9 de abril de 2010

Pão com marmelada

Do seu tempo de criança recorda-se, em especial, dos Verões que, embora passados sempre no mesmo sítio, nunca se repetiram.

Ao chegar Agosto, eis as férias em família. Do último dia de Julho, traziam as malas feitas, o Fiat, carregado para lá do razoável (a mala e dois dos três lugares do banco traseiro), e o eco dos gritos de uma inconsequente discussão entre o pai e a mãe. Ele atarefado a inventar espaço para tudo o que Ela queria levar: "não vá faltar-nos alguma coisa".

A manhã começava cedo. Ainda a aurora estava longe, já a D. Carmelinda andava pela cozinha, com a sua camisa de noite florida, a panar os bifes que, depois de estarem dentro do pão, que o Sr. Carlos iria comprar logo às seis, assim abrisse a padaria, seriam o almoço da longa viagem. Impreterivelmente, Pedro era o último a acordar. Os pais poupavam-no à madrugada e poupavam-se à sua presença ensonada

Seriam sete, se já não fossem oito e meia. Motor nervoso, válvula do ar fechada. Quatrocentos quilómetros - "ainda falta muito? quantos quilómetros faltam?" - ou nem tanto, de Nacional. A serra e o vale. Um caminho apertado, nem sempre com asfalto. As bermas, no inverno, quando lá iam pelo Natal, verdes, às vezes brancas. No esplendor da "melhor estação do ano", castanhas, a cor do calor intenso, que não deixa respirar. Sufocante, como o aperto no peito, à última curva, antes da recta, 300 metros até ao início dos casebres. A periferia, mesmo nas aldeias, nunca é tão bonita como o centro. Dispersa e vulgar.

Pedro era o primeiro a sair do carro. "Pai, já vou". A corrida até ao tanque comunitário, a ver se água continuava verde. "Sim, continua". Naquele tanque, de águas paradas - numa altura em que os meninos o eram, como se os germes e os vermes de então não fossem mais do que personagens do Grande Livro dos Contos, essa narrativa sem páginas, a não ser as inscritas na memória da avó Maria sabia de cor - toda a aldeia, a de Agosto, de gentes ocasionais, se banhava.

Os Verões do seu tempo de criança não tinham consolas, televisão por cabo - televisão, sequer - ou Internet. Só calções, sapatilhas, joelhos magoados e pernas arranhadas pelos espinhos dos arbustos onde apanhava as amoras que comia, quentes, até ficar com uma dor de barriga que passava quando fazia cocó na horta do Sr. Casemiro, sem que ele imaginasse.

Agosto desses anos teve sempre demandas sagradas, do sol que nasce ao sol que se põe. "Mãe, posso ir?". E a mãe dizia que "sim, mas leva um boné". E levava também uma mochila com o lanche, que comia a meio da manhã. Duas fatias de pão caseiro, com marmelada e manteiga, um sumo, uma banana e era uma festa.

Voltava para casa ao meio-dia e meia, ao assobio combinado com o pai. Voltou sempre, todos os anos, durante muitos anos. Voltei hoje, já sozinho, para percorrer as ruas vazias, de uma terra que já não é de ninguém, mas que continua a ser a minha.

2 comentários:

Antígona disse...

Olha, fizeste-me vir as lágrimas aos olhos. Gostei muito deste texto :):):)

andorinhaavoaavoa disse...

Adorei! Já andavas há muito arredado destas escritas! Bem-vindo! Só tu escreves assim!