28 de abril de 2008

Quando eu morrer quero ser cremado*


A morte - esse fragmento de tempo que marca a passagem para um estado que nos "fica sempre tão bem" - tem qualquer coisa. Para já (período findo o qual) dificilmente se volta à vida, depois de morto. É preciso, eventualmente, ter uma bela cunha ou ser "filho de boa gente".

A puta da morte, destinada a consumir-nos, impõem-se com uma dureza sem reset e não nos deixa outra alternativa que não a de ir desta para melhor. Anos de existência, de criação, mesmo se mediocre ou inexistente - também se cria o nada - entregues ao degradante mundo das larvas. Morrer atrapalha-me a vida, mas apodrecer e ganhar cheiro chateia-me ainda mais. Por isso, quando eu morrer, façam o favor de me cremar.

Entreguem-me às chamas e deixem o fogo consumir a minha carcaça. Depois, destruída a carne, levem os meus ossos para a trituradora e esmaguem-nos até ao pó.

Quando eu morrer, não deixem a minha carne ser roída por vermes famintos. Queimem-me e deitem as cinzas ao poço. Também não quero ser adorado a título póstumo. Se querem gostar de mim, se querem odiar esta presença, façam-no em vida, para depois me deixarem sossegado. Agarrem-se à obra que deixo, mesmo se medíocre ou inexistente, e não ao meu malfadado corpo, que contudo não será corroído ou desgraçado para todo o sempre, porque vocês vão fazer o favor de me cremar.


*escrito em vida.

1 comentário:

Mário de Sá carneiro disse...

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá carneiro