16 de maio de 2013

Mindelo, 16 de Maio de 2013

A época que está prestes a terminar tem tudo para se tornar um fiasco. O Benfica foi - e não pode ser - a equipa do quase. Quase campeão, quase vencedor da Liga Europa. Dos segundos não reza a história. O Benfica de Jesus tem muitos méritos, mas tem o grande desmérito de ser uma equipa que falha em cima da linha de meta. Não é de agora. Aconteceu várias vezes ao longo dos últimos anos.

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A França entrou em recessão. O crescimento económico na Alemanha está a abrandar e os germânicos podem seguir o mesmo caminho dos vizinhos gauleses. Péssimas notícias para Merkel, prestes a ir a votos, mas nada que surpreenda - a economia alemã depende, em grande escala, das exportações e os seus clientes preferenciais estão em crise prolongada.

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Gosto muito do Miguel Esteves Cardoso e das coisas acertadas que escreve (e da forma como o faz). Preferia-o, contudo, no pré-romantismo. O tamanho do amor pela Maria João chega a incomodar. Inveja minha, talvez.

15 de maio de 2013

Mindelo, 15 de Maio de 2013

Sou um tipo que fala sozinho. Frequentemente. Resolvo muitos assuntos assim. De manhã, especialmente, protagonizo monólogos enormes. E hoje, assim que acordei, percebi com clarividência que tenho uma natural tendência para os loucos, que me agradam, mas que já me falta paciência para os mentalmente desarrumados. Gente que não sabe o que quer, que hoje é isto e amanhã é aquilo. Não há nada que substitua as pessoas que estão bem consigo próprias.

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O iTunes acordou-me hoje com Sam & Dave, Hold On, I'm comin'. Gostava de perceber alguma coisa de música para rematar este parágrafo com uma frase sábia e definitiva.

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Há coisas que não mudam. Por exemplo, inventar 'cenas' para fazer quando alguma coisa chata precisa de ser feita. Lembro-me dos tempos de faculdade, das vésperas do exames e das vezes que arrumei o quarto nesses dias. 

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Chega hoje às bancas francesas um novo jornal. Em tempos de crise e severa redução de vendas, L'Opinion é uma ousadia. Dirigido por Nicolas Beytout, que já andou pelo Figaro, o título quer fazer a ponte entre o online e o impresso, para que uma e outra edições se complementem. Já ouvimos isto antes - dezenas de vezes - e até agora ninguém cumpriu a promessa. 

Continuo a achar que há lugar para jornais em papel (e até já achei o contrário). Têm é que ser a antítese daquilo que têm sido até agora. Espero (ainda que desconfiado) que seja desta. O mercado precisa de sinais. E as crises precisam de bom jornalismo. Mais aqui. 

13 de maio de 2013

Mindelo, 13 de Maio de 2013

Quando se vive no estrangeiro, ter amigos é tudo. São a nossa base de sustentação, a nossa família. Acho que encontrei o tema da próxima crónica para o Público. 

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Por falar em família e amigos, este é um ano de visitas simpáticas. Em Março foi a minha prima Inês, em Junho será outra Inês, neste caso uma grande amiga. Em Julho, a minha tia Lena, acompanhada da minha afilhada Dulce. Em Agosto, a Patrícia e a Paula (que chegam a meio do festival, pelo que já foram avisadas sobre a necessidade de trazerem consigo pastilhas apropriadas para estado de ressaca). Se tudo correr bem, o ano terminará com a estadia prolongada dos meus pais. 

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Profissionalmente, tenho-me saído bem. Acho que consegui, até agora, tomar as decisões certas, nos momentos exactos. 

Pessoalmente, a história é outra. O caminho que devo percorrer é ainda muito longo. Sujeito-me, repetidamente, a situações às quais me deveria poupar e que acabam por ter reflexos na minha vida e na vida dos implicados. Presumo que seja uma aprendizagem e por isso espero aprender rapidamente. 

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Candidatei-me ao mestrado. Não sei bem onde é que me estou a meter.

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Demasiado trabalho em mãos. Além do costume, uma entrevista para a The Africa Report e uma reportagem para o i. Uma e outra já atrasadas. 

11 de maio de 2013

Mindelo, 11 de Maio de 2013

Salvo raras excepções, há muito que os fins-de-semana deixaram de o ser verdadeiramente. Sábado é dia de trabalho, ainda que a velocidade de cruzeiro, calções e chinelos. Domingo em stand by, mas com urgentes e pendentes quase sempre.

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Polémico, o meu último artigo no P3. Sempre que se fala em viver com menos, os portugueses perdem as estribeiras. Não todos, é certo, mas uma grande maioria, e habitualmente com insultos. Estranha forma de argumentar.

De facto, acho mesmo que a crise nos ensinará sobre a necessidade de abdicar de algumas coisas secundárias. Contra mim falo. Não sou um exemplo de desmaterialização. Certo é que se trata de um processo ao qual ninguém escapa.

A forma com sentimos a crise tem tudo a ver com gestão de expectativas. O que esperávamos ser, aquilo que esperávamos ter e atingir. Aos nossos filhos, aqueles que nascem neste mundo em mudança, será mais fácil explicar isto.

10 de maio de 2013

Mindelo, 10 de Maio de 2013

Queixam-se os meus amigos do pouco uso que lhe dou (ao blogue, bem entendido). E eu acho que estão cheios de razão. 

Tentarei recupera-lo, mais uma vez, entregando-o agora ao estilo de diário (que sei à partida ser apenas uma força de expressão). Não há periodicidade definida, apenas a possibilidade de textos abreviados, ao ritmo da vida mundana. No fundo, o que procuro é uma justificação editorial para poder vir aqui e criar um post só com três palavras: "puta que pariu". 

Eu e o meu blogue - a caminho dos sete anos - temos uma daquelas relações enfadonhas, que já deram tudo o que tinham para dar, mas que mesmo assim persistem. Neste caso a estupidez é ainda maior, uma vez que nem filhos temos. 

Não esperem nada de muito empolgante. Vivo numa ilha e demoro 15 minutos a chegar ao ponto mais longe da mesma. Se começar a falar demasiado em cabras, desconfiem. 

Textos maiores podem acontecer, mas em geral será uma experiência eminentemente bucólica. 

25 de março de 2013

Escuro

Está sentado numa cadeira normal, na sala escura. As duas janelas, uma atrás e outra à esquerda, estão abertas e só as cortinas, leves, separam a rua da casa.

Desligou a televisão, o rádio, o computador e o telemóvel. Há por isso um silêncio apenas quebrado, a espaços, pelo ruído de um carro a passar na estrada calcetada.

Antes de se sentar, tirou a roupa. Descalço, sente o frio do chão.

Estica o braço direito. Toca no corpo nu à sua frente. Acompanha a curva do ombro e, com delicadeza, desce pelo braço. Detém-se a meio caminho. Passa do braço para o seio. Com um dedo apenas, a ponta do dedo, desenha círculos à volta do mamilo, que enrijece. Repete o caminho com a outra mão, no braço esquerdo, primeiro, no peito, depois. Aperta-lhe agora as mamas. O corpo estremece e o seu também. Contraria a vontade que se manifesta e que lhe pede que a tenha logo ali.

Ao mesmo tempo, as duas mãos seguem até ao ventre que lhe parece liso como nenhum outro. A pele - imagina-a como de seda fina - arrepia-se e a barriga contrai-se. 

As pernas estão juntas mas sem aviso separam-se. A mão esquerda continua na barriga, antes de subir novamente até ao peito. A mão direita, dois dedos apenas, percorre o interior da coxa. 

Do sítio até onde chegou já consegue sentir o calor e, quase que jura, o sabor. Espera a aprovação que surge com um ligeiro deslizar para a frente. 

Toca-lhe por fim no sexo húmido, alvo. Primeiro um gemido, depois outro, ao qual se junta pouco depois, em coro, ainda mais um, este mais grave. Finalmente, respirações ofegantes acompanham os gemidos, gemidos e respirações, ofegantes, gemidos, respirações. 

Até que tudo acaba como começou.

Um homem e uma mulher, sentados frente a frente, em cadeiras normais, na sala escura, duas janelas abertas, o chão frio e um carro a passar na rua.


- Não sei que te diga.

- Não preciso que me digas nada.

- Mas é surpreendente.

- Para ti.

- Achas normal?

- Acho uma merda.

- E esperavas?

- Nunca.

- E agora?

- Não faço ideia.

- Pois, presumo que não.

- Café?

- Café.

19 de março de 2013

Do pai João


Deixem-me ser claro: devo-lhe muito. Devo-lhe, por exemplo, e acima de tudo, o carácter forte. Espero um dia dever-lhe também a moral inabalável e a consciência tranquila de quem nunca, deliberadamente, prejudicou o outro. 

Digo-o sem exageros: o meu pai é fabuloso. É isso tudo, por todas as coisas que me ensinou, mas principalmente por tudo aquilo que aprendi com ele, sem que disso tomasse fé. 

O meu pai é um homem bom. Um homem bom, que ama a vida, que ama a terra e as coisas simples. E com isso me ensinou que o amor reproduz-se em mais amor e que a essência da felicidade está guardada em nós e nos actos que praticamos. 

O meu pai é também um homem inteligente. Um conhecedor profundo, um curioso incansável, um investigador determinado. E foi com ele que aprendi a nunca me contentar com um encolher de ombros, a perguntar sempre, por mais estúpida que possa parecer a pergunta. Mas conheci também o valor do silêncio, de nem sempre dizer tudo, porque há coisas que devemos guardar só para nós.

Ao meu pai devo, assim, a maior parte de mim. Aquela em que sou quem quero ser.

À distância de algumas horas de voo, porque foi assim que reconfigurámos o nosso amor, estás sempre comigo, companheiro. Sempre. 

Este é o abraço que te dou.

30 de janeiro de 2013

Viver sem joelheiras

São para mim tudo as pessoas que não se conformam. Sou um bocado assim, também. Quanto temos um problema, se estamos insatisfeitos, o melhor que podemos fazer - e talvez a única coisa a ser feita - é arregaçar as mangas e reverter a situação. 

Da minha experiência, sei que nem sempre conseguimos (ou pelo menos com os resultados esperados), mas alguma coisa, nem que seja o embrião de uma mudança, fica ali, a germinar. 

No final do ano passado, uma amiga de muita estima disse-me que se preparava para largar tudo: a cidade e a família que ama, os amigos que adora e um emprego confortável e que lhe garantia um futuro sem grandes sobressaltos. 

Isso não lhe basta. O emprego e a cidade, um e outro - que no caso se relacionam - não lhe bastam. Porque precisa de novos horizontes, porque olha para a secretária do lado e não se revê na tacanhez das ideias e das vidas feitas. 

Disse-lhe o que pensava: se vais, corta de vez. Se é para cortar, que seja a direito. Se vais arriscar, arrisca sem medo. 

Quando arriscamos, existe sempre a possibilidade de correr mal. Mas o resultado do atrevimento, na sua imprevisibilidade, só é conhecido depois de feito o exercício. 

Sou assim pelo risco. Pelo tentar. Por isso, apaixonam-me as pessoas ousadas, que perseguem ideais, que sonham, ambicionam. 

De uma forma ou de outra, todos procuramos o nosso lugar no mundo, na cidade latu sensu. Há quem o encontre em rotinas e dias programados Há quem o deseje em empregos estáveis. E depois existem os outros, os que não o encontram numa vida de longo prazo e que por isso mesmo precisam de continuar a procurar. 

Será essa a principal maravilha dos tempos modernos. É fácil - é muito mais fácil, pelo menos - concretizar a inquietude.


12 de janeiro de 2013

Nota breve sobre os silêncios

Com a idade, vai-se tornando cada vez mais óbvia a minha incapacidade para conversas de circunstância. Com a idade também - e esta é a parte boa - habituei-me ao facto e aceitei-o, até. 

Percebi, enfim, que nunca serei daquelas pessoas capazes de passar horas a trocar trivialidades com um qualquer interlocutor. Para mim, uma conversa deve ser suculenta. Pode até estar cheia de disparates, mas ainda assim, no registo, suculenta. 

Foi uma conquista importante. Deixar de me sentir obrigado a manter viva uma troca de palavras só pelo cumprimento de uma obrigação social (?). Agora, assumo os silêncios. 

Se perante alguém, não tenho nada para dizer, então o que tenho a dizer é isso mesmo: nada. Libertador.