20 de janeiro de 2011

38 anos depois de uma traição

“Tu vives – mãe adormecida / nua e esquecida / seca / fustigada pelos ventos / ao som de músicas sem música / das águas que nos prendem” . Os versos foram escritos pela mão de Cabral, na cidade da Praia, algures no ano de 1945. Por essa altura, Amílcar estaria prestes a deixar Cabo Verde em direcção a Lisboa.

O rapaz, nascido em Bafatá, na Guiné-bissau, a 12 de Setembro de 1924, cedo descobriu a vida de viajante. Ainda criança, trocou a África continental pelo arquipélago vizinho e foi no Mindelo que, em 1943, completou o liceu.

No Instituto Superior de Agronomia, em Portugal, forma-se e aprende a ciência de trabalhar a terra. Feito um estranho alquimista, sonha com dois países unidos, como “um clamar aos ventos que passam / e às aves que voam livres”.

Quando, em 1952, regressa à Guiné e pisa o chão de um país cuja história ajudaria a escrever, talvez não imaginasse que o seu caminho ficaria para sempre associado ao nascimento de duas nações independentes.

Ter-se-á disso apercebido o governador da então colónia portuguesa que, pouco disponível para os devaneios de um jovem de trinta anos, o expulsa em direcção a Angola. O exílio forçado serviu apenas para reforçar a convicção. O destino estava traçado. No MPLA aperfeiçoa o seu pensamento. A luta estava em marcha.

Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, os rostos de uma África portuguesa que se queria soberana, encabeçam um movimento que culminaria com a independência das colónias.

Conacri, 20 de Janeiro de 1973. O Volkswagen com dois ocupantes a bordo regressa à garagem da casa branca, de um único piso. Dois faróis e outros tantos perfis: Amílcar e a sua segunda mulher, Ana Maria. “Amarrem-no”, alguém grita na noite. No relógio, a hora: três da madrugada. O fundador do PAIGC resiste. Um disparo. Atingido no fígado, pede diálogo. A resposta: uma rajada de metralhadora. Traído pelos seus, cai por terra o líder histórico.

Amílcar Cabral foi um dos mais carismáticos líderes africanos. A sua acção não se limitou ao plano político. Ela foi também fundamental no campo cultural. Há 38 anos morreu o homem, o humanista e o poeta. Ficou o mito. E a poesia. “Ilha: teus montes e teus vales / não sentiram passar os tempos / e ficaram no mundo dos teus sonhos / os sonhos dos teus filhos”.



Publicado originalmente no Expresso das Ilhas n.º 477, de 19 de Janeiro de 2010

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