Ser Homem é errar, reconhecer os erros, mostrar arrependimento, pedir perdão por eles,  pelos outros e por nós mesmos.

Sou dado à razão, mas isso, e é este o compromisso que assumo para 2012, não me impedirá de viver o dia-a-dia. Farei a minha parte, anteciparei o que puder ser antecipado, mas aceitarei que nem tudo depende de mim.

A vida tem duas vidas: a que temos e a que nos escapa. Uma percentagem significativa da nossa felicidade devirá (na Filosofia, devir é o movimento pelo qual as coisas se transformam) de guardarmos os bons momentos e não o seu fim.

Há muito medo no ar. Eu também tenho medo. Mas acho que todos estaríamos menos receosos se aproveitássemos a oportunidade para um regresso às origens, à vida simples, aos amigos e à família. É esse o caminho que quero fazer a partir de Janeiro.

Estamos juntos. Bom ano para todos.

27 de dezembro de 2011

Morrer depois das 8:00

O problema, diz com aquele ar definitivo que sempre coloca quando aborda algum assunto sério, é que, e nessa altura suspira, nada disto é novidade.

Começam sempre assim, como que actos consumados, as discussões das terças-feiras. O mote, um silêncio, e a matéria de facto.

Cheia de razão, comenta na quarta. Tempo perdido, pensa à quinta, ainda sem o embaraço que lhe chegará apenas no dia seguinte, habitualmente depois de almoço.

A semana está pensada para se suceder sem surpresas. No sábado forçará a primeira trégua e domingo de manhã "sim, está tudo bem",  conservando apenas o pouco à vontade no trato que só virá na segunda, antes de terça, e da discussão seguinte.

Por isso, quando naquela manhã de Março, nem tão quente nem tão fria, Júlia decidiu morrer, a única coisa que verdadeiramente a manteve inquieta - e viva, podemos dizer - não foi tanto o acto em si, quanto a isso não restavam dúvidas, mas antes que dia, dos indisponíveis, escolher para concretizar o gesto definitivo.

Seria assim: às 7:00 o despertador tocaria pela primeira vez (Pedro tinha acordado uma hora antes e já não estava em casa), às 7:15 voltaria a tocar. Levantar-se-ia não antes das 7:25. Ainda sonolenta, tropeçaria na mala que levara na viagem a Londres, em Novembro do ano anterior, mas que permanecia à entrada do quarto.

Tomaria o mesmo pequeno almoço de sempre: torradas de pão de forma aparado, manteiga de um lado, doce de amora do outro, sumo de papaia, uma maçã. Não lavaria a loiça - morrer sem fome, sim, com a casa arrumada, exagero. Banho, um duche rápido, para poupar água, e verificaria o estado da depilação - poupando um susto ao médico legista. 

Vestiria uma roupa elegante mas confortável. No bolso guardaria um pequeno bilhete,  dirigido a quem possa interessar: "levem-me com esta, por favor, e cuidado com o botão da saia que está meio solto (em caso de necessidade, as coisas da costura estão no guarda-fatos, porta da direita, segunda prateleira a contar de cima, caixa horrível com os flores)". 

Arranjada, penteada, na medida do possível - o cabelo rebelde, assim classificado por uma marca de shampoo, nunca fica totalmente composto - até com um pequeno toque de maquilhagem, pegaria então na caixa de compridos, um cocktail infalível, preparado com o rigor profissional de farmacêutica, e ingeriria as pílulas multicolor uma por uma até à quinta e três em três daí por diante. Teria o cuidado de escolher alguma coisa que a fizesse adormecer primeiro, antes do organismo entrar em falência

Então, nos minutos finais, lembrar-se-ia daquela pergunta parva, lida num fórum na Internet: "Acabei de tomar 11 comprimidos de 3mg. Posso morrer?". "Queira Deus que sim, idiota", respondeu na altura.

Deitar-se-ia a meio da cama, com uma almofada de cada lado da cabeça, para evitar que esta tombasse. Fixaria o olhar num qualquer ponto do tecto, provavelmente na pequena mancha de humidade, e esperaria.

Porque à terça é dia de discutir, à quarta está demasiado irritada, quinta vem o arrependimento, à sexta quer voltar atrás, no sábado começa a fazê-lo, domingo esforça-se um pouco mais e à segunda as coisas correm bem, Júlia continua viva. Falta-lhe, enfim, o dia certo para morrer.

26 de dezembro de 2011

Últimas Coisas

Gosto muito de Paul Auster. Quase tanto como de Vargas Llosa (ainda assim o meu escritor de eleição). Conheci-o pelo Leviathan e depois disso já o revisitei algumas vezes. Invisivel será, de todos, o meu preferido.

Aqui há tempos chegou-me às mãos No País das Últimas Coisas. Demorei a leva-lo a sério. E eu, que tanto devoro um livro em poucas horas, como o arrasto durante meses, optei pela segunda via, alternado a sua leitura com outras coisas com que me fui cruzando. Disparate meu.

No País das Últimas Coisas é, afinal, um relato dos dias do fim. A Cidade no limite, o Homem para lá do possível. A luta pela sobrevivência, num lugar em crise. 

Demasiado tarde percebi o sentido que tudo aquilo faz. Da sua razão de ser para os dias de hoje.

É o fim: o fim das coisas e de nós mesmos. Parece tudo tragicamente real.

22 de dezembro de 2011

Mar

Às vezes, e hoje é uma dessas vezes, penso que o jornalismo já não me basta.

É verdade que fiz muitas coisas nestes onze anos e meio: vivi em três países, visitei duas dezenas de outros, experimentei a rádio, a televisão e os jornais. Mas também é certo que perdi a inocência dos primeiros tempos.

Não mudamos o mundo, raramente fazemos a diferença e na maior parte dos casos as pessoas, simplesmente, não querem saber. Os leitores, os ouvintes, os telespectadores conseguem ser especialmente cruéis, como se todos pudessem errar... menos nós, os tipos das notícias.

Gosto muito daquilo que faço, não sou derrotista, nem estou conformado. Tenho a sorte de ser quem sempre quis (nunca ponderei outra profissão), mas em dias assim vou-me daqui.

E é então que penso em ser marinheiro.

Aproveito-me destes desconsolos para imaginar uma vida a bordo. Claro que me retenho apenas no lado lírico. A imensidão, as chegadas e as partidas, a leveza das paixões fáceis e de circunstância, o je ne sais quoi.

Todas as cidades onde vivi tinham com o mar - ou com o rio - uma relação de dependência que, julgo, ter-se-à apoderado de mim. Há nele um sentido de ir. Em mim também.


(A versão original deste post foi 'comida' pelo Blogger. Reescrevi-o)




Percebam: este blogue é volátil como eu. Nuns dias sim, noutros dias não, nos demais, os que sobram, talvez. Por isso vai e vem. É actualizado todos os dias, ou fica para aqui, moribundo, durante semanas seguidas.

Penso não me importar. Afinal, não assinei com ninguém um contrato de escrita criativa e não devo caracteres ao Blogger.

Tento ver as coisas de forma simples, nenhuma causa, zero efeito, mas depois desassossego-me. Passou um mês.

O mundo dos blogues tornou-se tal lugar estranho. Pelo menos parte dele, onde estão os da velha guarda. Muitos transformaram-se numa espécie de casas de alterne, entregues às marcas, aos passatempos, à publicidade dissimulada, como se todos nós fossemos estúpidos, não soubéssemos o que se está ali a passar.

De repente penso em acabar com isto. Estou noutros lugares, podemos continuar juntos. Arrependo-me. Deixo estar.

Será sempre assim, enquanto for. Por isso, a quem me enviou um e-mail, com tão bons argumentos, eis-me aqui. Aqui estarei. Mas só até deixar de estar.

Obrigado a quem insiste.


16 de novembro de 2011

Ir e voltar

Dias de reencontros e de novos conhecimentos. O regresso à minha primeira morada em Cabo Verde, quase dois anos depois da mudança para o Mindelo.

Uma boa formação, com o lançamento de bases para o que pode ser uma classe jornalística mais atenta e comprometida com as questões ambientais. Trocas de contactos, ideias para reportagens e partilha de pontos de vista.

De ver, gostei do que vi. Uma cidade que aos poucos tenta nascer do caos. É ali que está o centro do país. Um centro demasiado central que deixa pouco para as outras ilhas.

Velhos amigos com vidas diferentes daquelas que tinham quando nos despedimos. Agora casados - de forma - e a viverem os desafios da paternidade.

O café da Achada, a antiga casa no largo dos Negócios Estrangeiros, as rabidantes, a redacção em dia de fecho e até um inusitado pedido para uma reportagem de última hora.

O livro autografado, as escadas até ao último andar, a conversa solta, tu a falar sozinha e o pêlo no teu queixo.

Quarenta e oito horas sem pausas ou intervalos para pensar, se não agora,  quando de regresso ao T1 de Monte Sossego, de novo em São Vicente.



9 de novembro de 2011

Justa medida

Não sou de celebrações. Passam-me ao lado as efemérides. Sou pouco dado a saudosismos e raramente recordo o passado como um tempo melhor do que o de agora.

A verdade é que vivemos um período singular. Somos protagonistas de um momento de mudança. Da tese e da antítese dos dias sairá algo de novo. 

Se quase sempre as dispenso, por vezes sinto falta delas, das certezas. De ter os pés em terra firme, do dia-a-dia inocente, um pêndulo que vai e que vem.

Sou do ser, do estar, do querer e ainda assim o futuro angustia-me. Deixa-me expectante esta coisa de não saber como adjectivar o que está para vir.

Não gosto de exclamações. Interrogo. Mas ainda hoje me surpreendo com a capacidade do Homem para ser o bem e o mal. 

Vivemos (do passado) além do que podíamos, viveremos (do futuro) aquém do verbo, para podermos chegar a viver (do desejo) na justa medida. 

Para onde caminhamos? Estamos a destruir ou a construir? Nisto de ser, somos todos. Não há inocentes que não sejam culpados, nem arguidos com a culpa toda.

Não tenho o que tanto dure como o vazio dos bolsos, o ridículo de uma conta bancária, as roupas usadas e os sapatos gastos, alguns livros, menos discos. E as ideias.

As ideias que me levam e que me trazem. As ideias do nada e as ideias do tudo.

4 de novembro de 2011

Quo vadis São Vicente?


A Assembleia Municipal de São Vicente promoveu um fórum destinado a mostrar uma ilha que vive para lá da crise e do pessimismo. 

Durante oito horas, foram muitos os que subiram ao palco e, do palanque, apresentaram as suas ideias e projectos para o segundo centro urbano de Cabo Verde.

Do balanço do evento, uma nota essencial: o que nos falta em visão estratégica, sobra-nos em imaginação. 

Houve exuberância, extravagância e megalomania. Unidades hoteleiras com centenas de quartos (apesar da taxa de ocupação média dos hotéis e residenciais rondar actualmente os 18%), empreendimentos de vários quilómetros quadrados, prédios com dezenas de andares. Coisas avulso, sem qualquer tipo de enquadramento. Uma espécie de competição para ver quem tem a maior Babel. 

Para a Praça Estrela, antiga Polícia e áreas envolventes, por exemplo, anunciou-se um complexo composto por duas torres de arquitectura moderna.

Aliás, a ausência de cuidado com o meio envolvente foi, como tem sido quase sempre, a nota dominante das apresentações. 

No Mindelo, a julgar por aquilo que se viu - por aquilo que se tem visto - modernidade rima com fachadas espelhadas. O que é velho, tradicional, não interessa, não presta e por isso  pode e deve ser demolido. Foi assim com o Fortim e foi assim com a casa de Adriano Duarte Silva, para nos mantermos num passado recente.

Falou-se de oferta, sem nunca se mencionar a procura. Sabemos quantas camas "vão" existir, quantos apartamentos com chão de mármore "vão" (entre aspas porque felizmente é quase tudo hipotético) nascer, mas ninguém nos disse de onde virão as pessoas que podem ocupar essas camas e comprar as tais casas. É que não será nenhum de nós, parte da maioria que vive com um magro salário e em ginástica orçamental permanente, a faze-lo.

Numa altura em que o mercado imobiliário - tradicional e turístico - está em forte abrandamento a nível mundial, existe em Cabo Verde um grupo de visionários que acredita que o país - nesta como, ao que parece, noutras crises - será capaz de passar à margem deste período de incerteza e contracção. Assim fosse.

São Vicente precisa de uma visão estratégica. De um plano de ordenamento do território claro (e sobre o Plano Director Municipal também há muito por dizer) e de um modelo de desenvolvimento que se baseie não apenas no betão pelo betão. 

A aposta no sector produtivo, gerador de emprego e de riqueza, e com reflexos na balança comercial, deve mobilizar toda a sociedade e deve concentrar a atenção dos privados. 

Se metade - não mais do que isso - do que se sonha investir em jardins do éden, sem noção exacta do nível de retorno, fosse usado para a industrialização e terciarização do país e da ilha em particular, acredito que os ganhos seriam incomensuravelmente maiores.

Sobre o turismo e o imobiliário, existe naturalmente uma margem de crescimento. Mas esse terá de ser alicerçado em princípios completamente diferentes daqueles que estão a ser defendidos. Ao invés de aplaudirmos quem nos promete levar a tocar a lua, deveríamos perceber que, quase sempre, "simple is better". 

Uma intervenção urbanística profunda e séria no centro histórico do Mindelo, acompanhada da diversificação da oferta cultural e da criação de uma conjunto de serviços de apoio ao turista, que o façam sentir verdadeiramente a "experiência cabo-verdiana", farão mais por esta cidade do que 30 arranha-céus.

Queremos prédios gigantescos? Arranjemos pois uma zona virgem da ilha e urbanizemo-la com esse propósito vanguardista.

O turista  que procura ou pode procurar São Vicente quer  e quererá genuinidade e nem isso nós estamos a conseguir oferecer.

A dada altura, no auditório do Centro Cultural, o meu vizinho de fila disse-me em tom jocoso que se todos os projectos apresentados saíssem do papel, passaríamos a viver no Dubai (ainda por cima sem a parte do petróleo). 

A questão, pensei, é que se eu quiser ir ao Dubai, não apanho o avião para Cabo Verde.


Post Scriptum: Antes que mandem o estrangeiro de volta para a terra dele, pela ousadia de ter opinião própria, deixem-me salvaguardar que enquanto eu morar no Mindelo, aqui trabalhar e pagar impostos, tenho todo o direito a ter e a expressar as minhas preocupações em relação a esta cidade. Criticar construtivamente é um exercício de liberdade ao qual todos se deviam dedicar.

28 de outubro de 2011

A idade da solidão


 
A história de ‘Tanha’ Joaquina conta-se assim: nasceu em São Vicente, “lá na Ribeira Bote”, à memória foge-lhe o dia exacto, mas recorda que corria o ano de 1924. Terá por isso 87 anos, ou 86 por mais alguns dias.

O tempo foi passando, mas na sua vida pouco ou nada se alterou. Hoje, como antigamente, continua a precisar de trabalhar para garantir sustento. O seu e o dos dois filhos, um homem e uma mulher, que tem a seu cargo. Não sabe ao certo a idade deles. Contas rápidas e por estimativa chega a um número aproximado: “sessenta e tal”.

Permanecem em casa porque sozinhos não se bastam. As deficiências físicas e mentais de que são portadores tornam-nos dependentes de terceiros. Resta-lhes a coragem da mãe e a magra pensão que o Estado lhes paga, insuficiente para fazer face a todas as despesas que o dia-a-dia de três pessoas acarreta.

A dona ‘Tanha’ não resta outra alternativa: todos os dias, entre tachos e panelas, prepara os doces que vende a quem quiser comprar. O negócio não corre de feição, mas quando o orçamento é apertado, todos os escudos contam.

“Tenho de continuar a trabalhar, não tenho outro remédio. Faço bolos e rebuçados. Quando não consigo vender em casa, venho para a rua”, desabafa.

O passar do tempo trouxe-lhe as maleitas próprias de quem já anda por este mundo há muitos anos. Contudo, não há-de ser a tensão alta a faze-la baixar os braços.

“A minha vida tem sido sempre na luta, criando os meus filhos. Desde que tenho dezassete anos que estou a trabalhar”.

Ao todo deu à luz dez vezes e já chorou a morte de cinco descendentes. Os que resistem estão na sua própria contenda, “mas sempre que podem ajudam com qualquer coisa”.

“Passei muitos sacrifícios, mas tenho de lutar. Se Deus escreveu assim, é assim que vou viver. Tenho de continuar”, conforma-se.

A história de ‘Tanha’ Joaquina confunde-se com a de muitos outros idosos que, chegados ao ocaso da vida, não têm meios de subsistência que lhes garantam a tranquilidade que o cabelo grisalho justifica. Falta-lhes em dinheiro o que lhes sobra em solidão e desamparo. Trabalharam desde sempre, a família dispersou-se ou, estando por perto, não lhes presta a atenção necessária.

As ruas do Mindelo estão cheias de protagonistas de existências plenas de memórias e amarguras.

Pensão social

“Sou de São Vicente sim senhor”. A voz trémula e ligeiramente embargada não ofusca a convicção com que a frase é proferida.

O que leva Daniel Almeida à porta da igreja de Nossa Senhora da Luz, numa peregrinação diária, explica-se em poucas linhas e em discurso directo.

“A minha história é como a desta gente que está aqui sentada. Estamos a ver se catamos uns tostões para comer uma bolacha, porque já somos velhos e não conseguimos trabalhar”.

São setenta e sete anos, sabe-o bem. Em novo, trabalhou nas obras e como segurança. Não fora um problema na vista e continuaria a faze-lo. Nunca teve filhos. Todas as manhãs, sai de Espia, bairro periférico da cidade, com rumo certo.

Recebe uma magra reforma de seis mil escudos e não precisa de grande matemática para concluir que de pouco ela lhe serve. “Se não vier aqui pedir, com certeza que passo fome”.

A grande maioria dos idosos em situação limite teve uma vida de trabalho. Contudo, dedicados a negócios informais ou desenquadrados do sistema de protecção social, sem uma carreira contributiva, chegaram à velhice desamparados.

Nestes casos, o Estado garante o pagamento de uma pensão social, actualmente fixada nos cinco mil escudos. Muito pouco para quem esse valor é tudo.

Têm direito à pensão básica os cidadãos com idade igual ou superior a 60 anos e com um rendimento anual inferior ao limiar da pobreza estabelecido pelo Instituto Nacional de Estatística.

Em 2010, saíram dos cofres públicos 1,3 milhões de contos para concretizar esta medida, que beneficia mais de vinte mil cabo-verdianos.

Institucionalização

O país não tem uma rede pública de lares da terceira idade. A Promoção Social mantém abertos alguns centros de dia, espalhados pelas ilhas, que garantem a alimentação dos idosos e a ocupação dos tempos livres no período diurno. À noite, estes regressam às suas casas, muitas das quais desprovidas das condições mínimas de habitabilidade.

No Mindelo, o segundo maior centro urbano das ilhas, existe um único lar a funcionar 24 horas por dia, em regime de internamento. Parte integrante do projecto social da Cruz Vermelha, a casa está de portas abertas na Ribeirinha, junto à Cadeia Central.


“Infelizmente, não conseguimos dar resposta a toda a procura”, assume, para início de conversa, a responsável técnica do espaço.

“Em Cabo verde, em geral, e em São Vicente, em particular, os familiares costumam dar pouca atenção aos idosos”, defende Kátia Cruz.

Com capacidade para 21 utentes, o lar tem lotação esgotada. Nem todos são idosos. Duas senhoras de quarenta anos residem no local. Estão sozinhas, distantes da família. Uma, com Sindrome de Down, a outra sofreu um acidente em Santo Antão e viu a sua mobilidade ser fortemente condicionada. Ambas, na casa dos quarenta e em situação limite.

A solidão com que muitos estavam confrontados antes da institucionalização perpetua-se dentro dos portões da residência. Recebem todos os cuidados básicos e combatem a ociosidade, mas nada substitui a desejada presença dos filhos e netos. Para a maioria, a espera por uma visita daqueles que ajudaram a crescer é um exercício que não tem fim.

Kátia Cruz acredita que a sociedade cabo-verdiana não está preparada para lidar com a terceira idade. Para contrariar essa tendência, sugere a realização de palestras e actividades comunitárias que envolvam gente de diferentes origens.

No entender da responsável pelo lar da Cruz Vermelha, a mobilização da sociedade passa também pela maior disponibilização de recursos. O apoio às causas sociais deve ser encarado como uma necessidade.

“As instituições, as empresas, todas têm de ajudar e dar o seu contributo”, apela.

Dia internacional

No dia dezanove de Novembro Maria Medina completará 87 anos. Nasceu em São Nicolau, mas cedo se mudou para São Vicente. São vagas as recordações que guarda da sua terra natal.

Nunca teve filhos. Trabalhou como doméstica. Agora, passa os dias de forma serena, entre conversas que a levam, muitas vezes, a anos passados.

Gosta de cozinhar, especialmente de fazer bolos. “Disso é que eu percebo”, confessa.

A sua história cruza-se com a de Edite. São agora companheiras. Edite também gosta da vida tranquila que conquistou.

“Gosto de estar aqui”, revela, assumindo que às vezes lhe falta a paciência para aturar os colegas de casa. “Você sabe, isto há aqui gente mais idosa do que eu, e, como é normal, têm sempre as suas fadigas. Uns viram levianos, outros doidos, outros malucos, mas vai-se aguentando”, sorri.

No último ano, por três vezes, recebeu a visita dos filhos. O mais novo, que vive na Praia, prometeu vir busca-la, assim que reúna condições para a receber. Edite aguarda por esse dia.

A 14 de Dezembro de 1990, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou 1 de Outubro como o Dia Internacional das Pessoas Idosas.

Um ano mais tarde, o mesmo órgão plenário aprovou uma resolução onde adopta um conjunto de princípios que devem nortear a acção dos estados no que toca à terceira idade.

No início deste mês, na sua mensagem alusiva à efeméride, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, apelou a que os países, parte de um mundo em crise, sejam capazes de assegurar aos mais velhos o acesso à protecção social e a cuidados de saúde gratuitos.

Excerto revisto de uma reportagem publicada no Expresso das Ilhas (Cabo Verde) 516

26 de outubro de 2011

A estrada



O local está referenciado nos guias turísticos da ilha. Em Santo Antão, a alguns quilómetros da Ribeira Grande, o Vale da Garça estende-se por entre as montanhas, até ao mar. 

Da Manta Velha até à Cruzinha, o caminho é feito pela ribeira, local que, durante a época das chuvas, fica cheio de água e, naturalmente, intransitável. Para a população local, são períodos de um isolamento profundo. Perdido o contacto terrestre,  a ligação com o resto do mundo é feita apenas por via marítima. Se a ondulação o permitir, um bote viaja desde Ponta do Sol, transportando os mantimentos necessários para a subsistência de quem vive numa clausura temporária.

No sentido contrário, a embarcação leva consigo aqueles que precisam de se deslocar à povoação para, por exemplo, receber cuidados médicos. 

Nem sempre o socorro é possível e as gentes daquele lugar, por vezes tão distante, contam que não são raros os episódios de mortes provocadas pela demora na resposta aos pedidos de ajuda.

Se os prazos forem cumpridos, dentro de aproximadamente um ano o cenário poderá ser diferente. Está em curso a empreitada de construção da estrada que ligará Cruzinha, Chã de Igreja e outros pequenos povoados ao resto da rede viária da ilha. 

As expectativas são elevadas. Fala-se de concretização de um sonho e em desenvolvimento. Imagina-se o número de turistas a aumentar e deseja-se a melhoria das actuais condições de vida.

Uma promessa

A ideia de construir uma estrada de desencravamento dos povoados do Vale da Garça tem quase tantos anos como o país de independência. Em visitas ao local, os sucessivos governos prometeram resolver o problema, mas só recentemente é que o projecto começou a ganhar forma.

A obra foi adjudicada a um consórcio de empresas, liderado pela portuguesa Somague. A primeira pedra foi lançada em 2009 e os trabalhos arrancaram em 2010. Com um prazo de execução de 24 meses, a empreitada está mais ou menos a meio.

A 8 de Setembro do ano passado, Celso Pires, expressava no seu blogue - chadigreja.webnode.com - a satisfação pela chegada das máquinas. "Finalmente começamos a ver uma luz no fundo do túnel", escrevia.

Celso não está sozinho na alegria. Em Chã de Igreja, José Nascimento junta-se ao entusiasmo. 

"As pessoas estão satisfeitas. Vai mudar muita coisa. Em termos de agricultura e de turismo, isto vai avançar de grande maneira. Vai haver um salto qualitativo. Acreditamos que vai trazer um impacto extraordinário para esta freguesia", assegura.

"É um sentimento de esperança, de grande alegria", resume.

À localidade, o sinal da televisão pública não chega. O contacto com o exterior é feito essencialmente pela rádio. 

O período das cheias torna a vida árdua, recorda José. "A comida chega com muita dificuldade. Os comerciantes trazem-na por via marítima, mas todo esse trabalho faz com que, depois, precisem de subir os preços". 

"A chuva é sempre bem-vinda", esclarece, "mas é um mês muito difícil. Esperamos que no ano que vem isso possa estar normalizado". 

A sua expectativa é grande, "muito grande", reforça. "Temos emigrantes em Portugal, em França e na Holanda que querem investir cá".

A esses projectos refere-se também Benvindo Santos. Saindo de Chã de Igreja, a viagem de carro até à Cruzinha dura pouco mais de dez minutos.

Lá, onde não chegam notícias - há três anos o mau tempo destruiu o emissor da RTC - o presidente da associação comunitária aguarda por dias melhores.

"Com a estrada pode ser que as pessoas cheguem cá mais depressa", espera. "Esta é uma zona preferida pelos turistas".

Com uma vista singular para o mar, Cruzinha tem uma economia centrada no turismo da natureza - há quem se dedique ao artesanato, fabricando colares de missangas e esculpindo pequenas peças em casca de coco - e na pesca.

"As pessoas estão com esperança", assume Benvindo, alertando que a estrada, por si, não resolverá todos os problemas.

"Somos uma comunidade piscatória. Esperamos que a entrada dessa estrada torne possíveis alguns investimentos no sector, como por exemplo, melhorar a condição do arrastadouro, ou melhorar a energia". 

No topo das prioridades está também o acesso a uma máquina de gelo que possa substituir a existente, de pequena capacidade.

Preocupações

Antigo deputado nacional pelo Movimento para a Democracia e ex-secretário da Assembleia Municipal da Ribeira Grande, eleito pelo mesmo partido, Adriano Duarte afastou-se da vida partidária. 

Mora em Manta Velha, onde começará o asfalto, e reconhece que o projecto é "muito bem-vindo".

"É uma reivindicação de há muito tempo. Vai ser uma mudança radical, porque é uma zona que sempre esteve encravada", antevê.

Apesar de considerar que "a construção da barragem suplanta tudo o resto", não deixa de observar que as obras estão a provocar um problema ambiental com consequências imprevisíveis. 

"Os trabalhos estão a dar origem à queda de pedras para o leito da ribeira. Há zonas com casas e zonas agrícolas em que, se vier uma chuva como aquelas que têm aparecido nos outros anos, essas pedras poderão constituir um grande problema", teme.

A quantidade de detritos é tão grande que, em alguns pontos, a paisagem está totalmente alterada.

Preocupados, os habitantes do vale promoveram um abaixo-assinado, apelando à intervenção das autoridades. 

"Estamos à espera de uma solução. As máquinas vão retirando alguma coisa, mas a maioria vai ficando", explica Adriano Santos.

A preocupação do antigo parlamentar é partilhada por José Nascimento. "As pessoas estão inquietas com as consequências da construção".

"É importante que limpem a ribeira, porque se vier chuva a situação pode ser muito complicada".

"Esta ribeira sobe muito alto, com muita força. Espero que o governo tome medidas para resolver este problema", alerta.

As preocupações da população convergem com as da câmara municipal. O executivo autárquico tem acompanhado os trabalhos e, apesar de satisfeito com o investimento feito pelo Ministério das Infra-estruturas, esperava outra atitude por parte do consórcio responsável.

O Vale da Garça deve receber uma barragem, já adjudicada. O vereador Arlindo Fortes teme que, "se não forem tomadas medidas, em vez reter água, a barragem sirva para a retenção de inertes".

"É preciso diligenciar, logo com a conclusão da obra, para que seja realmente retirada toda aquela enxurrada que vem de cima", avança o autarca.

A Câmara da Ribeira Grande está convencida de que a estrada vai desencravar os povoados isolados, mas apela ao governo e ao consórcio para que, durante os trabalhos, mantenham um diálogo mais permanente com as autoridades locais. 

"Até termos o produto final, temos de garantir a satisfação das necessidades das pessoas", justifica Arlindo Fortes.

A estrada Manta Velha - Cruzinha faz parte de uma pacote de infra-estruturas rodoviárias que estão a ser executadas em Santo Antão com financiamento através de uma linha de crédito concessional atribuída a Cabo Verde por Portugal, no valor de 2,5 milhões de contos.

Excerto revisto de uma reportagem publicada no 
Expresso das Ilhas (Cabo Verde) n.º 515