10 de maio de 2013

Mindelo, 10 de Maio de 2013

Queixam-se os meus amigos do pouco uso que lhe dou (ao blogue, bem entendido). E eu acho que estão cheios de razão. 

Tentarei recupera-lo, mais uma vez, entregando-o agora ao estilo de diário (que sei à partida ser apenas uma força de expressão). Não há periodicidade definida, apenas a possibilidade de textos abreviados, ao ritmo da vida mundana. No fundo, o que procuro é uma justificação editorial para poder vir aqui e criar um post só com três palavras: "puta que pariu". 

Eu e o meu blogue - a caminho dos sete anos - temos uma daquelas relações enfadonhas, que já deram tudo o que tinham para dar, mas que mesmo assim persistem. Neste caso a estupidez é ainda maior, uma vez que nem filhos temos. 

Não esperem nada de muito empolgante. Vivo numa ilha e demoro 15 minutos a chegar ao ponto mais longe da mesma. Se começar a falar demasiado em cabras, desconfiem. 

Textos maiores podem acontecer, mas em geral será uma experiência eminentemente bucólica. 

25 de março de 2013

Escuro

Está sentado numa cadeira normal, na sala escura. As duas janelas, uma atrás e outra à esquerda, estão abertas e só as cortinas, leves, separam a rua da casa.

Desligou a televisão, o rádio, o computador e o telemóvel. Há por isso um silêncio apenas quebrado, a espaços, pelo ruído de um carro a passar na estrada calcetada.

Antes de se sentar, tirou a roupa. Descalço, sente o frio do chão.

Estica o braço direito. Toca no corpo nu à sua frente. Acompanha a curva do ombro e, com delicadeza, desce pelo braço. Detém-se a meio caminho. Passa do braço para o seio. Com um dedo apenas, a ponta do dedo, desenha círculos à volta do mamilo, que enrijece. Repete o caminho com a outra mão, no braço esquerdo, primeiro, no peito, depois. Aperta-lhe agora as mamas. O corpo estremece e o seu também. Contraria a vontade que se manifesta e que lhe pede que a tenha logo ali.

Ao mesmo tempo, as duas mãos seguem até ao ventre que lhe parece liso como nenhum outro. A pele - imagina-a como de seda fina - arrepia-se e a barriga contrai-se. 

As pernas estão juntas mas sem aviso separam-se. A mão esquerda continua na barriga, antes de subir novamente até ao peito. A mão direita, dois dedos apenas, percorre o interior da coxa. 

Do sítio até onde chegou já consegue sentir o calor e, quase que jura, o sabor. Espera a aprovação que surge com um ligeiro deslizar para a frente. 

Toca-lhe por fim no sexo húmido, alvo. Primeiro um gemido, depois outro, ao qual se junta pouco depois, em coro, ainda mais um, este mais grave. Finalmente, respirações ofegantes acompanham os gemidos, gemidos e respirações, ofegantes, gemidos, respirações. 

Até que tudo acaba como começou.

Um homem e uma mulher, sentados frente a frente, em cadeiras normais, na sala escura, duas janelas abertas, o chão frio e um carro a passar na rua.


- Não sei que te diga.

- Não preciso que me digas nada.

- Mas é surpreendente.

- Para ti.

- Achas normal?

- Acho uma merda.

- E esperavas?

- Nunca.

- E agora?

- Não faço ideia.

- Pois, presumo que não.

- Café?

- Café.

19 de março de 2013

Do pai João


Deixem-me ser claro: devo-lhe muito. Devo-lhe, por exemplo, e acima de tudo, o carácter forte. Espero um dia dever-lhe também a moral inabalável e a consciência tranquila de quem nunca, deliberadamente, prejudicou o outro. 

Digo-o sem exageros: o meu pai é fabuloso. É isso tudo, por todas as coisas que me ensinou, mas principalmente por tudo aquilo que aprendi com ele, sem que disso tomasse fé. 

O meu pai é um homem bom. Um homem bom, que ama a vida, que ama a terra e as coisas simples. E com isso me ensinou que o amor reproduz-se em mais amor e que a essência da felicidade está guardada em nós e nos actos que praticamos. 

O meu pai é também um homem inteligente. Um conhecedor profundo, um curioso incansável, um investigador determinado. E foi com ele que aprendi a nunca me contentar com um encolher de ombros, a perguntar sempre, por mais estúpida que possa parecer a pergunta. Mas conheci também o valor do silêncio, de nem sempre dizer tudo, porque há coisas que devemos guardar só para nós.

Ao meu pai devo, assim, a maior parte de mim. Aquela em que sou quem quero ser.

À distância de algumas horas de voo, porque foi assim que reconfigurámos o nosso amor, estás sempre comigo, companheiro. Sempre. 

Este é o abraço que te dou.

30 de janeiro de 2013

Viver sem joelheiras

São para mim tudo as pessoas que não se conformam. Sou um bocado assim, também. Quanto temos um problema, se estamos insatisfeitos, o melhor que podemos fazer - e talvez a única coisa a ser feita - é arregaçar as mangas e reverter a situação. 

Da minha experiência, sei que nem sempre conseguimos (ou pelo menos com os resultados esperados), mas alguma coisa, nem que seja o embrião de uma mudança, fica ali, a germinar. 

No final do ano passado, uma amiga de muita estima disse-me que se preparava para largar tudo: a cidade e a família que ama, os amigos que adora e um emprego confortável e que lhe garantia um futuro sem grandes sobressaltos. 

Isso não lhe basta. O emprego e a cidade, um e outro - que no caso se relacionam - não lhe bastam. Porque precisa de novos horizontes, porque olha para a secretária do lado e não se revê na tacanhez das ideias e das vidas feitas. 

Disse-lhe o que pensava: se vais, corta de vez. Se é para cortar, que seja a direito. Se vais arriscar, arrisca sem medo. 

Quando arriscamos, existe sempre a possibilidade de correr mal. Mas o resultado do atrevimento, na sua imprevisibilidade, só é conhecido depois de feito o exercício. 

Sou assim pelo risco. Pelo tentar. Por isso, apaixonam-me as pessoas ousadas, que perseguem ideais, que sonham, ambicionam. 

De uma forma ou de outra, todos procuramos o nosso lugar no mundo, na cidade latu sensu. Há quem o encontre em rotinas e dias programados Há quem o deseje em empregos estáveis. E depois existem os outros, os que não o encontram numa vida de longo prazo e que por isso mesmo precisam de continuar a procurar. 

Será essa a principal maravilha dos tempos modernos. É fácil - é muito mais fácil, pelo menos - concretizar a inquietude.


12 de janeiro de 2013

Nota breve sobre os silêncios

Com a idade, vai-se tornando cada vez mais óbvia a minha incapacidade para conversas de circunstância. Com a idade também - e esta é a parte boa - habituei-me ao facto e aceitei-o, até. 

Percebi, enfim, que nunca serei daquelas pessoas capazes de passar horas a trocar trivialidades com um qualquer interlocutor. Para mim, uma conversa deve ser suculenta. Pode até estar cheia de disparates, mas ainda assim, no registo, suculenta. 

Foi uma conquista importante. Deixar de me sentir obrigado a manter viva uma troca de palavras só pelo cumprimento de uma obrigação social (?). Agora, assumo os silêncios. 

Se perante alguém, não tenho nada para dizer, então o que tenho a dizer é isso mesmo: nada. Libertador.

8 de janeiro de 2013

Miguel

Traz no olhar (como nos ombros caídos, no andar arrastado, nas costas curvadas) a tristeza de sempre. Empurra a porta, que alguém deixou encostada, com uma mão, enquanto na outra segura o saco das compras. Entra no prédio frio e dirige-se às caixas do correio. Tem a jeito a chave e com ela faz rodar a pequena fechadura. No interior, nada. As notícias porque espera insistem em não chegar (nem repara que hoje já ninguém escreve em papel). Não chegarão, mas ainda não o sabe. Ou talvez o saiba e prefira negar-se a aceitar.

Estamos em 2009 e à mágoa guarda-a desde há dois anos. Há 746 dias, aliás, e contou-os assim, exactos.

No saco das compras a que nos referimos no início, e ao qual voltaremos por mais uma vez além desta, está o essencial - e nada mais do que isso - para se manter viva. Come por verdadeira necessidade, não encontrando no acto o mais ínfimo gáudio. De resto, prazer de qualquer espécie é nela substantivo abstracto.

- Miguel - disse ao chegar a casa.

- Miguel - repetiu ao não obter resposta.

- Miguel - procurou no telemóvel.

- Miguel - disse-lhe a voz do outro lado a meio da frase "Olá sou o... e não posso atender". 

- Miguel - pensou repetidas vezes nas horas seguintes. 

- Miguel - contou a toda a gente, do ex-marido ao resto da família. Da polícia aos amigos. Dos vizinhos a desconhecidos. 

- Miguel - chorou como ainda chora sempre que se aproxima do quarto, intacto, como no dia em que Miguel, demasiado novo para não estar ali, desapareceu. 

A cama continua por fazer, a roupa ainda está espalhada e a secretária onde estudava e fazia os trabalhos de casa (ou fingia fazer uma e outra coisa) permanece desarrumada. Nos dias, raros, em que não sente que morre, diz, como se fosse ouvida, "olha como é que deixaste o quarto". 

O pão, os iogurtes, as maçãs, o saco vazio que aperta nas mãos. Fixando o olhar num ponto indefinido, paralisa.

- Miguel - volta a chamar. 

Há uma lágrima - provavelmente sempre a mesma - a escorrer-lhe pelo rosto. Desencontraram-se para nunca mais. Em suspenso, recomeça a cada dia, ignorando que o ciclo não vai ter fim.


31 de dezembro de 2012

2013

Quando criança, talvez nos meus 6 ou 7 anos, à pergunta "o que é que queres ser quando for grande?" costumava responder "Presidente da República". Cresci mais um pouco e percebi que a vocação, afinal, seria para outras áreas mais dentro da lei.

Tenho muita sorte e digo-o muitas vezes (porque me acho realmente um privilegiado): há quase treze anos que faço aquilo que sempre sonhei fazer. E nunca precisei de fazer outra coisa que não isto. À minha volta, vejo tanta gente com talento, com tanto para dar, agarrada a empregos que não lhes dizem nada e a vidas aborrecidas que lhes tiram os sorrisos e só me posso considerar um sortudo.

Mas a sorte também se conquista. Com trabalho, abnegação e muitas, muitas horas de entrega àquilo que acreditamos valer a pena. Na faculdade, tive um professor que, além dos péssimos hábitos de higiene, tinha uma frase que usava sempre que nos queria fazer entender. Dizia mais ou menos assim: "só depois de terem feito a vossa parte é que têm direito de reclamar se as coisas não vos correrem bem". 

No fundo é isto. Fazer a nossa parte. No limite, podemos fazer até o que nos compete e mesmo assim não resultar. Mas desistir antes de tentar, é assumir a derrota sem sequer termos entrado em campo.

Os bons empregos conquistam-se, a realização profissional e pessoal alcança-se. Mas custa. O que eu vejo hoje, para além de toda a crise, é a promoção da cultura do facilitismo (e os seus resultados). Pais que levam os filhos ao colo até muito depois do que era suposto e filhos que esperam que os pais lhes bastem muito para lá do que deveriam bastar.

É preciso lutar por aquilo que queremos e os protagonistas das nossas lutas só podemos ser nós.

Já não quero ser Presidente da República, mas quando cheguei a adulto percebi que o disparate de criança tinha, afinal, que ver com outra coisa: ambição. 

Quanto maior sonharem, mais longe chegarão. Mas acordem, entretanto. Acordem e façam o que querem que seja feito. 

Que 2013, para lá de todos os défices, seja o ano de quem ambiciona.


26 de dezembro de 2012

Telefonar

Por favor, não me telefonem. Se tiverem alguma coisa para me dizer, enviem um e-mail, sms, até uma mensagem no Facebook. Telefonar, não. 

O telefone tem para mim funções essenciais. Mas telefonar não é uma delas. Não contem por isso com conversas prolongadas ou simpatias extremas.

Restrinjamo-nos ao estritamente necessário: se, à distância, querem mesmo falar comigo - se não podem (ou não sabem) escrever - digam-no rapidamente, sem rodeios. E terminada a empreitada, desliguem na hora. Um "até logo" é suficiente para indicar o fim da conversa. 

Por outro lado, se sou eu a telefonar, notem que o faço com um interesse específico. Para perguntar alguma coisa, dar um recado que é mais perceptível dito que escrito, ou confirmar uma informação. Ou seja, poupem nas derivações.

Não encontro, acreditem, ponta de romantismo em telefonemas sussurrados, prolongados no tempo durante horas a fio. Não desvendo, confirmo-vos já, réstia de amabilidade em perguntas de circunstância. Acho até suspeito que queiram saber sobre a minha prima e pior ainda sobre a saúde dos meus gatos.

Se por acaso tentaram falar comigo e eu não atendi, o mais provável é que tenha optado por vos ignorar. Não vos guardo nenhum rancor, não me recordo do grande mal que pensam ter feito (o que quererá dizer que não me fizeram grande mal nenhum). Simplesmente, simplesmente mesmo (e às vezes as coisas são lineares, sim), não quero falar ao telefone. 

Temos uma relação difícil eu e ele. O meu telefone de casa, que tive de instalar para poder ter ADSL, está na realidade desligado, arrumado a um canto. E quanto ao telemóvel, é óptimo - fundamental - para aceder à Internet em qualquer lugar. 

Num sentido restrito, telefonar é uma seca. Poupem-me ao aborrecimento. Por favor.


25 de dezembro de 2012

Volúpia


E no final fica assim, deitada, de lado, corpo despido, apenas parte das pernas tapadas com a colcha. Virada de costas para ele e de frente para a janela, olhando a rua e esperando um abraço não demasiado apertado ou excessivamente longo. Apenas a mão por alguns segundos em cima da sua barriga, subindo depois numa carícia até ao peito nu, apertando-lhe um dos seios.

É como se ainda o sentisse dentro dela. O seu sexo continua húmido e quente, latejando de desejo, mas agora de uma vontade consumada. Um fio do prazer dele escorre-lhe pela coxa e acabará por cair no lençol. 

Fumasse, fumaria agora um cigarro, entregue à volúpia do momento. Quem a vê com o este ar doce, olhos semi-cerrados, não imagina que, não há muito tempo, o seu corpo esteve entregue a uma transe de gemidos e gritos e palavrões e expressões faciais.

Da viagem recente ao Mali, trouxera um CD de Salif Keita. Foi então ao som do pouco condizente Madan que tudo se passou. E o que se passou foram gestos largos, posições de momento, pedidos de "mais forte", "tudo, tudo", "agarra-me", "puxa-me o cabelo", "o rabo, o rabo" e um expressivo "ohhhh foda-se, estou-me a vir" final, a duas vozes. 

Para ela, o sexo deveria ser sempre assim, com foi o de hoje. Preliminares - muito importantes - demorados, de preferência num lugar inesperado. Despida peça a peça, roupa espalhada pela casa, apalpada contra a parede, em movimentos descoordenados pela tesão. E então atirada contra a cama, "come-me agora". 

O seu sexo não tem hora marcada. Também não tem proibições prévias. Entrega-se e espera que desse acto de confiança resultem orgasmos, de preferência muitos e de preferência vários seguidos.