30 de setembro de 2009

O discurso que eu teria escrito para Cavaco Silva:

Portugueses,

Dirijo-me hoje ao país com o objectivo de comentar as notícias vindas a público sobre a existência de escutas ou outra forma de vigilância ao Palácio de Belém.

Faço-o por considerar que tal suspeita deve ser esclarecida. Os portugueses têm o direito de saber se podem ou não confiar na segurança da residência oficial do seu Presidente da República.

Escolhi este momento e não um anterior, por considerar que esta é a altura oportuna para falar ao país. O Presidente da República escolhe os seus tempos e não se deixa influenciar por pressões de qualquer espécie.1

Respondendo ao essencial da questão, e não obstante a existência de falhas, como em qualquer rede, a Presidência da República baseia as suas comunicações num sistema seguro. Isso mesmo foi-me garantido pelos serviços do Estado a quem cabe zelar por estas questões.2

Sobre o essencial das notícias divulgadas, não lhes atribuo qualquer credibilidade. Confio no meu staff e confio, em particular, no assessor do Palácio de Belém visado pelos órgãos de comunicação social.3

Não obstante, como é do conhecimento público, o Dr. Fernando Lima foi por mim mudado de funções. Fi-lo porque, ainda que não acredite no seu envolvimento neste caso, entendo ser meu dever proteger a Presidência da República de quaisquer dúvidas.4

O país atravessa um momento político delicado, a par de uma situação económica difícil. O Presidente da República é e será sempre factor de estabilidade. Devemo-nos concentrar na tomada de posse de um novo Governo e no início de uma nova legislatura. Os portugueses exigem que os órgãos de soberania do país sejam capazes de resolver os problemas da Nação e para isso as instituições democráticas devem funcionar regularmente. Esta é a minha verdadeira preocupação. Tudo o resto não passa de ruído eleitoral que deve ser sanado.5

Termino, garantindo que, por parte do Presidente da República, este assunto encerra aqui. Estou certo que os partidos políticos terão a mesma atitude. O país precisa do esforço de todos e os portugueses precisam de saber que podem contar com o empenho da sua classe política. Quero que saibam que podem contar com o vosso Presidente da República.

Boa noite.



1. Justificação para o tempo escolhido, explicando o porquê de falar agora e não antes, como todos os comentadores e partidos políticos esperavam. Sinal de poder: O Presidente gere o seu tempo político.

2. As comunicações. O sinal de segurança aos portugueses. Reconhece que o sistema de comunicações não é perfeito - nenhum o é - mas assegura a sua confidencialidade.

3. Para sua defesa e para acabar com a polémica, o Presidente retira a credibilidade às notícias publicadas e afirma confiança no seu staff.

4. Contudo, explica ao país o porquê da sua decisão de mudar Fernando Lima de funções: Quis proteger o Palácio e poupar os portugueses a mais polémicas e suspeitas.

5. Recoloca as atenções políticas no que realmente importa. Desvaloriza o episódio e mostra postura de Estado.

4 comentários:

Sereia disse...

Ainda não consegui ouvir o original, mas já percebi que nem vale a pena!

Inesa disse...

Seria, sem dúvida, um discurso muito melhor do que o que ouvi ontem. Se por um lado o nosso PR esteve ao seu (mau) nível - fala pouco e quando fala não diz nada - por outro desceu ao nível dos(ditos)"manipuladores" que ele vem acusar. No entanto acho que este discurso continuaria a não explicar muita coisa, ou melhor, nada. Eu continuo a achar que onde há fumo há fogo e a história está muito mal contada.

Ontem, também achei particular graça ao facto do nosso querido PR dizer que não gosta de falar das "leituras pessoais" que faz dos assuntos que o rodeiam. Mas afinal, ele está ali para quê?

you know who disse...

O que me faz espécie (expressão sempre muito engraçada) é que ele teve imenso tempo para preparar o discurso. E, ainda assim, saiu aquilo?!?

Antígona disse...

Estás portanto um mestre do sofismo! O que equivale a dizer que o teu futuro só pode ser na política!