- Não sei que te diga.
- Não preciso que me digas nada.
- Mas é surpreendente.
- Para ti.
- Achas normal?
- Acho uma merda.
- E esperavas?
- Nunca.
- E agora?
- Não faço ideia.
- Pois, presumo que não.
- Café?
- Café.
25 de março de 2013
19 de março de 2013
Do pai João
Deixem-me ser claro: devo-lhe muito. Devo-lhe, por exemplo, e acima de tudo, o carácter forte. Espero um dia dever-lhe também a moral inabalável e a consciência tranquila de quem nunca, deliberadamente, prejudicou o outro.
Digo-o sem exageros: o meu pai é fabuloso. É isso tudo, por todas as coisas que me ensinou, mas principalmente por tudo aquilo que aprendi com ele, sem que disso tomasse fé.
O meu pai é um homem bom. Um homem bom, que ama a vida, que ama a terra e as coisas simples. E com isso me ensinou que o amor reproduz-se em mais amor e que a essência da felicidade está guardada em nós e nos actos que praticamos.
O meu pai é também um homem inteligente. Um conhecedor profundo, um curioso incansável, um investigador determinado. E foi com ele que aprendi a nunca me contentar com um encolher de ombros, a perguntar sempre, por mais estúpida que possa parecer a pergunta. Mas conheci também o valor do silêncio, de nem sempre dizer tudo, porque há coisas que devemos guardar só para nós.
Ao meu pai devo, assim, a maior parte de mim. Aquela em que sou quem quero ser.
À distância de algumas horas de voo, porque foi assim que reconfigurámos o nosso amor, estás sempre comigo, companheiro. Sempre.
Este é o abraço que te dou.
30 de janeiro de 2013
Viver sem joelheiras
São para mim tudo as pessoas que não se conformam. Sou um bocado assim, também. Quanto temos um problema, se estamos insatisfeitos, o melhor que podemos fazer - e talvez a única coisa a ser feita - é arregaçar as mangas e reverter a situação.
Da minha experiência, sei que nem sempre conseguimos (ou pelo menos com os resultados esperados), mas alguma coisa, nem que seja o embrião de uma mudança, fica ali, a germinar.
No final do ano passado, uma amiga de muita estima disse-me que se preparava para largar tudo: a cidade e a família que ama, os amigos que adora e um emprego confortável e que lhe garantia um futuro sem grandes sobressaltos.
Isso não lhe basta. O emprego e a cidade, um e outro - que no caso se relacionam - não lhe bastam. Porque precisa de novos horizontes, porque olha para a secretária do lado e não se revê na tacanhez das ideias e das vidas feitas.
Disse-lhe o que pensava: se vais, corta de vez. Se é para cortar, que seja a direito. Se vais arriscar, arrisca sem medo.
Quando arriscamos, existe sempre a possibilidade de correr mal. Mas o resultado do atrevimento, na sua imprevisibilidade, só é conhecido depois de feito o exercício.
Sou assim pelo risco. Pelo tentar. Por isso, apaixonam-me as pessoas ousadas, que perseguem ideais, que sonham, ambicionam.
De uma forma ou de outra, todos procuramos o nosso lugar no mundo, na cidade latu sensu. Há quem o encontre em rotinas e dias programados Há quem o deseje em empregos estáveis. E depois existem os outros, os que não o encontram numa vida de longo prazo e que por isso mesmo precisam de continuar a procurar.
Será essa a principal maravilha dos tempos modernos. É fácil - é muito mais fácil, pelo menos - concretizar a inquietude.
12 de janeiro de 2013
Nota breve sobre os silêncios
Com a idade, vai-se tornando cada vez mais óbvia a minha incapacidade para conversas de circunstância. Com a idade também - e esta é a parte boa - habituei-me ao facto e aceitei-o, até.
Percebi, enfim, que nunca serei daquelas pessoas capazes de passar horas a trocar trivialidades com um qualquer interlocutor. Para mim, uma conversa deve ser suculenta. Pode até estar cheia de disparates, mas ainda assim, no registo, suculenta.
Foi uma conquista importante. Deixar de me sentir obrigado a manter viva uma troca de palavras só pelo cumprimento de uma obrigação social (?). Agora, assumo os silêncios.
Se perante alguém, não tenho nada para dizer, então o que tenho a dizer é isso mesmo: nada. Libertador.
8 de janeiro de 2013
Miguel
Traz no olhar (como nos ombros caídos, no andar arrastado, nas costas curvadas) a tristeza de sempre. Empurra a porta, que alguém deixou encostada, com uma mão, enquanto na outra segura o saco das compras. Entra no prédio frio e dirige-se às caixas do correio. Tem a jeito a chave e com ela faz rodar a pequena fechadura. No interior, nada. As notícias porque espera insistem em não chegar (nem repara que hoje já ninguém escreve em papel). Não chegarão, mas ainda não o sabe. Ou talvez o saiba e prefira negar-se a aceitar.
Estamos em 2009 e à mágoa guarda-a desde há dois anos. Há 746 dias, aliás, e contou-os assim, exactos.
No saco das compras a que nos referimos no início, e ao qual voltaremos por mais uma vez além desta, está o essencial - e nada mais do que isso - para se manter viva. Come por verdadeira necessidade, não encontrando no acto o mais ínfimo gáudio. De resto, prazer de qualquer espécie é nela substantivo abstracto.
- Miguel - disse ao chegar a casa.
- Miguel - repetiu ao não obter resposta.
- Miguel - procurou no telemóvel.
- Miguel - disse-lhe a voz do outro lado a meio da frase "Olá sou o... e não posso atender".
- Miguel - pensou repetidas vezes nas horas seguintes.
- Miguel - contou a toda a gente, do ex-marido ao resto da família. Da polícia aos amigos. Dos vizinhos a desconhecidos.
- Miguel - chorou como ainda chora sempre que se aproxima do quarto, intacto, como no dia em que Miguel, demasiado novo para não estar ali, desapareceu.
A cama continua por fazer, a roupa ainda está espalhada e a secretária onde estudava e fazia os trabalhos de casa (ou fingia fazer uma e outra coisa) permanece desarrumada. Nos dias, raros, em que não sente que morre, diz, como se fosse ouvida, "olha como é que deixaste o quarto".
O pão, os iogurtes, as maçãs, o saco vazio que aperta nas mãos. Fixando o olhar num ponto indefinido, paralisa.
- Miguel - volta a chamar.
Há uma lágrima - provavelmente sempre a mesma - a escorrer-lhe pelo rosto. Desencontraram-se para nunca mais. Em suspenso, recomeça a cada dia, ignorando que o ciclo não vai ter fim.
31 de dezembro de 2012
2013
Quando criança, talvez nos meus 6 ou 7 anos, à pergunta "o que é que queres ser quando for grande?" costumava responder "Presidente da República". Cresci mais um pouco e percebi que a vocação, afinal, seria para outras áreas mais dentro da lei.
Tenho muita sorte e digo-o muitas vezes (porque me acho realmente um privilegiado): há quase treze anos que faço aquilo que sempre sonhei fazer. E nunca precisei de fazer outra coisa que não isto. À minha volta, vejo tanta gente com talento, com tanto para dar, agarrada a empregos que não lhes dizem nada e a vidas aborrecidas que lhes tiram os sorrisos e só me posso considerar um sortudo.
Mas a sorte também se conquista. Com trabalho, abnegação e muitas, muitas horas de entrega àquilo que acreditamos valer a pena. Na faculdade, tive um professor que, além dos péssimos hábitos de higiene, tinha uma frase que usava sempre que nos queria fazer entender. Dizia mais ou menos assim: "só depois de terem feito a vossa parte é que têm direito de reclamar se as coisas não vos correrem bem".
No fundo é isto. Fazer a nossa parte. No limite, podemos fazer até o que nos compete e mesmo assim não resultar. Mas desistir antes de tentar, é assumir a derrota sem sequer termos entrado em campo.
Os bons empregos conquistam-se, a realização profissional e pessoal alcança-se. Mas custa. O que eu vejo hoje, para além de toda a crise, é a promoção da cultura do facilitismo (e os seus resultados). Pais que levam os filhos ao colo até muito depois do que era suposto e filhos que esperam que os pais lhes bastem muito para lá do que deveriam bastar.
É preciso lutar por aquilo que queremos e os protagonistas das nossas lutas só podemos ser nós.
É preciso lutar por aquilo que queremos e os protagonistas das nossas lutas só podemos ser nós.
Já não quero ser Presidente da República, mas quando cheguei a adulto percebi que o disparate de criança tinha, afinal, que ver com outra coisa: ambição.
Quanto maior sonharem, mais longe chegarão. Mas acordem, entretanto. Acordem e façam o que querem que seja feito.
Que 2013, para lá de todos os défices, seja o ano de quem ambiciona.
26 de dezembro de 2012
Telefonar
Por favor, não me telefonem. Se tiverem alguma coisa para me dizer, enviem um e-mail, sms, até uma mensagem no Facebook. Telefonar, não.
O telefone tem para mim funções essenciais. Mas telefonar não é uma delas. Não contem por isso com conversas prolongadas ou simpatias extremas.
Restrinjamo-nos ao estritamente necessário: se, à distância, querem mesmo falar comigo - se não podem (ou não sabem) escrever - digam-no rapidamente, sem rodeios. E terminada a empreitada, desliguem na hora. Um "até logo" é suficiente para indicar o fim da conversa.
Por outro lado, se sou eu a telefonar, notem que o faço com um interesse específico. Para perguntar alguma coisa, dar um recado que é mais perceptível dito que escrito, ou confirmar uma informação. Ou seja, poupem nas derivações.
Não encontro, acreditem, ponta de romantismo em telefonemas sussurrados, prolongados no tempo durante horas a fio. Não desvendo, confirmo-vos já, réstia de amabilidade em perguntas de circunstância. Acho até suspeito que queiram saber sobre a minha prima e pior ainda sobre a saúde dos meus gatos.
Se por acaso tentaram falar comigo e eu não atendi, o mais provável é que tenha optado por vos ignorar. Não vos guardo nenhum rancor, não me recordo do grande mal que pensam ter feito (o que quererá dizer que não me fizeram grande mal nenhum). Simplesmente, simplesmente mesmo (e às vezes as coisas são lineares, sim), não quero falar ao telefone.
Temos uma relação difícil eu e ele. O meu telefone de casa, que tive de instalar para poder ter ADSL, está na realidade desligado, arrumado a um canto. E quanto ao telemóvel, é óptimo - fundamental - para aceder à Internet em qualquer lugar.
Num sentido restrito, telefonar é uma seca. Poupem-me ao aborrecimento. Por favor.
25 de dezembro de 2012
Volúpia
E no final fica assim, deitada, de lado, corpo despido, apenas parte das pernas tapadas com a colcha. Virada de costas para ele e de frente para a janela, olhando a rua e esperando um abraço não demasiado apertado ou excessivamente longo. Apenas a mão por alguns segundos em cima da sua barriga, subindo depois numa carícia até ao peito nu, apertando-lhe um dos seios.
É como se ainda o sentisse dentro dela. O seu sexo continua húmido e quente, latejando de desejo, mas agora de uma vontade consumada. Um fio do prazer dele escorre-lhe pela coxa e acabará por cair no lençol.
Fumasse, fumaria agora um cigarro, entregue à volúpia do momento. Quem a vê com o este ar doce, olhos semi-cerrados, não imagina que, não há muito tempo, o seu corpo esteve entregue a uma transe de gemidos e gritos e palavrões e expressões faciais.
Da viagem recente ao Mali, trouxera um CD de Salif Keita. Foi então ao som do pouco condizente Madan que tudo se passou. E o que se passou foram gestos largos, posições de momento, pedidos de "mais forte", "tudo, tudo", "agarra-me", "puxa-me o cabelo", "o rabo, o rabo" e um expressivo "ohhhh foda-se, estou-me a vir" final, a duas vozes.
Para ela, o sexo deveria ser sempre assim, com foi o de hoje. Preliminares - muito importantes - demorados, de preferência num lugar inesperado. Despida peça a peça, roupa espalhada pela casa, apalpada contra a parede, em movimentos descoordenados pela tesão. E então atirada contra a cama, "come-me agora".
O seu sexo não tem hora marcada. Também não tem proibições prévias. Entrega-se e espera que desse acto de confiança resultem orgasmos, de preferência muitos e de preferência vários seguidos.
23 de dezembro de 2012
De umas e outras coisas
E haviam os lugares e as pessoas nos lugares. E haviam os cheiros e as conversas. E assim haviam os lugares, as pessoas, os cheiros e as conversas. E tudo no mesmo tempo, aquele em que, sem darmos por isso, éramos felizes, tanto como se pode ser.
Mudaram então as coisas, as coisas todas. E do passado fica o restolho, as cadeiras vazias e a sala desarrumada. Fica o eco das conversas que já não se têm. E as memórias, as lembranças até do cheiro que já não se sente, a não ser de olhos fechados. E fechando os olhos voltamos a estar ali - por ficar tão perto - no lugar onde as coisas aconteciam.
Crescemos uns, envelhecemos e morremos, outros. E conjugávamos o verbo assim, sempre na primeira pessoa do plural, fazendo-nos parte da colectividade, dos que ao mesmo tempo entre os que cresceram e os que morreram, porque era assim, unos, que nos tínhamos uns aos outros, não só ali, naquela mesa comprida, mas sempre que precisos.
Os abraços e os beijos, o afecto. E percebemos agora as palavras, uma, outra e a terceira. Entendemos que havia ali tempo presente, o mesmo que agora é passado.
E agarramo-nos às recordações. E no que não esquecemos mantemos viva uma coisa qualquer, indefinível, mas decifrável, se nos restarmos a pensar sobre o quê, onde e quando.
Nas palavras em desalinho, sem que as frases que delas resultam tenham que fazer sentido, eternizamos qualquer coisa, que nem sabemos o que é. Que nem será o que julgamos ser.
Mas não lamentamos. Temos saudades, mas não sentimos pena. Foi como acabou por ser. É como se tornou. E, com o fatalismo com que se justificam as coisas que não têm explicação - ou não precisam de ter - aceitamos o que a vida fez connosco, o que a vida fez de nós.
Natal feliz.
22 de dezembro de 2012
Vinho
(se o autor do blogue gostasse de coisas vulgares, aqui estaria uma imagem com uma frase feita atribuída a Clarice Lispector, mesmo não sendo ela a autora)
A mais firme convicção que me chegou com os trinta é a de que não voltarei a beber vinho mau. Porque a diferença que há entre um bom e um mau tinto - e o vinho será sempre tinto - é a duração do final.
A partir de uma determinada idade um homem deixa de ter vontade de perder tempo com copos de três, bebidos de penalti, sujeitos a uma cara feia e a um ligeiro esgar que, não sendo de dor, será sempre de algum arrependimento.
Escolhi, então, beber vinho bom, mesmo que isso signifique que beberei menos.
Não sei o momento exacto da decisão, mas aqui há dias dei por mim a olhar para o expositor do supermercado e a concentrar-me apenas nas garrafas das prateleiras mais altas.
Acontece que este não é um texto sobre vinho. E a ser sobre alguma coisa, então ele é sobre decisões, sobre estar preparado para as tomar e até sobre a sua inevitabilidade.
Há um momento em que tudo faz sentido. O momento em que nos sentimos libertos (e não apenas livres) e em que, mesmo sem darmos por isso, respiramos de alívio porque estamos a conseguir seguir em frente.
Aceitarmos as coisas - boas e más - como naturais será a condição essencial para aceitarmos, logo a seguir, que não há histórias perfeitas. E o dia em que compreendemos isso - e compreender não é só perceber - torna-se o dia em que nos sabemos capazes de recomeçar tudo de novo. E recomeçar não tantas vezes quantas necessárias, mas tantas quantas aconteçam.
E de repente acontece mesmo. E mesmo sem quereremos - ou querendo sem saber - deixamos que seja assim e acaba por ser muito melhor do que pensávamos que seria.
Uma amiga que sabe da vida muito mais do que eu disse-me em Outubro, à
mesa de um casamento, que é tudo uma questão de escolha, de querer e fazer por isso. Parece que a nossa vida depende muito mais de nós do que aquilo que imaginamos.
Com a idade, tornei-me muito mais exigente com o vinho. E o que de melhor isso tem, é que sou agora capaz de o apreciar como nunca antes o fizera.
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