18 de dezembro de 2007

A minha avó fez um bom serviço

Na minha família a minha avó funciona como um elo de ligação. É a matriarca, sem contestação.

Quando mudou de casa cuidou de não levar mais do que o necessário. Deixou cá o que passou uma vida (esta) a ensinar. E pelos vistos fomos todos bons alunos. A família, na forma e no conteúdo, persiste como ela nos explicou que as famílias devem ser: presentes e abrangentes, mas nunca demasiado absorventes, que se possam tornar monopolizadoras.

A minha avó...

A Ermelinda (sem Maria) é a velha mais patusca que conheci (e este é um lugar comum, que cabe aqui na perfeição). Apesar de nunca ter estudado grande coisa, passou metade da vida a aprender e a outra metada a explicar ao mundo como se vive com dignidade.

De um cuidado extremo com a sua escrita, muito meticulosa na linguagem, é dona de uma personalidade vincada, mas muito tolerante. Sabe gerir crises como ninguém e é extraordinária no jogo da antecipação: prevê um problema antes dele existir e habitualmente resolve-o antes de se tornar público.

Muro das lamentações de metade da família, nunca se recusa a ouvir quem precisa de desabafar. Se lhe telefonam e antevê uma conversa mais demorada, um gesto é quanto basta para que alguém lhe traga uma cadeira.

Minda, chamam-na assim, ganha o dia se, inesperadamente, der por ter a mesa cheia de gente. Há sempre comida a contar com mais alguém, mesmo que não se saiba quem e se.

A cama dela é a mais acolhedora, os mimos os mais doces, as mãos as mais suaves.

A minha avó já morreu, mas escrevo este texto no presente porque a memória das coisas boas persiste para lá da inevitabilidade.

2 comentários:

Pudget disse...

Sem palavras ou só com estas.

Cientista disse...

Lindo... um beijo.