6 de novembro de 2012

Como uma carta


Seguro-te num abraço sem urgência. A tua pele nua, no meu corpo despido. A tua mão sobre o meu peito. O arrepio de te saber assim, junto.

No reflexo do teu olhar curioso revejo-me como em nenhum espelho. Segues-me e percebo a tua curiosidade, o conforto que sentes só por estar aqui.

O instante presente que guardo neste texto que escrevo - e que talvez um dia leias - é a expressão maior de uma simbiose tão perfeita que, fosse eu compositora, faria dela e em teu nome uma sinfonia, com violinos e clarinetes, tubas e violoncelos. 

Não queria ser mãe. Assustava-me na maternidade o eterno, até ao fim, o verdadeiro - e tanto quanto percebo, o único - compromisso "até que a morte vos separe". 

Ligar-me para sempre a alguém era até há pouco, e aos olhos de uma mulher efémera - passageira nos amores, no empregos, nas cidades e nas vontades - um longo termo demasiado pesado de pensar. 

"Tudo passa", diria a quem me perguntasse sobre o que fazer. E afinal, na subtracção do que fica pelo que passa, sobras tu, filho maior.

Levar-te-ei, pois, guardado em mim, e enquanto te cuido, preparo-te (e a mim) para que sigas por onde eu não for. E mesmo sozinho, certamente no abraço que agora te dou com este corpo que te deu a vida, aquela que te levará para longe de mim. 

O silêncio. E o amor. Da tua mãe.

1 comentário:

Antígona disse...

Olha Nuno - sem comentários. Lindíssimo este texto :)